Capítulo 41 - O colapso da prova Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 41 de 133
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Capítulo 41 - O colapso da prova

Capítulo 41 - O colapso da prova

O cura retomou a leitura, e a venda parecia já conhecer o caminho da desgraça antes que as palavras chegassem. Lotário, que começara fingindo obedecer a Anselmo para salvar Camila, já não estava seguro de si. A frequência das visitas, a solidão fabricada, a confiança da casa e a beleza viva de Camila tinham feito crescer nele aquilo que primeiro julgara apenas papel representado.

Camila percebeu a mudança com maior clareza. Lotário falava agora com uma demora que não combinava com simples amizade. Seus elogios, antes raros e gerais, tornaram-se mais atentos. As pausas dele pesavam. Ela, honrada sem ingenuidade, sentiu que alguma coisa fora deslocada. Ainda não sabia o nome do perigo; a casa, porém, já não lhe parecia tão segura.

Quando Lotário enfim avançou para palavras mais abertas, Camila recuou com dignidade ferida. Lembrou-lhe que era amigo de Anselmo, que a casa o recebia por confiança, que qualquer galanteio ali era ofensa dupla. Lotário ouviu e envergonhou-se. A vergonha, em vez de detê-lo de vez, entrou nele misturada ao desejo.

Na venda, Doroteia soltou um suspiro quase imperceptível. Lucinda olhou para ela. Ambas conheciam aquela posição: a mulher obrigada a defender a própria vontade e a ordem que os homens ao redor já tinham rasgado. Sancho, mais direto, murmurou que quem manda outro abrir buraco não pode reclamar se a casa cai.

Camila tentou cortar o mal pela raiz. Escreveu a Anselmo, pedindo que voltasse ou que ao menos não permitisse visitas tão frequentes em sua ausência. Não acusou Lotário por inteiro; talvez ainda esperasse que a vergonha o corrigisse. Suas palavras deixavam clara a aflição: uma casa sem marido, recebendo diariamente o amigo do marido, começava a ser assunto perigoso, mesmo antes da culpa consumada.

Anselmo recebeu o aviso como quem recebe confirmação de seu experimento. Em vez de voltar, alegrou-se secretamente. A resistência de Camila lhe parecia sinal de que a prova funcionava. A inquietação dela, que deveria despertar proteção, despertou nele curiosidade maior. Respondeu com evasivas, prolongou a ausência e ordenou a Lotário que prosseguisse. A loucura da certeza já o tornara surdo ao sofrimento que produzia.

Lotário, ao saber da carta, compreendeu que Camila começava a sentir o cerco. Esse conhecimento deveria detê-lo. Por algumas horas, deteve. Anselmo, com sua insistência, empurrava-o de novo para a casa. O amigo exigia ousadia, e Lotário, meio por orgulho, meio por desejo, meio por já não saber recuar, voltou a procurar Camila.

Dessa vez, suas palavras não ficaram no terreno ambíguo. Confessou amor. Disse que lutara contra si mesmo, que entrara naquela situação por obediência absurda ao amigo, que agora estava vencido. Camila ouviu com espanto e ira. O que para Lotário parecia confissão sofrida, para ela era traição amadurecida dentro de sua própria sala.

Respondeu com firmeza. Disse que, se havia culpa, começara nele e em Anselmo, não nela. Disse que não consentiria em ser transformada em recompensa de prova nem em remédio para desejo alheio. Mandou que Lotário se afastasse e prometeu revelar tudo se ele persistisse. A cada palavra, sua honra se defendia sozinha, porque os que deviam defendê-la tinham preparado a ameaça.

Lotário saiu destruído, sem estar curado. O desejo, impedido, passou a disputar espaço com o medo. Se Camila contasse tudo, ele perderia Anselmo, honra, nome e talvez a própria segurança. Se calasse, a possibilidade continuava viva. A mentira inventada para evitar mal maior começava a defender a si mesma.

O cura leu então que Anselmo, escondido em parte de sua própria armadilha, decidiu observar mais de perto. Queria ver com os próprios olhos alguma cena que confirmasse a força da esposa ou a habilidade do amigo. Preparou nova ausência fingida e combinou sinais. Cada passo que dava para conhecer a verdade empurrava todos para uma verdade pior.

Camila, percebendo o cerco e sem confiança plena em nenhum dos dois, voltou-se para Leonela, sua criada. Até então Leonela fora presença secundária, mas as casas caem também por portas menores. Camila precisava de conselho, companhia e proteção. Contou parte de sua angústia. Leonela ouviu, embora sua prudência fosse menos firme que a da senhora. Havia nela curiosidade, vaidade e outros segredos que a narrativa ainda guardava.

A venda se mexeu ao ouvir esse novo nome. O barbeiro comentou que, quando uma história já tem marido curioso, amigo tentado e esposa aflita, a entrada de criada imprudente costuma anunciar mais confusão. Dom Quixote perguntou se Leonela era donzela encantada ou mensageira. O cura respondeu que, em histórias domésticas, as mensageiras bastam para causar tanto dano quanto encantadores.

Camila ainda resistia. Isso precisava ficar claro. Não caíra por desejo, nem por vaidade simples, nem por fraqueza imediata. Estava sendo pressionada por uma rede de decisões alheias. A resistência também cansa quando a casa inteira vira teatro de outra pessoa. Anselmo queria prova; Lotário queria Camila; Camila queria apenas recuperar o chão.

Lotário voltou mais uma vez. Camila recusou-o de novo, agora com lágrimas. Ele viu nelas a dor e a medida do mal que já fizera. Por um instante, quase confessou tudo a Anselmo e fugiu da casa para sempre. Faltou-lhe coragem para a verdade inteira. Preferiu acreditar que ainda haveria saída sem perda, como se a mentira, depois de crescer, aceitasse ser guardada em bolso pequeno.

O trecho terminou com todos suspensos: Anselmo mais curioso, Lotário mais culpado, Camila mais cercada, Leonela introduzida como risco novo. O colapso ainda não chegara ao fim; sua forma já estava desenhada. Na venda, os ouvintes entenderam que a prova inventada por Anselmo não media a fidelidade de Camila. Media a capacidade de todos destruírem aquilo que diziam amar.

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