Capítulo 107 - Doña Rodríguez à meia-noite
Capítulo 107 - Doña Rodríguez à meia-noite
Dom Quixote passou seis dias sem sair a público, tratando os arranhões do gato e imaginando Altisidora ferida por amor. Uma noite, já deitado, sentiu que alguém abria a porta de seu quarto. Pôs-se sentado na cama, coberto da cabeça aos pés com colcha amarela e com ataduras no rosto, figura capaz de assustar quem viesse por devoção e não por medo. Supôs que a donzela entrava para tentar sua firmeza. Ergueu a voz e declarou que nenhuma beleza do mundo venceria a imagem de Dulcineia, senhora única de seu pensamento. A pessoa que entrava tropeçou no susto, deixou quase cair a vela e, depois de recobrar alento, revelou ser doña Rodríguez, dueña da duquesa.
A velha disse que vinha tratar de assunto grave e pediu que Dom Quixote não a recebesse com suspeitas. Ele, temendo novas armadilhas de encantadores, respondeu que também precisava estar seguro contra ataques à sua castidade, pois a hora, o silêncio e o quarto fechado aconselhavam recato. Doña Rodríguez garantiu não vir como intermediária de amor nem como tentação, mas como mulher aflita. Dom Quixote beijou-lhe a mão em sinal de segurança e conduziu-a até uma cadeira afastada da cama. Ele se cobriu todo, deixando apenas o rosto, e ela conservou vela e óculos, pronta a desabafar.
Contou que era natural das Astúrias de Oviedo e de bom sangue provincial, embora a pouca fortuna dos pais a tivesse levado jovem a Madrid, onde servira como criada de lavor em casa principal. Ali se enamorou dela um escudeiro de idade madura, barbudo, composto e montanhês, portanto fidalgo como o rei em sua própria opinião. A senhora da casa, para evitar murmurações, casou os dois em paz diante da Igreja. Do matrimônio nasceu uma filha, e não muito depois morreu o marido, por causa de certo espanto que doña Rodríguez julgava necessário contar para se conhecer a pontualidade e a cortesia do defunto.
O caso fora em Madrid. O bom escudeiro levava a senhora à garupa de uma mula negra quando encontrou um alcalde de corte. Por excesso de cortesia, quis voltar para acompanhá-lo, esquecendo que trazia a própria senhora às ancas. Ela sussurrava que reparasse no lugar em que estava, mas ele insistia, gorra na mão, oferecendo reverência. Encolerizada, a senhora tirou do estojo um alfinete grande e cravou-lho nas costas. O escudeiro deu grito, torceu o corpo e derrubou a dama no chão. A rua inteira se alvoroçou; a história se espalhou; os meninos passaram a persegui-lo com risos. Por isso e por certa curta vista, a senhora o dispensou, e doña Rodríguez atribuía a esse desgosto a doença que o levou à morte.
Viúva, desamparada e com filha pequena, ela entrou depois ao serviço da duquesa, recém-casada, vindo para Aragão com a menina. A filha cresceu formosa e habilidosa: cantava, dançava, lia, escrevia, contava e tinha limpeza de água corrente. Contava agora dezesseis anos, alguns meses e poucos dias. Um filho de lavrador riquíssimo, morador em aldeia do duque, enamorou-se dela, prometeu casamento e a enganou sob essa palavra. Doña Rodríguez queixara-se muitas vezes ao duque, pedindo que obrigasse o rapaz a cumprir a promessa, mas o senhor fazia ouvido de mercador, pois o pai do moço lhe emprestava dinheiro e servia de fiador em dívidas frequentes.
Era por isso que a dueña procurava Dom Quixote. Queria que ele desfizesse o agravo por rogos ou por armas, como cavaleiro nascido para amparar miseráveis e endireitar injustiças. Para reforçar o pedido, elogiou a filha até colocá-la acima de todas as donzelas da casa. Altisidora, segundo ela, tinha mais presunção que beleza, mais soltura que recato e até certo hálito cansado que tornava difícil ficar perto dela. Embalada pela confiança, ia falar também da duquesa. Dom Quixote pediu, por sua vida, que não escondesse a verdade. Doña Rodríguez então revelou que a formosura da senhora se devia primeiro a Deus e depois a duas fontes abertas nas pernas, por onde os médicos escoavam maus humores.
Dom Quixote se espantou com a notícia e disse que tais fontes, estando em pessoa tão alta, deveriam verter âmbar líquido, não matéria vil. Mal terminou a frase, as portas se abriram com pancada. A vela caiu, e o quarto ficou escuro como boca fechada. Duas figuras agarraram doña Rodríguez pela garganta para impedir-lhe o grito; outra lhe levantou as saias e começou a castigá-la com chinela, em silêncio. Dom Quixote, compadecido e confuso, não se moveu da cama, temendo que a mesma tunda viesse sobre ele. O medo acertou. Depois de moerem a dueña, os visitantes calados arrancaram-lhe a colcha e deram-lhe tantos beliscões que o cavaleiro tentou defender-se a socos no ar.
A batalha muda durou quase meia hora. Por fim, as figuras saíram como tinham entrado. Doña Rodríguez recolheu a roupa, gemeu sua desventura e deixou o quarto sem dizer palavra. Dom Quixote ficou sozinho, dolorido, picado e perplexo, querendo saber que encantador perverso ousara castigá-lo daquela maneira dentro de castelo tão nobre. A história promete esclarecer isso a seu tempo, mas por ora volta novamente a Sancho, pois o governo de Baratária já começava a produzir episódios dignos de memória.