Capítulo 16 - A venda e Maritornes Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 16 de 133
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Capítulo 16 - A venda e Maritornes

Capítulo 16 - A venda e Maritornes

Dom Quixote, Sancho e Rocinante chegaram a uma venda como quem chega ao fim de uma batalha sem vencedor. O cavalo mal sustentava as pernas; o escudeiro caminhava torto, contando as dores como quem conta moedas perdidas; e o cavaleiro, embora moído dos paus dos Yangueses, insistia em ver diante de si não uma casa de estrada, mas um castelo digno de acolher armas e desgraças.

O vendeiro, acostumado a viajantes de todo tipo, olhou aquela procissão de ossos, poeira e discursos e entendeu depressa que ali havia mais ferimentos que dinheiro. Ainda assim, recebeu-os. A mulher dele, a filha e uma criada asturiana chamada Maritornes tiveram pena dos recem-chegados. Prepararam uma cama pobre para Dom Quixote no mesmo aposento em que dormiam outros viajantes, e buscaram panos, azeite e unguentos simples para aliviar os corpos castigados.

Dom Quixote aceitou o cuidado com a solenidade de quem recebe serviço de donzelas em fortaleza encantada. A mulher do vendeiro era, para ele, senhora do castelo; a filha, formosa donzela; e Maritornes, apesar de pequena, curva e marcada por uma vida dura, foi elevada pela imaginação do cavaleiro a figura de romance. Sancho, que via tudo com olhos mais rentes ao chão, reconhecia apenas uma venda apertada, uma cama ruim e a esperança de dormir antes que outra aventura os encontrasse.

No mesmo quarto estava um arrieiro, homem robusto que havia combinado com Maritornes uma visita noturna. A pobre criada, que prometia mais por necessidade que por escolha, esperou que a casa se aquietasse. Dom Quixote, deitado e sem poder mover-se direito, tomou os ruídos da noite por sinais de amor secreto. Julgou que a donzela do castelo viera render-se a sua fama, e começou a preparar, dentro da cabeça ardente, uma recusa honrada.

Quando Maritornes entrou no escuro, procurando o arrieiro, Dom Quixote estendeu os braços e a segurou. Falou-lhe em voz baixa, cheia de grandeza, dizendo que seu coração pertencia a Dulcineia del Toboso e que nenhuma beleza, por maior que fosse, poderia vencer uma fidelidade tão alta. Maritornes, apanhada onde não queria estar, tentou soltar-se. O arrieiro, ouvindo a confusão e entendendo mal a cena, levantou-se furioso.

A noite, que precisava de pouco para virar desastre, virou de uma vez. O arrieiro caiu sobre Dom Quixote com golpes secos, acusando-o de meter-se onde não devia. O leito do cavaleiro rangeu, Maritornes escapou para um canto, Sancho acordou sem saber se sonhava ou apanhava, e logo o quarto inteiro se encheu de gritos, tropeços e pancadas. Como não havia luz bastante, cada um batia no vulto errado com convicção admirável.

O vendeiro entrou com uma candeia e viu a desordem espalhada: Dom Quixote estendido, o arrieiro bufando, Sancho procurando uma explicação e Maritornes tentando desaparecer na sombra. A criada, por medo do amo, escondeu-se junto de Sancho. O escudeiro, sentindo alguém cair sobre si, pensou estar sendo atacado por inimigo novo e começou a defender-se como podia. A cama, a palha e os corpos formaram um campo de batalha tão confuso que nem Dom Quixote conseguiu nomear com precisão o encantamento que o afligia.

Quando enfim separaram os vivos dos móveis e os gritos diminuíram, os danos estavam feitos. Dom Quixote, mais quebrado do que chegara, afirmou que toda aquela violência só podia ser obra de mouros encantados ou de algum feiticeiro inimigo de sua glória. Sancho, que tinha recebido parte considerável da prova, respondeu que os encantadores daquela casa batiam com mãos muito humanas.

Maritornes, apesar da confusão em que se vira envolvida, ajudou depois como pôde. Havia nela mais humanidade do que beleza de romance, e isso bastava. Trouxe agua, ajeitou panos e deixou que Sancho reclamasse sem muita resposta. A filha do vendeiro também se compadeceu dos feridos. Dom Quixote, interpretando cada gesto pela lente de seus livros, agradeceu como cavaleiro servido por nobres damas.

Ao amanhecer, a venda guardava o cansaço das noites mal dormidas. O arrieiro preparava a partida; o vendeiro calculava despesas; Sancho calculava dores; e Dom Quixote calculava maravilhas. Para o cavaleiro, o castelo havia sido palco de aventura misteriosa, de donzelas, traições e encantamentos. Para todos os demais, fora apenas uma noite ruim numa venda cheia demais.

Mesmo assim, a estrada chamava. Dom Quixote estava convencido de que sua fama cresceria com cada golpe sofrido. Sancho, menos ambicioso, desejava apenas comida, descanso e a prometida ilha, de preferência localizada bem longe de vendas encantadas. Mas entre a fantasia de um e a fome do outro, os dois seguiam presos ao mesmo destino: transformar o mundo em narrativa, ainda que o mundo respondesse quase sempre com pancadas.

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