Capítulo 124 - Sansão Carrasco e don Gregorio
Capítulo 124 - Sansão Carrasco e don Gregorio
Don Antonio seguiu o Cavaleiro da Branca Lua até um mesão, acompanhado por rapazes curiosos que o perseguiam como novidade de rua. Entrou com impaciência, desejoso de conhecer o homem que derrubara Dom Quixote. O cavaleiro percebeu sua intenção e, enquanto um criado o desarmava, revelou a verdade: chamava-se Sansão Carrasco, bacharel do mesmo lugar de Dom Quixote, e movia-se por compaixão. A loucura do fidalgo afligia todos os conhecidos, e Sansão julgava que a cura dependia de repouso, casa e afastamento das aventuras. Meses antes tentara vencê-lo sob o nome de Cavaleiro dos Espelhos, impondo como pena o retorno à aldeia; Dom Quixote o derrotara, e ele voltara moído e envergonhado. Agora a sorte mudara, e a palavra dada obrigaria o vencido a cumprir o retiro.
Sansão pediu segredo, para que Dom Quixote não soubesse quem o vencera e o plano pudesse dar fruto. Don Antonio prometeu calar, embora lamentasse o agravo feito ao mundo por quem desejava devolver juízo ao mais gracioso louco existente. A seu ver, a utilidade da cordura não compensaria o prazer que Dom Quixote e Sancho davam com seus desvarios. Ainda assim, respeitou a intenção caridosa do bacharel. Sansão mandou carregar as armas num mulo, montou o cavalo da vitória e saiu naquele mesmo dia para sua terra. Don Antonio contou tudo ao vice-rei, que recebeu a notícia com pouco gosto, pois também via no recolhimento de Dom Quixote a perda de um divertimento raro para Barcelona.
Dom Quixote ficou seis dias de cama, triste, abatido e preso à memória da queda. Sancho procurava consolá-lo, lembrando que ao menos não quebrara costelas e que onde dão também se recebe. Pedia que voltassem para casa e deixassem aventuras em terras desconhecidas. Ao mesmo tempo, confessava sua própria perda: abandonara o desejo de governar outra ilha, porém ainda conservava a esperança de ser conde, e essa esperança dependia de Dom Quixote continuar cavaleiro, ganhar reino e distribuir mercês. O amo mandou-o calar com brandura. O retiro duraria apenas um ano; depois voltaria aos honrados exercícios e não lhe faltaria reino nem condado. Sancho respondeu com esperança cautelosa, preferindo promessa boa a posse ruim.
Enquanto conversavam, entrou don Antonio com notícia alegre: don Gregorio e o renegado estavam na praia, ou melhor, já na casa do vice-rei, e viriam em seguida. Dom Quixote alegrou-se por um instante, depois se doeu de não ter sido ele o libertador. Vencido, derrubado e proibido de tomar armas, perguntava a si mesmo que feitos podia prometer e de que força podia gabar-se. Sancho mandou-o deixar essas tristezas e levantar-se para receber o moço. Don Gregorio chegou com o renegado. Em Argel usara roupa de mulher para escapar ao perigo; no barco trocara o disfarce por veste de cativo, e em qualquer traje mostrava beleza e distinção acima de seus poucos anos. Ricote e Ana Félix saíram a recebê-lo, ele com lágrimas, ela com honestidade contida. Os olhos dos amantes disseram mais do que palavras podiam dizer diante de tanta gente.
O renegado contou como resgatara don Gregorio, e o moço relatou em poucas frases os riscos passados entre as mulheres que o guardavam. Ricote pagou generosamente aos remadores e ao próprio renegado, que voltou à Igreja por penitência e arrependimento. Depois discutiram como Ana Félix e seu pai poderiam permanecer na Espanha. Don Antonio ofereceu ir à corte e negociar, admitindo que favores e dádivas resolviam muitas dificuldades. Ricote, conhecedor do rigor aplicado à expulsão dos moriscos, duvidou de qualquer êxito e falou do conde de Salazar como homem diante de quem lágrimas, promessas e dinheiro pouco valiam. Mesmo assim, don Antonio faria as diligências possíveis. Don Gregorio seguiria com ele para consolar seus pais e preparar a volta por Ana; ela ficaria com a mulher de don Antonio, e Ricote, na casa do vice-rei.
Chegou o dia das despedidas. Don Gregorio e Ana Félix separaram-se com lágrimas e suspiros, pois a esperança de reencontro não apagava a dor imediata. Ricote ofereceu ao rapaz mil escudos; ele aceitou apenas cinco emprestados por don Antonio, prometendo pagá-los na corte. Partiram don Antonio e don Gregorio. Pouco depois chegou a vez de Dom Quixote e Sancho, pois a queda da praia já permitia ao cavaleiro pôr-se em caminho. Dom Quixote saiu desarmado, com roupa de viagem, e Sancho foi a pé, porque o rucio levava as armas. A imagem resumia o novo estado da história: o cavaleiro que chegara a Barcelona entre galés e música deixava a cidade vencido, sem lança na mão, obrigado a fazer do cumprimento da palavra sua única aventura possível.