Capítulo 22 - Os pisoeiros Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 22 de 133
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Capítulo 22 - Os pisoeiros

Capítulo 22 - Os pisoeiros

A noite demorou a passar. Dom Quixote, preso sem saber pelo cuidado medroso de Sancho, esperava que Rocinante obedecesse ao primeiro sinal para avançar contra a fonte do estrondo. Sancho, por sua vez, rezava para que o sol nascesse antes da coragem do amo. O ruído continuava: golpes fundos, água correndo, madeira rangendo, tudo repetido com uma regularidade que, na escuridão, parecia obra de gigantes pacientes.

O cavaleiro falou longamente sobre fama, morte e dever. Disse que, se aquela fosse sua última aventura, Sancho deveria lembrar-se de sua valentia e levar a Dulcineia notícia de que ele caíra sem recuar. Sancho respondeu com palavras respeitosas, mas por dentro só pensava que preferia levar a Dulcineia um homem inteiro e vivo, mesmo sem grande notícia para contar. Heroísmo, naquela hora, parecia-lhe uma espécie de febre.

Quando enfim o dia começou a clarear, a paisagem perdeu parte do encanto e quase todo o terror. As sombras recuaram. A água apareceu entre árvores e pedras. O som, antes monstruoso, ganhou forma. Não havia gigantes, nem castelo subterrâneo, nem máquina infernal. Havia pisoeiros, engenhos movidos por água, batendo panos com martelos de madeira. Aquilo que a noite transformara em ameaça era trabalho comum, repetido e barulhento.

Sancho primeiro abriu a boca, depois os olhos, depois uma risada que tentou conter e não conseguiu. Todo o medo da noite escapou dele em gargalhadas. Lembrou-se dos discursos do amo, das despedidas solenes, das recomendações a Dulcineia, do perigo imaginado, e riu com tanta força que quase perdeu o fôlego. Ria dos pisoeiros, mas também ria de si mesmo por ter tremido diante deles.

Dom Quixote ficou imóvel. Seu rosto, já triste por título, tornou-se severo por necessidade. Viu os engenhos, ouviu o riso de Sancho e entendeu que a aventura, mais uma vez, mudara de grandeza ao tocar a manhã. O que de noite era abismo agora era oficina. O que parecia chamado da glória era apenas madeira batendo pano.

Sancho, tomado pela graça, começou a imitar as palavras graves que o amo dissera na escuridão. Falava de morte, fama e Dulcineia com voz tremida de teatro, repetindo os gestos do cavaleiro. A imitação era boa demais para ser prudente. Dom Quixote enrubesceu, primeiro de vergonha, depois de ira. Um escudeiro podia temer, podia errar, podia reclamar; mas zombar do senhor era passar por linha perigosa.

O cavaleiro levantou a lança e deu em Sancho alguns golpes, mais de correção que de destruição, embora Sancho os sentisse com bastante realidade. Disse que havia diferença entre rir de uma circunstância e perder o respeito por quem o sustentava na esperança de governar uma ilha. Sancho parou de rir depressa. Pediu desculpa, alegando que a alegria saíra dele sem pedir licença, como acontece com água represada quando encontra passagem.

Dom Quixote explicou que o valor de uma aventura não dependia de sua aparência final. Se os encantadores podiam transformar exércitos em rebanhos, também podiam transformar perigos verdadeiros em pisoeiros para envergonhar cavaleiros. Sancho aceitou a explicação com a boca, porque as costas ainda lembravam os golpes. Por dentro, guardou a certeza de que nem todo barulho precisa de encantador; às vezes basta um moinho de pisão e bastante noite.

Soltaram Rocinante, que enfim pôde mover as patas. Dom Quixote percebeu tarde a manobra de Sancho, mas preferiu não abrir nova discussão. Havia estrada adiante, e a dignidade precisava ser recomposta em movimento. Sancho subiu no asno com cuidado, ainda sorrindo por dentro, mas com o rosto treinado numa seriedade humilde.

Antes de partirem, olharam uma última vez para os pisoeiros. À luz do dia, eram quase ridículos: madeira, água e trabalho. Ainda assim, tinham vencido a noite inteira de dois viajantes. Dom Quixote viu neles uma cilada de feiticeiros. Sancho viu uma lição simples: o medo, quando não enxerga, trabalha melhor que qualquer máquina.

Seguiram pela estrada. O Cavaleiro da Triste Figura procurava nova ocasião para provar que sua coragem não fora diminuída por engenhos de pano. Sancho, mais silencioso, prometeu a si mesmo rir menos diante do amo e observar mais diante do mundo. Mas sabia que a promessa seria difícil. Com Dom Quixote, até o comum vinha fantasiado, e às vezes a fantasia era tão grande que só uma gargalhada conseguia romper-lhe a força.

A manhã avançava limpa. Atrás ficavam os golpes dos pisoeiros. Adiante, outra coisa brilharia ao sol e seria logo chamada por nome maior do que possuía. A estrada, fiel ao seu ofício, já preparava o próximo engano.

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