Capítulo 98 - As barbas de Malambruno Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 98 de 133
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Capítulo 98 - As barbas de Malambruno

Capítulo 98 - As barbas de Malambruno

A cada palavra de Sancho, a duquesa sentia novo prazer e Dom Quixote nova impaciência. Mandado o escudeiro ao silêncio, a Dolorida continuou. Depois de muitas perguntas e respostas, como a infanta permanecesse firme em sua declaração, o vigário sentenciou em favor de Dom Clavijo e entregou-lhe Antonomasia por esposa legítima. A notícia feriu dona Maguncia com tal desgosto que, em três dias, a rainha foi enterrada. Sancho observou que então devia ter morrido, e Trifaldim respondeu que em Candaya se enterravam mortos, não vivos. O escudeiro replicou que já se vira gente desmaiada ir à sepultura por engano, e que a rainha teria feito melhor em desmaiar, pois com vida se remedeiam muitas coisas.

Sancho ainda defendeu o casamento. Se a infanta se tivesse entregado a paje ou criado baixo, o dano pareceria maior; casada com cavaleiro tão gentil e entendido, a necedade diminuía. Pelas regras de Dom Quixote, assim como letrados podem virar bispos, cavaleiros, sobretudo andantes, podem subir a reis e imperadores. Dom Quixote concedeu a razão, dizendo que um cavaleiro andante com dois dedos de ventura está muito próximo dos maiores senhorios do mundo. Depois pediu que a Dolorida prosseguisse, pois já pressentia parte amarga naquela história que até então vinha adoçada por galanteria, música e casamento.

A condessa confirmou que o amargo mal começava. Mal haviam coberto a rainha com terra e dado o último adeus, apareceu sobre a sepultura um gigante em cavalo de madeira. Era Malambruno, primo irmão de Maguncia, cruel e encantador. Vinha vingar a morte da rainha, castigar a ousadia de Clavijo e punir a demasia de Antonomasia. Com suas artes, deixou os amantes presos no próprio túmulo: ela transformada em macaca de bronze, ele em horrendo crocodilo de metal desconhecido. Entre ambos levantou padrão também metálico, escrito em língua siríaca e traduzido para o candaiês e depois para o castelhano.

A inscrição declarava que os dois amantes atrevidos só recobrariam a primeira forma quando o valoroso manchego viesse às mãos com Malambruno em batalha singular. Feito isso, o gigante sacou largo alfanje, tomou a Trifaldi pelos cabelos e fingiu cortar-lhe a garganta. A condessa, sem voz no começo, reuniu forças e disse tantas razões que a execução ficou suspensa. Malambruno mandou trazer todas as dueñas de palácio, aquelas mesmas que ali estavam, e depois de exagerar a culpa delas, as más artes e os vícios atribuídos ao ofício, declarou que não lhes daria morte rápida. Preferia pena alongada, uma morte civil e contínua.

No mesmo instante, segundo contou a Dolorida, todas sentiram os poros do rosto abrirem-se e picarem como se agulhas miúdas nascessem da pele. Levaram as mãos às faces e encontraram o castigo. Nesse ponto, a condessa e suas companheiras levantaram os véus. Apareceram rostos cobertos de barbas, umas loiras, outras negras, outras brancas, outras misturadas. O duque e a duquesa fizeram demonstração de espanto, Dom Quixote e Sancho ficaram pasmados, e os demais presentes sustentaram a surpresa como podiam, embora muitos conhecessem a maquinaria daquela invenção palaciana.

A Trifaldi prosseguiu dizendo que Malambruno cobrira a delicadeza de seus rostos com aspereza de cerdas. Antes aceitariam perder a cabeça pelo alfanje do gigante que trazer aquela penugem desonrosa diante do mundo. Perguntou aonde poderia ir uma dueña com barba, que pai ou mãe se compadeceria dela, quem lhe daria ajuda. Mesmo com rosto liso, castigado por unguentos e preparos, uma dueña mal acha quem a queira bem; com a face tomada por matagal de pelo, restava-lhe esconder-se da luz e da conversação humana. Ao dizer isso, a condessa ergueu lamentação contra a hora em que nascera e deu sinais de desmaio.

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