Capítulo 15 - A aventura dos Yangueses
Capítulo 15 - A aventura dos Yangueses
Depois do enterro de Grisóstomo e da defesa de Marcela, Dom Quixote quis seguir a pastora pelo monte, não para prendê-la, mas para oferecer-lhe a guarda de sua espada contra qualquer ofensa. Sancho, que já tinha visto promessas de glória terminarem em costelas doloridas, aconselhou caminho mais proveitoso. Disse que Marcela sabia defender-se com palavras melhores do que muitos cavaleiros com lanças, e que talvez fosse sábio deixar a moça livre até da proteção excessiva.
Dom Quixote pensou nisso como quem examina um problema de honra. Por fim, aceitou que a liberdade também podia ser servida pela distância. Tomaram então outro rumo, sem guia certo, pois a estrada de um cavaleiro andante deve parecer escolhida pelo acaso, ainda que o acaso quase sempre tenha mãos pesadas.
Andaram por entre árvores até encontrar um prado fresco, cortado de sombra e erva, onde decidiram descansar. Sancho desmontou com alivio verdadeiro. Rocinante, solto para pastar, sentiu o ar e viu por ali algumas eguas pertencentes a almocreves yangueses que também repousavam naquele lugar. O velho cavalo, até então mais conhecido por ossos que por impetos, esqueceu a magreza, a idade e a disciplina, e aproximou-se delas com vontade pouco cavaleiresca.
As eguas não receberam bem a visita. Pior ainda a receberam os almocreves, homens fortes, praticos e nada inclinados a interpretar o caso como aventura de romance. Vendo Rocinante importunar seus animais, correram sobre ele com varas e paus. Bateram no pobre cavalo até derruba-lo no chão, estendido como se todas as derrotas do mundo tivessem escolhido aquele lombo para morar.
Dom Quixote, ao ver seu cavalo tratado daquele modo, levantou-se ardendo em colera. Para ele, a agressão contra Rocinante era agravo direto contra a ordem da cavalaria. Sancho tentou medir a quantidade de inimigos e a grossura dos paus, chegando a uma conclusão simples: eram muitos, e os paus eram excelentes. Mas o amo já caminhava para a luta, dizendo que ali se veria o valor de dois contra uma turba vil.
Sancho lembrou, com muita razão, que eles não eram exatamente dois: um era cavaleiro ferido de aventuras anteriores, o outro era escudeiro sem desejo de martirio. Dom Quixote respondeu que a honra não conta numeros. Sancho, olhando os yangueses, pensou que os numeros talvez contassem a honra com bastante violência.
A luta durou pouco, porque a realidade nem sempre concede espaco para discursos. Dom Quixote investiu com sua espada, Sancho acudiu como pôde, e os almocreves responderam com uma chuva de golpes tão cerrada que logo amo e escudeiro estavam no mesmo estado de Rocinante: espalhados pelo chão, respirando poeira e dor. Os yangueses, satisfeitos por terem defendido suas eguas e ensinado respeito ao cavalo intruso, juntaram seus animais e seguiram viagem.
Ficaram no prado Dom Quixote, Sancho e Rocinante, os tres igualmente vencidos, embora cada um por razões diferentes. Sancho gemeu primeiro, pois sua filosofia sempre começava pelo corpo. Disse que, se aquela era a vida de quem buscava ilhas, talvez preferisse uma ilha menor, porém com menos pancadas no caminho.
Dom Quixote, apesar de moído, buscou uma explicação que salvasse a dignidade da derrota. Disse que a culpa fora sua por ter desembainhado espada contra gente de baixa condição, quando as leis da cavalaria mandavam que cavaleiro combatesse cavaleiro. Sancho achou a regra curiosa: se os paus eram de baixa condição, doiam com nobreza bastante. Ainda assim, ajudou o amo como pôde, e os dois rastejaram até a sombra para examinar os prejuizos.
Rocinante também tentava erguer-se, envergonhado e dolorido. Dom Quixote olhou para ele com piedade severa, como quem perdoa um companheiro que causou desastre sem maldade. O cavalo, se entendia alguma coisa de honra, devia naquele momento preferir a ignorância.
Sancho propôs que fossem procurar uma venda, casa, choça ou qualquer lugar onde houvesse cama, azeite, pano e alguém capaz de não bater neles. Dom Quixote concordou, mas corrigiu o nome antes mesmo de montar: não seria venda, e sim castelo, pois a necessidade de repouso não diminuía a grandeza das coisas. Sancho não discutiu. Quando a dor sobe pelas costas, até um castelo imaginario serve, contanto que tenha onde deitar.
Com esforço, puseram Rocinante de pe e seguiram devagar. O dia, que começara entre discursos de liberdade e luto honrado, terminava com tres corpos machucados avançando pela estrada. Dom Quixote ainda via aventura no sofrimento; Sancho via sofrimento bastante sem precisar de aventura. Entre esses dois modos de olhar o mundo, continuava a viagem.