Capítulo 131 - A declaração de Álvaro Tarfe Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 131 de 133
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Capítulo 131 - A declaração de Álvaro Tarfe

Capítulo 131 - A declaração de Álvaro Tarfe

Dom Quixote e Sancho passaram o dia no mesão esperando a noite: um desejava ver concluída a disciplina que libertaria Dulcineia, o outro queria acabar a conta enquanto o negócio ainda rendia. Chegou então um cavaleiro com criados, e um deles chamou-o pelo nome de don Álvaro Tarfe, sugerindo que passasse ali a sesta. Dom Quixote lembrou-se de ter visto esse nome no livro apócrifo que folheara. Esperou que o recém-chegado se acomodasse e, quando ambos se encontraram no portal fresco da hospedaria, perguntou-lhe o destino. Don Álvaro ia para Granada, sua pátria; Dom Quixote seguia para a aldeia próxima onde nascera. Ao confirmar o nome, o cavaleiro revelou ser o mesmo Álvaro Tarfe impresso na segunda parte falsa, amigo daquele outro Dom Quixote que fora às justas de Zaragoza.

O verdadeiro Dom Quixote perguntou se se parecia em algo com o cavaleiro que Álvaro conhecera. A resposta foi clara: em nada. Perguntou ainda se o outro trazia Sancho Pança como escudeiro. Sim, trazia, disse Álvaro, embora o tal Sancho tivesse fama de gracioso sem jamais dizer graça digna do nome. O Sancho verdadeiro tomou a palavra e declarou que o outro só podia ser frio, ladrão e grandíssimo bellaco, pois ele era Sancho Pança legítimo, capaz de fazer rir sem perceber o que dizia. Apontou Dom Quixote como o famoso, valente, discreto, enamorado, defensor de viúvas, amparo de órfãos e servidor único de Dulcineia. Todo outro Dom Quixote ou outro Sancho, concluiu, era burla e coisa de sonho. Álvaro, ouvindo quatro frases, achou naquele escudeiro mais graça do que em todas as falas do outro.

Dom Quixote então declarou que não sabia se era o bom, mas sabia que não era o mau. Nunca estivera em Zaragoza; ao saber que o falso havia ido àquelas justas, evitara a cidade e seguira diretamente para Barcelona, lugar que louvou como arquivo da cortesia, abrigo dos estrangeiros, hospital dos pobres e pátria dos valentes. Pediu a Álvaro, por sua condição de cavaleiro, que fizesse declaração diante do alcalde do lugar, afirmando que jamais vira aquele Dom Quixote antes daquele dia e que nem ele nem seu Sancho eram os impressos na segunda parte de Avellaneda. Don Álvaro aceitou, embora se admirasse de encontrar dois homens tão conformes nos nomes e tão diferentes nas ações. Sancho sugeriu que o próprio Álvaro talvez estivesse encantado, como Dulcineia, e até ofereceu açoites sem interesse se isso o desencantasse.

Na hora de comer, entrou por acaso o alcalde do povoado com um escrivão. Dom Quixote fez a petição formal, e Álvaro Tarfe declarou, com os requisitos do caso, que não conhecia aquele Dom Quixote de la Mancha e que ele não era o personagem do livro composto por Avellaneda, natural de Tordesilhas. Cavaleiro e escudeiro ficaram satisfeitos como se a declaração lhes importasse mais que as próprias obras, embora estas bastassem para distinguir os verdadeiros dos falsos. Entre cortesias, Álvaro percebeu a discrição de Dom Quixote e passou a pensar que talvez ele mesmo tivesse sido enganado por encantamento ao lidar com o outro. Ao cair da tarde, partiram juntos por meia légua, até o ponto em que os caminhos se separavam: um para Granada, outro para a aldeia manchega.

Nesse trecho, Dom Quixote contou a Álvaro a desgraça da Branca Lua, o encantamento de Dulcineia e o remédio dos açoites, aumentando a admiração do cavaleiro granadino. Abraçaram-se e seguiram rotas diversas. Naquela noite, entre árvores, Sancho retomou a penitência do mesmo modo: castigou cascas mais que costas, poupando-se com tanto cuidado que nem uma mosca teria sido expulsa de sua pele. Dom Quixote, enganado, contou todos os golpes e somou, com os da noite passada, três mil e vinte e nove. No dia e na noite seguintes caminharam sem caso digno de memória, salvo que Sancho acabou a tarefa, deixando Dom Quixote contente e cheio de esperança. A partir daí, o cavaleiro examinava toda mulher encontrada pelo caminho, esperando que alguma delas fosse Dulcineia já restituída pela promessa de Merlín.

Com esses desejos, subiram uma cuesta e avistaram a aldeia. Sancho ajoelhou-se e saudou a pátria desejada, dizendo que voltava seu filho, se não rico, ao menos bem açoitado, e que também voltava Dom Quixote, vencido por braços alheios, porém vencedor de si mesmo, vitória que o próprio amo julgava a maior. Acrescentou que levava dinheiro, porque se bons açoites lhe davam, bom cavaleiro o pagava. Dom Quixote mandou-o largar sandices e entrar com o pé direito no lugar, onde dariam vazão às imaginações e à forma de vida pastoril que planejavam exercer durante o ano. Desceram a ladeira e foram para o povoado, trazendo consigo a derrota, a promessa, a declaração contra o falso livro e a última esperança de que Dulcineia aparecesse desencantada em algum rosto conhecido.

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