Capítulo 101 - Conselhos para a ilha Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 101 de 133
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Capítulo 101 - Conselhos para a ilha

Capítulo 101 - Conselhos para a ilha

O feliz sucesso da aventura da Dolorida deixou os duques tão contentes que decidiram levar adiante as burlas. Tinham diante de si matéria adequada para que tudo parecesse verdadeiro, e por isso deram ordens a criados e vassalos sobre o modo como deveriam receber Sancho no governo da ilha prometida. No dia seguinte ao voo de Clavileño, o duque mandou que o escudeiro se arrumasse, pois seus insulanos o esperavam como água de maio. Sancho inclinou-se e respondeu que, depois de haver descido do céu e visto a terra reduzida a grão de mostarda, perdera parte do apetite de mandar. Que grandeza havia em governar meia dúzia de homens do tamanho de avelãs? Se o duque pudesse dar-lhe meio pedaço de céu, ainda que fosse pequeno, ele o receberia com mais gosto que a maior ilha do mundo.

O duque respondeu que céu só Deus concede. O que podia dar era uma ilha feita e direita, redonda, fértil e abundante, onde Sancho poderia ganhar riquezas da terra e talvez, sabendo conduzir-se, as do céu. O escudeiro aceitou a condição: queria provar o sabor de ser governador, sem cobiça de sair de suas casinhas nem erguer-se a maiores. O duque garantiu que mandar e ser obedecido eram coisas dulcíssimas. Disse ainda que Sancho iria vestido em parte como letrado e em parte como capitão, pois no governo eram necessárias letras e armas. Sancho respondeu que letras tinha poucas, pois nem sabia o abecê, mas trazia o Christus na memória e manejaria as armas que lhe dessem até cair, Deus adiante.

Dom Quixote chegou nesse ponto e, sabendo da pressa com que Sancho partiria, pediu licença ao duque e levou o escudeiro para o aposento. Fechou a porta, fê-lo sentar-se quase à força e, com voz repousada, deu graças ao céu por ver a boa ventura encontrar Sancho antes de encontrar a ele próprio. Outros subornam, madrugam, pedem e porfiam sem alcançar cargo algum; Sancho, que para o amo continuava simples como cepo, via-se governador sem diligência, apenas tocado pelo sopro da cavalaria andante. Por isso não deveria atribuir a mercê aos próprios méritos, e sim agradecer primeiro ao céu e depois à grandeza da profissão que o levara até ali. Cargos altos, advertiu Dom Quixote, parecem honra, mas são golfo fundo de confusões.

O primeiro conselho foi temer a Deus, porque no temor divino está a sabedoria. O segundo foi conhecer a si mesmo, o conhecimento mais difícil de todos. Desse saber nasceria a contenção contra o inchaço da rã que quis igualar-se ao boi; bastaria lembrar, quando a soberba subisse, que guardara porcos em sua terra. Dom Quixote mandou também que Sancho fizesse gala da humildade de sua linhagem. Não devia envergonhar-se de dizer que vinha de lavradores; quem se mostra sem vergonha justa tira dos outros a vontade de envergonhá-lo. Mais valia ser humilde virtuoso que soberbo pecador. A virtude se conquista, enquanto o sangue apenas se herda, e por isso vale sozinha mais que brasões herdados sem obra.

Se algum parente o visitasse na ilha, Sancho deveria recebê-lo, honrá-lo e ampará-lo, pois ninguém deve desprezar o que a natureza fez. Se Teresa fosse com ele, convinha instruí-la e polir sua rudeza, porque uma mulher imprudente pode dissipar o que um governador prudente ganha. Se enviuvasse e melhorasse de consorte por causa do cargo, que não tomasse mulher usada como anzol para presentes, pois aquilo que a mulher do juiz recebe pesa também na conta do marido. Não deveria seguir lei de capricho, comum entre ignorantes que se creem agudos. As lágrimas do pobre mereciam compaixão, porém não mais justiça que as alegações do rico; a verdade devia ser buscada tanto por entre dádivas e promessas quanto por entre soluços e importunações.

Dom Quixote aconselhou que, quando coubesse equidade, Sancho não despejasse todo o rigor da lei sobre o culpado, pois a fama do juiz compassivo vale tanto quanto a do rigoroso. Se um dia dobrasse a vara da justiça, que fosse pelo peso da misericórdia, nunca pelo peso da dádiva. Em pleito de inimigo, afastasse a lembrança da injúria e pusesse os olhos no caso. Em causa alheia, não se deixasse cegar por paixão própria, porque erro de juiz raramente tem remédio sem custo de crédito e fazenda. Se mulher formosa viesse pedir decisão, tirasse os olhos das lágrimas e os ouvidos dos suspiros, examinando devagar a substância do pedido. Ao castigado por obras, não somasse palavras más; ao culpado, considerasse homem miserável, sujeito à natureza comum. Seguindo tais preceitos, teria vida longa, fama firme, filhos bem encaminhados e morte suave na velhice. Aqueles eram conselhos para a alma; depois viriam os do corpo.

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