Capítulo 130 - Os açoites pagos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 130 de 133
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Capítulo 130 - Os açoites pagos

Capítulo 130 - Os açoites pagos

Dom Quixote seguia vencido e pensativo, triste pela queda e alegre por acreditar na virtude de Sancho, demonstrada, a seu ver, na ressurreição de Altisidora. Sancho caminhava menos contente. Altisidora prometera camisas e não cumprira; ele, que curara com palmadas, beliscões, alfinetes e futuras disciplinas, saía sem pagamento. Comparou-se aos médicos que recebem mesmo quando o doente morre, enquanto ele, que padecia para salvar vidas alheias, não ganhava um ardite. Dom Quixote reconheceu a injustiça e admitiu que, se Sancho quisesse pagamento pelos açoites de Dulcineia, poderia descontá-lo dos dinheiros que levava. O escudeiro abriu olhos e ouvidos. O amor da mulher e dos filhos, disse, fazia-o homem interessado, e pediu preço por golpe.

Dom Quixote respondeu que nem o tesouro de Veneza nem as minas do Potosí pagariam a grandeza daquele remédio, mas deixou Sancho avaliar a conta. O escudeiro calculou os três mil e trezentos açoites restantes, abatendo os poucos já dados, e pôs preço de um quartilho por golpe, chegando a oitocentos e vinte e cinco reais. Dom Quixote, tomado de esperança, aceitou e ainda acrescentou cem reais se ele começasse logo. Sancho marcou a disciplina para aquela mesma noite, em campo aberto. Para o cavaleiro, o dia pareceu mais comprido que o costume, como se o sol atrasasse por crueldade. Ao escurecer, entraram entre árvores, comeram do reposto de Sancho, soltaram as montarias e o escudeiro fez do cabresto do rucio um açoite flexível.

Sancho afastou-se uns vinte passos, tirou a roupa da cintura para cima e começou o serviço. Dom Quixote contava as pancadas pelo rosário, advertindo-o a não se despedaçar antes de completar a conta. Seis ou oito golpes bastaram para Sancho perceber que a brincadeira era pesada e o preço, baixo. Parou e declarou que cada açoite merecia meio real, não quartilho. Dom Quixote dobrou a parada. Então Sancho retomou a tarefa com grande voz e golpes sonoros, mas o socarrão passou a bater nas árvores, arrancando cascas e suspiros como se cada pancada lhe tirasse a alma. Dom Quixote, comovido, temeu que o amigo morresse antes de concluir o remédio e pediu que parasse. Contava mais de mil açoites, número bastante para aquela noite.

Sancho ainda fingiu disposição para outros mil, dizendo que não queria parecer homem que recebe antes e quebra os braços depois. Bateu outra vez nos troncos com tamanho estrondo que Dom Quixote correu a tomar-lhe o cabresto, pedindo que poupasse a vida necessária à mulher e aos filhos. Sancho aceitou a suspensão, pediu que o amo lhe pusesse a capa nas costas suadas e dormiu até o sol. Prosseguiram caminho e chegaram a um mesão que Dom Quixote reconheceu como mesão, sem torres, pontes ou castelos imaginários, sinal de que a derrota lhe deixara o juízo mais assente em certas coisas. A sala tinha pinturas pobres: numa, Helena fugia com Páris; noutra, Dido chorava por Eneias. Dom Quixote lamentou não ter nascido naquelas idades, pois teria matado Páris e evitado Troia, ou detido Eneias e salvo Cartago.

Sancho apostou que dentro de pouco tempo não haveria venda, barbearia ou casa de comida sem pintura das aventuras de seu amo, embora desejasse pincel melhor que aquele. Dom Quixote lembrou um pintor chamado Orbaneja, que pintava “o que saísse” e precisava escrever sob o galo que era galo para ninguém tomá-lo por raposa. Assim lhe parecia o autor do falso Dom Quixote: escrevera o que saiu. Depois perguntou se Sancho queria continuar a disciplina naquela noite e se preferia telhado ou campo. O escudeiro disse que, para o que pretendia dar em si, casa ou mato serviam, mas entre árvores tudo corria melhor, porque elas pareciam ajudá-lo. Dom Quixote decidiu guardar o restante para a aldeia, aonde chegariam em poucos dias. Sancho despejou novos refrões sobre pressa, perigo e pagamento, até o amo implorar que falasse mais liso e menos intricado.

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