Capítulo 128 - A falsa morte de Altisidora Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 128 de 133
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Capítulo 128 - A falsa morte de Altisidora

Capítulo 128 - A falsa morte de Altisidora

Os homens apearam e, tomando Dom Quixote e Sancho quase no ar, levaram-nos para o pátio. A noite desaparecia sob a quantidade de luzes: tochas ardiam em suportes, luminárias brilhavam nos corredores e, no centro, erguia-se um túmulo coberto de veludo negro, cercado por velas brancas em candeeiros de prata. Sobre ele jazia uma donzela tão formosa que a própria morte parecia enfeitada por sua presença. A cabeça repousava numa almofada rica, as mãos ficavam cruzadas sobre o peito e seguravam uma palma amarela. Dom Quixote reconheceu o corpo fingido de Altisidora. Ao lado havia um tablado com figuras coroadas e, logo depois, entraram o duque e a duquesa, sentando-se como senhores de toda aquela cena.

Dom Quixote e Sancho foram postos em cadeiras diante do espetáculo. Um servidor vestiu Sancho com roupa negra pintada de chamas, tirou-lhe a caperuza e colocou em sua cabeça uma coroza pintada de diabos, advertindo-o ao ouvido que ficasse calado se prezava a vida. Sancho examinou as chamas e, por perceber que não queimavam, deu-lhes pouca importância; olhou os diabos e concluiu que também não o levavam. Dom Quixote, apesar do temor, quase riu da figura do escudeiro. Então, debaixo do túmulo, saiu música baixa de flautas, e junto à almofada apareceu um jovem vestido à romana, tocando harpa e cantando estrofes sobre Altisidora, morta pela crueldade de Dom Quixote e aguardando retorno à luz por intervenção superior.

Um dos reis fingidos, apresentado como Minos, interrompeu o canto e chamou Radamanto, seu companheiro nos julgamentos infernais, para declarar o meio de trazer Altisidora de volta. Radamanto levantou-se e ordenou que os ministros da casa selassem o rosto de Sancho com vinte e quatro palmadas de escárnio, dessem-lhe doze beliscões e seis picadas de alfinete nos braços e nas costas, pois nisso consistia a saúde da donzela. Sancho rompeu o silêncio. Perguntou que relação podia haver entre manosear seu rosto e ressuscitar Altisidora; já o obrigavam a açoitar-se por Dulcineia, agora queriam furá-lo por outra morta. Radamanto ameaçou-o, chamando-o de tigre e soberbo, e mandou que os ministros cumprissem a sentença.

Apareceram seis dueñas em procissão, algumas de óculos, todas com as mãos erguidas e dedos à mostra. Ao vê-las, Sancho declarou que aceitaria quase qualquer tormento, menos ser tocado por dueñas. Preferia punhais, tenazes e fogo a aquelas mãos. Dom Quixote pediu paciência, lembrando que o céu pusera nele virtude capaz de desencantar encantados e ressuscitar mortos. Mais brando, Sancho ofereceu rosto e barba à primeira dueña, que lhe deixou a palmada bem marcada e ainda fez reverência. Ele pediu menos cortesia e menos cosmético, pois as mãos dela cheiravam a vinagre. Vieram as outras, depois criados e gente da casa, todos beliscando e selando o escudeiro. Quando começaram as picadas de alfinete, Sancho perdeu a paciência, agarrou uma tocha acesa e correu atrás de seus verdugos, declarando que não era de bronze para suportar martírios tão extraordinários.

Nesse momento Altisidora, cansada de ficar tanto tempo imóvel, virou-se de lado. Todos gritaram que vivia. Radamanto mandou Sancho depor a ira, pois o intento estava alcançado. Dom Quixote, vendo a moça mover-se, ajoelhou-se diante do escudeiro e aproveitou a ocasião para pedir que desse também alguns açoites por Dulcineia, já que a virtude de seu corpo se mostrava tão eficaz. Sancho recusou o acréscimo. Depois de palmadas, beliscões e alfinetes, só faltava que lhe amarrassem pedra ao pescoço e o lançassem num poço para curar dores alheias. Altisidora sentou-se no túmulo, fingindo fraqueza, enquanto chirimias, flautas e vozes celebravam sua vida. Olhou de lado para Dom Quixote e disse que Deus lhe perdoasse a crueldade, pois por ele estivera, em sua conta, mais de mil anos no outro mundo.

A Sancho, chamou-o de escudeiro mais compassivo do mundo e ofereceu seis camisas suas para que fizesse outras seis para si, se nem todas inteiras, ao menos limpas. Sancho beijou-lhe as mãos de joelhos, ainda com a coroza na mão. O duque mandou que lhe tirassem a roupa de chamas, devolvessem a caperuza e o vestissem como antes. Sancho pediu licença para levar a roupa e a mitra à sua terra como lembrança daquele sucesso nunca visto. A duquesa concedeu, lembrando que era grande amiga dele. Depois o duque ordenou que o pátio fosse desfeito, que cada um se recolhesse e que Dom Quixote e Sancho fossem levados aos aposentos já conhecidos. A casa das burlas os recebia outra vez, e Sancho saía da ressurreição de Altisidora com mais marcas que a suposta morta.

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