Capítulo 86 - Maese Pedro e o exército do zurro
Capítulo 86 - Maese Pedro e o exército do zurro
A história deve dizer agora quem era Maese Pedro, pois o tapa-olho, o macaco e o retábulo cobriam rosto conhecido. Tratava-se de Ginés de Pasamonte, o mesmo galeote libertado por Dom Quixote e ingrato bastante para levar o rucio de Sancho na Serra Morena. Depois de escapar da justiça, mudara nome e ofício. Comprara ou conseguira um macaco adestrado, ensinando-o a subir ao ombro e fingir segredo ao ouvido. As respostas vinham, quase sempre, de informações colhidas antes pelo próprio Ginés, que perguntava discretamente em vendas e povoados. Assim fazia parecer adivinhação aquilo que era cálculo, memória e esperteza de homem acostumado a viver de atalhos.
Quando reconheceu Dom Quixote e Sancho na venda, Maese Pedro compreendeu que tinha diante de si fregueses perigosos e lucrativos. Sabia nomes, aventuras e feridas passadas, e pôde usar o macaco como boca de maravilha. Mesmo assim, a noite lhe saiu cara, porque nenhum cálculo previa que o cavaleiro derrubaria todo o retábulo para salvar bonecos em fuga. Com as moedas da indenização, recolheu o que pôde, guardou as peças quebradas e tornou a fechar sua identidade dentro do tapa-olho. Dom Quixote, sem suspeitar do antigo galeote, dormiu convicto de haver reparado o dano. Sancho dormiu pior, sentindo que sempre há alguém no mundo pronto para tirar proveito da loucura de seu amo e da bolsa do escudeiro.
No dia seguinte, partiram da venda. Pouco depois, ouviram rumor de gente reunida e viram avançar esquadrão de homens armados com lanças, alabardas e paus, levando estandarte onde se pintava um jumento. Eram os moradores do povoado do zurro, que saíam em campanha contra outro lugar por causa das zombarias já contadas pelo condutor das armas. Sancho encolheu-se. Não gostava de entrar em multidão armada por motivo frágil, porque gente que se junta por honra ferida costuma bater antes de ouvir. Dom Quixote, ao contrário, viu ocasião de exercer ofício pacificador. Tomou posição diante do estandarte e pediu licença para falar.
Os principais do grupo, admirados com aquela figura de armas e elmo, aceitaram ouvi-lo. Dom Quixote declarou que era cavaleiro andante e que sua profissão consistia em socorrer necessitados, desfazer injustiças e aconselhar prudência quando a cólera ameaça virar sangue. Explicou que um homem particular não consegue desonrar povo inteiro salvo em casos gravíssimos, e que zurridos de mofa, por mais desagradáveis, não justificavam guerra. Povoados conhecidos por apelidos, ofícios ou graças ridículas não devem sair a campo cada vez que a boca de rapazes ou vizinhos se solta. As armas só se tomam por causas altas: fé, vida, honra verdadeira, família, fazenda, serviço do rei ou defesa da pátria.
O discurso começou a fazer efeito. Os homens escutavam, e até Sancho se admirou de ver seu amo parecer teólogo, jurista e capitão ao mesmo tempo. Quando Dom Quixote pausou para respirar, o escudeiro resolveu ajudar. Disse que seu senhor sabia latim e romance, conhecia as leis do duelo e merecia crédito. Para provar que zurrar não ofende por si só, contou que em menino zurrava quando queria, com tal propriedade que todos os asnos da aldeia lhe respondiam, e nem por isso deixara de ser filho de pais honrados. Antes que alguém o detivesse, pôs a mão no nariz e soltou zurro tão forte e bem acabado que os vales vizinhos pareceram acordar.
A prova saiu pior que o argumento. Um dos homens do esquadrão julgou que Sancho caçoava deles. Levantou o varapau e acertou-lhe golpe tão pesado que o escudeiro caiu no chão sem fala bastante para protestar. Dom Quixote, vendo Sancho derrubado, avançou para socorrê-lo, mas a multidão começou a mover-se com ameaças. Choveriam pedras, paus e ferros antes que sua lança explicasse qualquer coisa. O cavaleiro percebeu que prudência, às vezes, salva para outro dia a honra que a coragem perderia num instante. Puxou Rocinante, tomou distância e saiu do campo, enquanto os homens do zurro, satisfeitos de haver calado a demonstração, continuavam em ordem confusa.
Depois, quando pôde, Dom Quixote voltou por Sancho, que já respirava e amaldiçoava sua própria ciência. O escudeiro queixou-se do amo, do zurro, do varapau e da hora em que nascera com talento tão mal remunerado. Dom Quixote respondeu que a intenção fora boa, embora a execução tivesse produzido fruto amargo. Sancho pediu que, dali em diante, sua sabedoria ficasse limitada a comer, dormir, cuidar do rucio e esperar ilha, porque todo conhecimento exposto diante de povo armado vira risco. Assim deixaram para trás o exército do zurro. A aventura acabava sem batalha, sem paz verdadeira e sem glória, salvo a de Sancho, que podia dizer ter sido ferido por demonstrar uma habilidade perfeita demais para a sensibilidade dos homens.