Capítulo 10 - A ilha prometida e a orelha ferida
Capítulo 10 - A ilha prometida e a orelha ferida
Sancho Pança levantou-se do chão com a lentidão de quem descobre, osso por osso, o preço de servir a um cavaleiro andante. As pancadas dos criados dos frades ainda lhe ardiam nas costas, mas a vitória de Dom Quixote contra o homem da Biscaia abriu dentro dele uma esperança teimosa. Se havia batalha vencida, talvez houvesse também recompensa. E se havia recompensa, a ilha prometida não devia estar tão longe.
Quando viu o amo voltar para Rocinante, Sancho correu, segurou-lhe o estribo e, antes que ele montasse, ajoelhou-se com uma gravidade que quase parecia aprendida nos próprios livros do cavaleiro. Beijou-lhe a mão e pediu, com toda a humildade que conseguiu reunir, o governo da ilha conquistada naquele combate. Disse sentir-se homem bastante para governa-la, fosse ela grande ou pequena, e talvez naquele instante acreditasse mesmo nisso.
Dom Quixote olhou para ele com uma mistura de paciência e superioridade. Explicou que aquela aventura pertencia às encruzilhadas, onde o ganho costuma ser uma cabeça quebrada ou uma orelha a menos, longe das ilhas e governos sonhados. A ilha viria, prometeu, em ocasião mais própria. Sancho aceitou a resposta porque a esperança, quando precisa, aprende a viver de adiamentos.
Sem despedir-se das damas da carruagem, Dom Quixote entrou por um bosque vizinho, desejoso de afastar-se antes que a realidade organizasse represálias. Sancho seguiu no trote possível de seu jumento. Rocinante, talvez animado pelo sangue ainda quente do dono, adiantou-se demais, e o escudeiro precisou gritar para que o amo o esperasse.
Quando enfim o alcancou, Sancho falou com a prudência de quem conhece menos os livros do que os perigos. Disse que seria sensato procurar abrigo numa igreja, pois o homem ferido poderia denunciar o caso a Santa Hermandad, e então os dois conheceriam prisão antes de conhecer ilha. Dom Quixote rejeitou a ideia com firmeza. Cavaleiros andantes, disse, não eram levados a tribunal por ferimentos feitos em batalha.
Sancho não discutiu a lei dos cavaleiros, porque não sabia le-la nem acreditava muito nela. Sabia apenas que homens armados em estradas costumavam atrair justicas bem concretas. Ainda assim, mudou de assunto ao ver o sangue escorrendo da orelha do amo. Tirou dos alforjes fiapos de pano e um pouco de unguento, oferecendo-se para tratar a ferida antes que o heroísmo pingasse inteiro no chão.
Dom Quixote aceitou o cuidado, mas lamentou não ter preparado antes o bálsamo de Fierabras. Segundo ele, poucas gotas desse licor bastariam para fechar feridas, recompor membros cortados e devolver ao corpo sua inteireza. Sancho, que até ali conhecia remédios mais humildes, arregalou os olhos. Se tal bebida existia, pensou, talvez valesse mais do que qualquer governo distante.
O cavaleiro explicou a maravilha com naturalidade assustadora. Se um dia o cortassem ao meio, Sancho deveria apenas recolher a metade caida, ajusta-la com cuidado sobre a metade que permanecesse na sela e dar-lhe duas gotas do bálsamo. O corpo ficaria são como fruta fresca. O escudeiro ouviu aquilo com o espanto pratico de quem tenta imaginar o trabalho de carregar metade de um amo pela estrada.
Por um momento, Sancho quase renunciou a ilha. Pediu antes a receita do bálsamo, convencido de que poderia vende-la por bom preço e viver com menos sustos. Dom Quixote respondeu que o segredo custava pouco e renderia muito, mas que havia tempo para ensinar maiores mistérios. Por ora, a orelha doia, e mesmo os cavaleiros mais elevados tinham de reconhecer a autoridade de uma dor insistente.
Sancho limpou o sangue como pode. Mas quando Dom Quixote percebeu o estado do elmo, quebrado pelo golpe do biscainho, quase perdeu o dominio de si. Ergueu os olhos e jurou levar vida dura até arrancar de algum cavaleiro outro elmo tão bom quanto aquele que perdera. Falou de modelos antigos, promessas solenes e vingancas famosas, costurando a própria desventura a uma linhagem de gestos grandiosos.
Sancho, que via no juramento mais desconforto do que honra, tentou desfaze-lo com uma razão simples. Se o biscainho cumprisse a ordem de apresentar-se a Dulcineia, já teria pago sua falta; alem disso, talvez passassem dias sem encontrar homem armado com elmo algum. Nas estradas, havia mais carreteiros do que cavaleiros, mais fome do que glória, mais poeira do que metal reluzente.
Dom Quixote aceitou parte do argumento e retirou a vinganca direta contra o biscainho, mas manteve a promessa de conseguir outro elmo. Tinha em mente o famoso elmo de Mambrino, como se a lembranca de uma aventura lida bastasse para garantir uma aventura futura. Sancho suspirou. O mundo comum insistia em parecer vazio de encantos, mas o amo sempre encontrava nele um buraco por onde enfiar a epopeia.
A conversa voltou a comida. Sancho abriu os alforjes e apresentou o que havia: cebola, queijo e pedacos de pão. Desculpou-se, dizendo que aquilo não era alimento digno de cavaleiro tão valente. Dom Quixote, porém, transformou a pobreza em regra de ofício. Cavaleiros andantes, explicou, comiam o que encontravam; muitas vezes passavam longos tempos sem banquetes, sustentados por frutos secos, ervas e paciência.
Sancho aceitou a doutrina do modo mais seu: prometeu levar dali em diante frutas secas para o amo e, para si, coisas mais substanciosas, porque não era cavaleiro e não via motivo para sofrer por etiqueta alheia. Comeram juntos, pobres e cansados, cada um interpretando aquele jantar conforme sua própria fé: Dom Quixote como disciplina heroica, Sancho como pouca comida.
A noite vinha depressa, e os dois procuraram algum lugar onde passar em segurança. A esperança de encontrar casa ou venda morreu com a luz do dia, perto das cabanas de alguns cabreiros. Para Sancho, dormir ao relento era derrota doméstica; para Dom Quixote, era quase prova de nobreza. Assim chegaram ao próximo abrigo, levando uma ilha prometida, uma orelha ferida e a estranha certeza de que a estrada ainda não terminara de inventa-los.