Capítulo 58 - O retorno à aldeia Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 58 de 133
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Capítulo 58 - O retorno à aldeia

Capítulo 58 - O retorno à aldeia

A estrada, depois de tantas palavras sobre livros, armas, encantamentos e governos impossíveis, começou enfim a tomar a feição conhecida dos campos da aldeia. A carreta seguia devagar, e nela ia Dom Quixote, ainda convencido de que a jaula pertencia ao artifício de sábios inimigos que, por inveja de sua glória, o levavam encantado, e não à prisão comum dos homens. O cura e o barbeiro, que vinham junto da comitiva, moderavam o passo e a voz, porque desejavam chegar sem alarde e entregar o cavaleiro a sua própria casa antes que nova aventura nascesse da primeira sombra.

Sancho Pança, montado no seu jumento, olhava ora para a jaula, ora para o caminho, ora para o rosto fechado de seu amo. Havia nele pena sincera, mas também a teimosia das contas mal encerradas. Dizia consigo que encantamento nenhum devia apagar promessa de ilha, condado ou governo, pois se o senhor estava agora em carreta, não deixava por isso de ser cavaleiro; e se era cavaleiro, ainda podia um dia pagar ao escudeiro os trabalhos, os sustos e as muitas pancadas que a fortuna lhe dera em lugar de salário.

Quando os telhados da aldeia apareceram, os rapazes foram os primeiros a cercar a carreta. Uns apontavam para a jaula, outros corriam adiante, anunciando que voltava Dom Quixote, trazido como santo de procissão ou como fera mansa de feira, conforme a malicia de cada boca. O cura pediu que se afastassem, e o barbeiro, com ar grave, sustentou a farsa enquanto foi preciso, para que o enfermo não se julgasse vencido por homens comuns. Dom Quixote, ouvindo as vozes conhecidas, ergueu a cabeça e disse que sua fama já precedia seu corpo, como convinha aos grandes restauradores da cavalaria andante.

Chegaram enfim a porta da casa. A ama saiu primeiro, levando as mãos ao rosto; a sobrinha veio logo atrás, entre espanto e alivio. Ambas viram a jaula, a poeira da carreta, a palidez do fidalgo e a resignação altiva com que ele aceitava sua suposta prisão magica. A ama começou a lamentar os livros, as noites mal dormidas, os campos corridos e as carnes quebradas; a sobrinha pediu ao tio que entrasse, que descansasse, que esquecesse por alguns dias gigantes, castelos e princesas. Ele respondeu com mansidão estranha que nada estava esquecido: apenas os ceus ordenavam repouso antes de empresa maior.

Com cuidado, tiraram-no da jaula. Não o fizeram como quem solta um prisioneiro, mas como quem remove pessoa doente de um leito ruim para outro menos duro. Dom Quixote deixou-se conduzir, porque julgava que os encantadores assim o queriam, e porque seu corpo, que não lia romances, sabia melhor que ele o peso das jornadas. Puseram-no na cama. A casa, que tantas vezes o vira sair armado de sonhos, recebia agora o mesmo homem gasto, magro, coberto de poeira, e ainda assim iluminado por uma certeza que os demais não sabiam curar.

Sancho ficou no patio, cercado por perguntas. Queriam saber por onde andara, que ganho trouxera, que fim levara a famosa governação prometida. Ele contou parte do caminho e calou outra parte, porque nem toda surra merece memória publica. Disse que haviam conhecido duques sem título, princesas de necessidade, pastores, penitentes, quadrilheiros, vendavais de paus e uma rainha chamada Dulcineia, que valia mais no pensamento de seu amo que muita senhora de carne e osso. Sobre a ilha, falou com seriedade: ainda não a recebera, mas também não lhe haviam provado que estivesse perdida.

A ama ralhou com ele por ter acompanhado o fidalgo; a sobrinha o olhou como se ele fosse metade culpado, metade testemunha. Sancho defendeu-se dizendo que nunca obrigara ninguém a ser cavaleiro, e que, se seguira seu amo, fora por lealdade e também por esperança honrada de melhorar a vida da família. Acrescentou que Dom Quixote tinha coração maior do que juízo, e que muitos homens de muito juízo não possuam coração que prestasse. Nisso, sem perceber, disse a verdade mais limpa daquele dia.

O cura e o barbeiro conversaram em voz baixa. Era preciso vigiar a porta, esconder qualquer livro suspeito, impedir novas armas e dar ao fidalgo tempo bastante para que o sono fizesse o que os argumentos não tinham feito. Ninguém queria humilha-lo; todos queriam salva-lo, embora cada um chamasse salvação por nome diferente. Para a ama, salvar era fechar a casa; para a sobrinha, era recuperar o tio; para o cura, era separar fantasia de perigo; para Sancho, talvez fosse esperar que o amo acordasse menos ferido e ainda lembrado de suas promessas.

Dentro do quarto, Dom Quixote fechou os olhos. Talvez visse castelos onde havia paredes caiadas, talvez ouvisse trombetas no rangido da porta, talvez confundisse a cama pobre com leito preparado por algum rei agradecido. Mas a aldeia estava ali, concreta, com seus passos no patio, suas panelas, suas vozes e seu cuidado imperfeito. A aventura voltara ao lugar de onde saíra. Não estava morta; apenas dormia, cercada por gente que temia vê-la despertar depressa demais.

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