Capítulo 38 - O curioso impertinente Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 38 de 133
Obra Menu

Capítulo 38 - O curioso impertinente

Capítulo 38 - O curioso impertinente

O cura ajeitou as folhas encontradas e avisou aos ouvintes que a história a seguir não se passava naquela venda, nem nas serras por onde tinham vindo, mas em Florença, cidade rica em casas nobres, amizades antigas e perigos delicados. Essa distância agradou a todos. Depois de tantas verdades próximas demais, parecia descanso olhar para a ruína dos outros por uma janela de papel.

Chamava-se Anselmo um dos homens da narrativa. Era rico, bem-nascido, estimado e, segundo diziam, dotado de juízo suficiente para viver feliz. Seu amigo mais íntimo era Lotário, homem de honra firme, discreto e leal. A amizade dos dois era tão conhecida que muitos os chamavam de uma só alma dividida em dois corpos. Iam juntos, conversavam juntos, aconselhavam-se em tudo, e nenhum parecia guardar do outro segredo que importasse.

Anselmo casou-se com Camila, mulher de beleza serena e virtude reconhecida. Não era apenas formosa; tinha aquela dignidade quieta que torna a confiança mais natural que a vigilância. Lotário, vendo o casamento do amigo, afastou-se um pouco por respeito. Sabia que a amizade entre homens solteiros muda de medida quando um deles toma esposa. Não queria ser presença excessiva em casa alheia, nem dar ao mundo pretexto para murmuração.

Até aí, disse o cura, tudo caminhava como deveria. O vendeiro, que ouvia de pé, comentou que histórias assim só começam a dar trabalho quando alguém inventa trabalho onde não há. Sancho concordou com entusiasmo, antes mesmo de saber o resto. Dom Quixote pediu silêncio, porque uma história nobre merecia atenção.

Anselmo, porém, não soube habitar a própria felicidade. Tinha esposa honrada, amigo leal, casa segura e nome limpo. Justamente por isso, começou a desejar uma certeza que nenhuma pessoa prudente deve exigir. Queria ver a fidelidade de Camila posta diante de tentação ativa, como se a paz da casa fosse prova insuficiente. Achava que virtude não provada era virtude incompleta, como espada nunca tirada da bainha.

Lotário ouviu essa ideia com espanto quando o amigo a confessou. Anselmo queria que ele, Lotário, fingisse cortejar Camila. Queria que a amizade se transformasse em instrumento de prova. Queria que o homem em quem mais confiava fosse usado para produzir perigo dentro da própria casa. Se Camila resistisse, Anselmo se julgaria o mais feliz dos maridos; se caísse, ao menos conheceria a verdade. Assim dizia, com a lógica torta dos que chamam curiosidade de prudência.

Lotário recusou imediatamente. Disse que há honras que não se testam sem feri-las, como vidro que perde valor mesmo se não quebra. Disse que mulher honrada não deve ser posta diante de armadilha para satisfazer desconfiança sem causa. Disse que amigo verdadeiro não ajuda outro a destruir a paz doméstica. Falou com razão, firmeza e afeto. Era o tipo de conselho que deveria encerrar a questão.

Mas Anselmo não queria conselho; queria cumplicidade. Insistiu. Afirmou que só confiaria plenamente na virtude de Camila depois de vê-la resistir a Lotário. Quanto mais Lotário argumentava, mais Anselmo se agarrava à ideia. A impertinência de sua curiosidade crescia porque encontrava resistência: como menino diante de porta fechada, desejava ainda mais abri-la.

Na venda, Doroteia escutava com rosto sério. Lucinda também. Ambas conheciam bem o que acontece quando homens transformam mulheres em terreno de prova, conquista ou honra própria. Fernando baixou os olhos. Cardenio permaneceu imóvel. A história de Florença, embora distante, tocava nervos recentes demais.

O cura continuou. Lotário procurou outro caminho: se Anselmo desejava saber se Camila era boa, bastava olhar sua conduta. Ela vivia recolhida, tratava-o com respeito, não dava ocasião a suspeitas. Querer mais era desprezar o bem que possuía. A honra, disse Lotário, não aumenta por ser exposta ao risco; apenas fica mais perto da perda.

Anselmo ouviu, elogiou a prudência do amigo e voltou a pedir a mesma loucura. Prometeu não se ofender. Jurou que tudo seria segredo. Disse que a prova seria breve, controlada, quase filosófica. Lotário percebeu que a razão não entrava onde a fantasia de certeza já tinha fechado a porta. O amigo estava doente de uma dúvida sem objeto.

Dom Quixote mexeu-se, intrigado. Para ele, provar virtude em perigo parecia matéria de romance; mas havia algo no tom do cura que indicava desastre, não glória. Sancho, menos dividido, murmurou que quem planta espinheiro não deve reclamar de arranhão. O barbeiro sorriu para dentro, porque às vezes Sancho cortava mais fino que muito letrado.

Por fim, cansado da insistência e temendo que Anselmo buscasse outro instrumento pior, Lotário fingiu aceitar. Disse que faria o que o amigo queria, mas em seu íntimo decidiu proteger Camila e curar Anselmo pelo caminho menos danoso. Planejou visitar a casa, falar pouco, simular obediência e depois dizer que Camila se mostrara inabalável. Seria uma mentira para salvar três verdades: a honra da esposa, a amizade e a paz da casa.

O perigo, porém, já estava criado. Ao pedir a prova, Anselmo abrira uma porta. Lotário, mesmo bem-intencionado, aceitou cruzar esse limite. Camila, que nada sabia, permanecia no centro de um experimento feito sobre sua vida sem seu consentimento. E a confiança, uma vez tratada como coisa duvidosa, começava a sofrer antes mesmo de ser traída.

O cura levantou os olhos das folhas por um instante. Na venda, ninguém falava. A história encontrada tinha prendido a todos. Não havia gigante, nem batalha, nem encantamento visível. Havia apenas um homem incapaz de suportar a própria felicidade sem desmontá-la para ver de que era feita. E isso, talvez, fosse uma aventura mais perigosa que muitas lanças.

1/1
Menu

Fazer anotação