Capítulo 17 - O bálsamo e a conta da venda
Capítulo 17 - O bálsamo e a conta da venda
A manhã encontrou Dom Quixote mais quebrado do que adormecera, mas nem por isso menos disposto a explicar o mundo por encantamentos. Cada dor era, para ele, sinal de que forças invisíveis o perseguiam; cada hematoma, uma prova de que sua fama já incomodava feiticeiros. Sancho, deitado perto dele, não via feiticeiro algum. Via costelas, ombros, pernas e uma lista inteira de partes do corpo protestando ao mesmo tempo.
O vendeiro entrou para saber se os hospedes continuavam vivos e, vendo que sim, tratou logo de lembrar que a casa não sustentava cavaleiros de graça. Dom Quixote respondeu com a dignidade de quem ainda se julgava em castelo: os cavaleiros andantes, dizia, não pagavam pousada, pois era honra dos castelos recebê-los. O vendeiro escutou aquilo com paciência curta. Castelos talvez vivessem de honra; vendas viviam de moedas.
Antes que a conta crescesse em discussão, Dom Quixote pediu a Sancho que buscasse azeite, vinho, sal e alecrim. Disse conhecer a receita do famoso bálsamo de Fierabras, capaz de recompor corpos partidos e devolver vigor a quem houvesse sido despedaçado em batalha. Sancho arregalou os olhos. Se aquilo fosse verdade, pensou, talvez a vida de escudeiro ainda tivesse conserto.
Com os ingredientes reunidos, Dom Quixote misturou tudo numa panela pobre, pronunciou sobre o liquido algumas palavras solenes e bebeu boa porção. O efeito veio depressa. Primeiro, o estomago revoltou-se como tropa mal paga. Depois, o cavaleiro suou, tremeu, vomitou e dormiu profundamente. Quando acordou, sentiu-se aliviado o bastante para declarar provada a virtude do bálsamo.
Sancho, que tinha visto mais violência que milagre, pediu sua parte assim mesmo. Se o remedio curava cavaleiro, talvez pudesse curar escudeiro por aproximação. Bebeu. Mas, como Dom Quixote explicou tarde demais, o bálsamo talvez fosse feito para homens armados pela ordem da cavalaria, não para servidores comuns. O corpo de Sancho recebeu a mistura como ofensa pessoal. O pobre escudeiro foi tomado por enjoos, suores e tormentos tão grandes que quase preferiu os paus dos Yangueses.
Enquanto Sancho padecia, Dom Quixote tentava consolá-lo com doutrina. Dizia que a diferença de efeitos confirmava a regra: nele, cavaleiro, o bálsamo operara cura; em Sancho, ainda não armado, provocara turbulência natural. Sancho, entre uma queixa e outra, respondeu que dispensava curas tão seletivas. Preferia remedio que reconhecesse pessoas sem perguntar por título.
A casa inteira assistia à cena com mistura de espanto e riso. Maritornes olhava Sancho com pena, lembrando talvez que a vida costumava castigar primeiro quem menos escolhia. A filha do vendeiro escondia sorrisos. O vendeiro, menos poético, só queria receber. Para ele, importava uma pergunta mais simples: quem pagaria cama, palha, vinho, azeite e prejuízo.
Quando Dom Quixote se julgou recuperado, pediu que Rocinante fosse selado. Declarou que a aventura chamava e que não convinha a cavaleiro demorar-se em repouso. Sancho, pálido e vazio, perguntou se a aventura podia chamar mais baixo, pois sua cabeça ainda girava. O amo respondeu que a glória não espera pelo conforto dos homens. Sancho pensou que a glória demonstrava, nisso, pessimo caráter.
Na hora da partida, o vendeiro apresentou a conta com clareza. Dom Quixote tornou a afirmar que não devia nada, pois jamais lera que cavaleiro andante pagasse hospedagem em castelo. O vendeiro respondeu que não sabia de livros, mas sabia de camas e comida. Se o cavaleiro não pagava, que pagasse o escudeiro. Sancho, que mal conseguia ficar em pe, percebeu que o peso do mundo, quando não encontrava moeda no amo, caia sempre sobre ele.
Dom Quixote saiu montado em Rocinante, convicto de que deixava para trás um castelo cheio de enigmas. Sancho ficou um instante cercado pelos homens da venda, tentando explicar que também ele pertencia à cavalaria e que, por consequência, talvez herdasse a mesma isenção. Ninguém pareceu convencido. O vendeiro e os demais tinham uma compreensão muito direta da justiça: quem dorme, paga; quem bebe, paga; quem acompanha quem não paga, paga dobrado se for preciso.
O escudeiro olhou para a porta, onde o amo já se afastava, e entendeu que a liberdade de um cavaleiro podia ser a prisão financeira de seu servidor. Ainda tentou sorrir, ainda tentou argumentar, ainda tentou invocar a ilha prometida como garantia futura. Mas as mãos ao redor dele tinham pouca fé em ilhas imaginadas.
A venda, que para Dom Quixote era castelo, começava a mostrar a Sancho uma verdade mais dura: nem toda aventura termina quando o herói monta e parte. Muitas continuam para quem fica acertando a conta.