Capítulo 121 - A cabeça encantada Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 121 de 133
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Capítulo 121 - A cabeça encantada

Capítulo 121 - A cabeça encantada

Don Antonio Moreno recebeu Dom Quixote com trato de honra e logo começou a procurar modos de mostrar suas loucuras sem lhe causar dano. Mandou desarmá-lo e pô-lo à janela, com o velho traje apertado e amarelado, para que a gente da rua o visse como raridade. Depois serviu almoço a amigos que o trataram como cavaleiro andante, o que encheu Dom Quixote de satisfação. Sancho, por sua vez, prendeu a atenção da casa inteira com suas respostas. Quando don Antonio o provocou sobre manjar branco e almôndegas, insinuando que guardava sobras no peito, o escudeiro defendeu sua limpeza e sua moderação, dizendo que ele e o amo podiam passar dias com um punhado de bolotas, embora comesse de boa vontade o que a ocasião oferecesse.

Terminada a refeição, don Antonio levou Dom Quixote a um aposento reservado. No centro havia uma mesa que parecia de jaspe e, sobre ela, uma cabeça de bronze à maneira dos bustos antigos. O anfitrião contou, sob juramento de segredo, que aquela cabeça fora fabricada por grande encantador e respondia ao ouvido tudo quanto lhe perguntassem, exceto às sextas-feiras, dia em que ficava muda. Dom Quixote hesitou entre crer e duvidar, porém o curto prazo até a experiência o fez aceitar a maravilha. Na tarde do mesmo dia, don Antonio ainda o levou a passeio num mulo bem arreado e, sem que ele percebesse, mandou costurar em suas costas um letreiro: “Este é Dom Quixote de la Mancha”. A multidão lia o aviso e chamava seu nome, enquanto ele atribuía o reconhecimento à glória natural da cavalaria.

Um castelhano mais severo leu o letreiro e falou alto, aconselhando Dom Quixote a voltar para casa, cuidar da fazenda, da mulher e dos filhos, e abandonar fantasias que lhe consumiam o juízo. Don Antonio cortou o conselho, dizendo que ninguém pedira opinião e que a virtude devia ser honrada onde aparecesse. O passeio terminou em casa, onde houve baile com damas. Duas delas, honestas e brincalhonas, insistiram tanto em dançar com Dom Quixote que lhe moeram corpo e alma. Ele resistia aos galanteios em nome de Dulcineia, até sentar-se no chão, vencido pela dança. Sancho ajudou a levá-lo para a cama e comentou que nem todo valente nasce dançarino: seu amo podia matar gigante, se preciso, porém cabriolas pertenciam a outro ofício.

No dia seguinte, don Antonio reuniu Dom Quixote, Sancho, sua mulher, duas damas e dois amigos diante da cabeça. O anfitrião perguntou que pensamentos tinha, e a cabeça respondeu que não julgava pensamentos. Perguntou quantos estavam ali, e ela contou todos, incluindo o famoso cavaleiro e seu escudeiro. As mulheres quiseram saber como ser belas e se eram amadas; os homens perguntaram por seus nomes e por filhos interessados em herança. As respostas vinham claras, prudentes e às vezes secas. Dom Quixote perguntou se o acontecido na cova de Montesinos fora sonho ou verdade, se os açoites de Sancho teriam efeito e se Dulcineia seria desencantada. A cabeça respondeu que a cova tinha muito que examinar, que os açoites iriam devagar e que o desencanto chegaria à execução devida. Sancho perguntou por novo governo, estreiteza de escudeiro e volta à família; ouviu que governaria em casa, veria mulher e filhos se voltasse, e deixaria de ser escudeiro quando deixasse o serviço.

Cide Hamete, para não deixar o leitor preso ao assombro, explica que a cabeça não tinha encantamento algum. Don Antonio copiara em casa um artifício visto em Madrid: mesa, pedestal e busto eram ocos, ligados por um tubo escondido a aposento inferior, onde um sobrinho estudante respondia às perguntas. O engenho durou poucos dias; quando a fama se espalhou por Barcelona, autoridades religiosas mandaram desfazê-lo para evitar escândalo entre gente crédula. Para Dom Quixote e Sancho, entretanto, a cabeça permaneceu encantada, embora satisfizesse mais o cavaleiro que o escudeiro. A promessa sobre Dulcineia bastava a Dom Quixote; Sancho achou que a resposta sobre governo dizia apenas o que qualquer Perogrullo saberia dizer.

Mais tarde, Dom Quixote quis passear a pé pela cidade e entrou numa casa onde se imprimiam livros. Viu prensas, provas, composição de letras e oficiais ocupados em partes diferentes da obra. Conversou com um tradutor de italiano, discutiu palavras simples como quem provava ciência, e declarou que traduzir de línguas fáceis se parecia a olhar tapete flamengo pelo avesso: as figuras aparecem, porém faltam clareza e face direita. Ainda assim, reconheceu mérito no ofício quando bem feito. Em outro lugar viu corrigirem a Segunda parte do engenhoso hidalgo Dom Quixote de la Mancha, composta por um autor de Tordesilhas. Já conhecia aquele volume e disse que imaginara vê-lo reduzido a pó por impertinente. Saiu da imprensa com desgosto, enquanto don Antonio preparava para aquela tarde uma visita às galés da praia, notícia que alegrou Sancho por nunca ter visto tais máquinas do mar.

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