Capítulo 109 - Teresa Pança recebe notícias
Capítulo 109 - Teresa Pança recebe notícias
Cide Hamete, examinador miúdo desta história, conta agora quem foram os verdugos silenciosos que castigaram doña Rodríguez e beliscaram Dom Quixote. Quando a dueña saiu de seu aposento para procurar o cavaleiro, outra que dormia perto percebeu o movimento e a seguiu com cautela. Assim que a viu entrar no quarto de Dom Quixote, correu a contar tudo à duquesa, por hábito antigo de mexericos. A duquesa avisou o duque e pediu licença para, com Altisidora, ouvir o que se passava. As duas chegaram à porta em grande silêncio e escutaram a conversa. Quando doña Rodríguez revelou o segredo das fontes nas pernas da senhora, a duquesa e Altisidora perderam a paciência. Entraram às escuras, castigaram a criada e encheram o cavaleiro de beliscões, como já ficou narrado.
Depois disso, a duquesa continuou a divertir-se com as figuras de Dom Quixote e Sancho. Enviou ao povoado dos Panzas o pajem que representara Dulcineia no espetáculo de Merlim, levando a carta do governador para Teresa, outra carta sua e um rico colar de corais com remates de ouro. O pajem partiu de bom grado e, antes de entrar na aldeia, encontrou mulheres lavando junto a um arroio. Perguntou se conheciam Teresa Pança, mulher de Sancho Pança, escudeiro de Dom Quixote. Uma mocinha levantou-se, dizendo que Teresa era sua mãe, Sancho seu pai e Dom Quixote seu amo. Deixou a roupa com outra lavadeira e guiou o visitante correndo, despenteada e com pressa, até a casa.
Na porta, a menina gritou que a mãe saísse, pois vinha um senhor com cartas e coisas de seu pai. Teresa apareceu fiando, vestida de modo simples, forte, seca e curtida, mais perto dos quarenta que da velhice. O pajem desceu do cavalo, ajoelhou-se diante dela e pediu as mãos da legítima senhora do governador da ilha Baratária. Teresa, espantada, mandou que se levantasse, pois se via sem trato palaciano, pobre lavradora, filha de quem quebrava terra, mulher de escudeiro andante. O pajem respondeu que ela era digníssima esposa de governador archidigníssimo e, para prova, tirou a carta e o colar. Teresa e Sanchica ficaram pasmadas. A filha logo atribuiu tudo a Dom Quixote, que enfim devia ter dado ao pai o governo tantas vezes prometido.
Como nenhuma das duas sabia ler, Sanchica quis buscar o cura ou o bacharel Sansón Carrasco. O pajem disse que não sabia fiar, mas sabia ler, e leu a carta de Sancho. Depois leu a da duquesa, que chamava Teresa de amiga, elogiava a bondade e o engenho do marido, dizia ter pedido ao duque que lhe desse governo e afirmava que ele governava como ave de alta caça. Mandava os corais, prometia conhecer Teresa de perto algum dia e dizia que casaria Sanchica em posição alta quando menos se pensasse. Pedia ainda duas dúzias de bolotas gordas daquele lugar e uma resposta longa sobre saúde e necessidades. Se precisasse de algo, bastava abrir a boca.
Teresa, ao ouvir a carta, encantou-se com a humildade da duquesa. Preferia senhoras assim às fidalgas da aldeia, que pareciam temer que o vento as tocasse e olhavam lavradoras de cima. Prometeu enviar não duas dúzias, mas um bom alqueire de bolotas, tão grandes que poderiam ser vistas com espanto. Mandou Sanchica cuidar do cavalo do pajem, buscar ovos, cortar toucinho e recebê-lo como príncipe, enquanto ela iria anunciar a boa nova às vizinhas, ao cura e a mestre Nicolás. A filha pediu metade do colar, desconfiando que a duquesa não o mandara inteiro só para a mãe. Teresa respondeu que tudo seria dela, mas queria usar alguns dias aquelas contas que alegravam o coração. O pajem acrescentou que trazia também a roupa fina de caça que Sancho usara um único dia, destinada a Sanchica.
Com cartas na mão e corais no pescoço, Teresa saiu pela rua tocando os papéis como pandeiro. Encontrou o cura e Sansón Carrasco e começou a dançar, dizendo que agora não havia parente pobre, pois tinham governo. Os dois estranharam. Ela entregou as cartas; leram-nas e ficaram olhando um para o outro, entre riso e perplexidade. O cura examinou os corais, viu que eram finos e não sabia que pensar: por um lado, carta de duquesa pedindo bolotas; por outro, presente verdadeiro. Foram então conhecer o mensageiro. Em casa, acharam o pajem tratando da cavalgadura e Sanchica preparando ovos com toucinho para servi-lo. Ele confirmou que Sancho era governador de fato, sem entrar na questão de ser ou não ilha o lugar governado. Bastava, dizia, ter mais de mil vizinhos e autoridade concedida pelos duques.
Sanchica perguntou se o pai já usava calças atacadas de governador, porque desde pequena sonhava vê-lo naquele aparato. O pajem respondeu que provavelmente sim e que, se o cargo durasse dois meses, talvez o vissem ainda mais composto. Teresa começou a planejar vestido armado, viagem à corte e coche como as senhoras. Sanchica aceitou de bom grado qualquer murmuração, desde que pudesse ir sentada com os pés fora da lama. O cura, ouvindo mãe e filha derramarem refrãos, disse que os Panzas deviam nascer com sacos de ditos no corpo. O pajem confirmou que Sancho os espalhava a cada passo, nem sempre no ponto certo, mas com graça bastante para divertir duque e duquesa.
Sansón ainda duvidava de tudo e quase quis tocar o pajem para ver se era homem ou embaixador encantado. O rapaz respondeu que era de carne e osso, filho de pais vivos, e que quem quisesse comprovar o governo poderia acompanhá-lo. Sanchica logo se ofereceu para ir à garupa; o pajem advertiu que filhas de governadores viajam com carroças, literas e criados. Teresa mandou a filha calar e aceitou a nova dignidade: quando Sancho era Sancho, ela era Sancha; quando se tornava governador, ela virava senhora. O pajem acabou jantando com o cura, que desejava interrogá-lo com calma sobre Dom Quixote. Sansón ofereceu-se para escrever as respostas, mas Teresa preferiu um monaguinho menos zombeteiro, pagando-lhe com bolo e ovos para redigir duas cartas, uma ao marido e outra à duquesa.