Capítulo 75 - O Cavaleiro do Verde Gabão Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 75 de 133
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Capítulo 75 - O Cavaleiro do Verde Gabão

Capítulo 75 - O Cavaleiro do Verde Gabão

Dom Quixote seguia orgulhoso da vitória contra o Cavaleiro dos Espelhos, certo de que os encantadores tinham tentado vencê-lo por astúcia e acabaram servindo à sua fama. Sancho, ao lado dele, conservava no pensamento as narizes falsas de Tomé Cecial, o rosto de Sansón Carrasco e a facilidade com que seu amo convertia vizinhos em figuras de magia. Quando arriscou dizer que tudo parecera coisa de gente conhecida, Dom Quixote respondeu com raciocínio fechado: se Sansón fosse realmente Sansón, que motivo teria para buscar combate? Logo, a aparência de amigo servira apenas para poupar o vencido da espada. Sancho aceitou a explicação por fora e guardou a dúvida por dentro.

Nesse diálogo estavam quando os alcançou um homem montado em formosa égua tordilha. Vestia gabão verde de pano fino, guarnecido com cores discretas, e trazia no porte aquela mistura de gravidade e alegria que faz um desconhecido parecer digno antes mesmo de falar. O arreio da égua também vinha composto com gosto, e cada peça parecia escolhida por quem ama o campo sem abandonar certa vaidade limpa. Dom Quixote notou o traje, a idade madura, o rosto aquilino, os poucos cabelos brancos e a compostura serena. O homem, por sua vez, olhava o cavaleiro manchego com espanto honesto: armadura fora de tempo, corpo magro, rosto amarelo, lança, escudo e cavalo longo demais para qualquer uso comum.

Dom Quixote, percebendo a curiosidade do viajante, adiantou-se com cortesia. Disse-lhe que a figura diante dele talvez causasse admiração, porque já quase ninguém via no mundo cavaleiros andantes. Apresentou-se como Dom Quixote de la Mancha, também chamado Cavaleiro da Triste Figura, homem que deixara casa, renda, comodidade e repouso para ressuscitar a ordem morta da cavalaria. Falou de viúvas socorridas, donzelas amparadas, órfãos defendidos, opressores desafiados e de sua história já impressa em muitas terras. O homem do gabão verde escutou sem interromper, espantado de encontrar, em plena estrada, alguém que falava como livro antigo e respirava como pessoa real.

O viajante respondeu que se chamava Dom Diego de Miranda, hidalgo de um povoado próximo. Era medianamente rico, vivia com mulher, filho e amigos, gostava de caça e pesca sem ostentação, possuía alguns livros de história, devoção e honesto entretenimento, e mantinha fora de casa os livros de cavalaria. Descreveu sua vida com ordem: ouvia missa, ajudava pobres, reconciliava vizinhos, evitava murmuração, recebia amigos com mesa limpa e suficiente, vigiava a própria vaidade e confiava na misericórdia de Deus. Sancho ouviu aquela relação como quem assiste à vida perfeita montada em sela. Desceu do rucio e beijou o estribo de Dom Diego, chamando-o de primeiro santo a cavalo que encontrara em todos os seus dias.

Dom Diego riu com modéstia e disse que santo algum era, apenas pecador comum. Depois contou que tinha um filho chamado Dom Lorenzo, moço de engenho vivo, mais inclinado à poesia do que às ciências que o pai desejava para ele. Gostaria que estudasse leis ou teologia, ofícios de crédito e proveito, porém o rapaz gastava horas em versos, glosas e justas literárias. Dom Quixote, ao ouvir isso, falou com atenção inesperada. Aconselhou que não se violentasse a inclinação dos filhos, pois forçar um moço a seguir caminho contrário à natureza produz tristeza e mau fruto. As letras são nobres, disse ele, quando servem à virtude; a poesia, se honesta e bem guiada, eleva a língua e acompanha as grandes ações.

Dom Diego ouviu o discurso e sentiu crescer sua perplexidade. Aquele homem parecia louco quando tratava de cavaleiros, encantadores e glórias impossíveis, mas falava com peso quando discorria sobre filhos, virtude e estudos. Convidou-o para comer em sua casa, que ficava pelo caminho. Dom Quixote aceitou com gratidão, e Sancho aceitou com alegria mais visível, já imaginando mesa melhor que alforje. Seguiram juntos. Enquanto andavam, o fidalgo verde observava cada palavra do cavaleiro, tentando decidir se via diante de si um sábio ferido de fantasia ou um desatinado que às vezes encontrava frases sensatas por acaso.

A conversa ainda corria quando surgiu adiante um carro com pequenas bandeiras. Dom Diego supôs que levasse dinheiro ou carga do rei, mas Dom Quixote viu sinal de aventura. Pediu a Sancho a celada, porque homem prevenido já venceu metade do perigo. O escudeiro empalideceu. Pouco antes comprara requeijões de pastores e, por falta de vasilha, pusera-os dentro do elmo do amo, esperando ocasião de tirá-los sem escândalo. A ocasião não veio. Dom Quixote exigia a peça com pressa, o carro se aproximava e Sancho, preso entre mentira pequena e ordem grande, entregou a celada como estava. O cavaleiro tomou-a sem olhar por dentro e preparou-se para vestir sobre a cabeça o primeiro aviso ridículo da aventura dos leões.

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