Capítulo 87 - Sancho pede contas Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 87 de 133
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Capítulo 87 - Sancho pede contas

Capítulo 87 - Sancho pede contas

Quando Sancho voltou plenamente a si depois do golpe recebido entre os homens do zurro, achou-se caído aos pés de Rocinante, todo dolorido e sem vontade de heroísmo. Dom Quixote apeou para examinar-lhe as feridas e, ao vê-lo inteiro, censurou a imprudência do zurro. Disse que, em casa de enforcado, ninguém menciona corda, e que, diante de gente armada por causa de uma zombaria sonora, provar talento semelhante era chamar o varapau pelo nome. Sancho respondeu com voz que parecia sair das costas. Estava farto de ver cavaleiros retirarem-se em prudência enquanto escudeiros ficavam para receber a conta.

Dom Quixote explicou que retirada não equivale a fuga. Valentia sem prudência vira temeridade, e os homens prudentes guardam-se para melhor ocasião. Sancho aceitou a doutrina com pouco entusiasmo. O que lhe doía não estava em tratados, e sim da nuca ao fim do espinhaço. O amo observou que isso se devia ao alcance do pau, que cobrira quase todas as costas. Sancho agradeceu a explicação com ironia amarga: se lhe doessem os tornozelos, talvez fosse difícil descobrir a causa; doendo justamente onde o tinham moído, nenhuma ciência alta precisava entrar na conversa. A cada aventura, dizia ele, conhecia melhor o pouco que podia esperar da companhia de Dom Quixote.

O escudeiro falou longamente. Melhor faria, confessou, se voltasse para Teresa, para os filhos, para a lavoura e para a cama, sustentando a casa com o que Deus lhe desse. Desde que servia Dom Quixote, dormira ao relento, comera queijo duro e pão seco, bebera água de fontes e riachos e pusera o corpo à disposição de mantas, pedras, paus, sustos, fome e promessas. A exceção ficava nos dias de Dom Diego, nas panelas de Camacho e na casa de Basílio; todo o resto era chão, frio e risco. Por isso queria saber quanto valia seu serviço. Se escudeiro andante sofre mais que criado de lavrador, convinha receber salário mais alto.

Dom Quixote, ouvindo o que Sancho dizia sem interrupção, ofereceu que ele mesmo calculasse a dívida. Sancho lembrou que, quando servia Tomé Carrasco, pai do bacharel, ganhava dois ducados por mês, além da comida. Com Dom Quixote, pedia dois reais a mais, por causa dos perigos, e mais seis pela promessa da ilha, que devia entrar na conta desde o primeiro dia. O cavaleiro tomou a conta ao pé da letra, perguntou havia quanto tempo prometera a ilha, e Sancho, com memória elástica de interesse, respondeu que mais de vinte anos, com três dias de diferença para cima ou para baixo. Dom Quixote bateu na testa e riu com força.

O riso virou cólera. Em suas saídas, disse ele, mal tinham passado dois meses. Se Sancho queria consumir todo o dinheiro alheio em salários inventados, podia tomá-lo e ir embora. Nenhuma história de cavalaria trazia escudeiro ajustando soldada mensal com o senhor. Mandou-o voltar para casa, chamou-o de ingrato, ameaçou deixá-lo sem ilha e lançou contra ele uma enxurrada de palavras duras. Sancho olhou fixo para o amo até que os olhos se encheram de lágrimas. Respondeu que, para ser burro completo, faltava-lhe apenas a cauda; se Dom Quixote quisesse pô-la, ele a aceitaria por bem posta e continuaria servindo como jumento todos os dias que lhe restassem.

A humildade desarmou o cavaleiro. Dom Quixote perdoou-o, pedindo emenda e coração mais largo diante da promessa. A ilha podia tardar, mas tardança não significa impossibilidade. Sancho prometeu tirar forças da própria fraqueza e seguir. Entraram numa alameda para passar a noite. Sancho se acomodou de modo penoso, porque o sereno fazia crescer a dor do varapau. Dom Quixote ficou entregue a pensamentos de Dulcineia, da cova, das promessas e da glória. Ao amanhecer, seguiram caminho para as margens do Ebro. A água do grande rio, ainda distante, já entrava no destino dos dois como nova ocasião de disparate e perigo.

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