Capítulo 20 - O corpo morto na estrada
Capítulo 20 - O corpo morto na estrada
A noite caiu sobre Dom Quixote e Sancho quando ambos ainda traziam no corpo as marcas dos rebanhos, das pedras e de tudo que a estrada lhes cobrara. O escudeiro seguia calado, coisa rara e portanto grave. O cavaleiro, com a boca ferida e a dignidade recompondo-se aos pedaços, sustentava que os exércitos haviam sido transformados em ovelhas por arte de encantadores. Sancho preferiu não discutir. A escuridão, ao menos, parecia menos inclinada a atirar pedras.
Seguiam por caminho pouco povoado quando viram, ao longe, pontos de luz movendo-se devagar. Eram tochas. Vinham acompanhadas de vozes baixas e de um rumor pesado, como se a noite carregasse consigo uma tristeza organizada. Sancho sentiu o medo subir-lhe pelas costas. Depois de tantos enganos, desconfiava de qualquer claridade que aparecesse fora de hora.
Dom Quixote, porém, endireitou-se em Rocinante. Aquilo, para ele, só podia ser nova aventura. Luzes na noite, homens cobertos, marcha silenciosa: tudo tinha o sabor dos livros. Talvez fossem malfeitores levando prisioneiro algum cavaleiro vencido; talvez encantadores transportassem corpo de herói injustamente morto; talvez a justiça pedisse, mais uma vez, a intervenção de sua lança.
Sancho pediu prudência. Disse que luzes de noite podiam ser procissão, enterro ou gente de igreja, e que seria bom deixar passar quem levava seus mortos. Dom Quixote ouviu a palavra morto e nela encontrou mais razão para agir. Se levavam um corpo sem explicar a quem, por que e para onde, cabia a um cavaleiro andante exigir contas. A morte, quando acompanhada de mistério, parecia-lhe assunto de armas.
Quando a comitiva se aproximou, distinguiram homens vestidos de luto, alguns clérigos e criados que conduziam uma liteira coberta. Vinham levando um corpo para sepultura em outra cidade. A pressa e o cansaço davam à procissão um ar sombrio. As tochas tremiam no vento, alongando sombras sobre a estrada. A cena era triste; Dom Quixote a fez perigosa.
Postou-se no meio do caminho e ordenou que parassem. Quis saber quem eram, que corpo levavam, quem o matara e se havia ali injustiça a vingar. Os homens, surpreendidos por aquele cavaleiro magro, armado e ferido, tentaram responder com cautela. Explicaram que eram religiosos e acompanhantes de um defunto, nada mais. Mas Dom Quixote, inflamado pela suspeita, entendeu hesitação como culpa.
Um dos que guiavam a procissão, irritado com a demora, mandou que saisse da frente. A ordem bastou para acender o cavaleiro. Dom Quixote arremeteu. A confusão espalhou-se pela estrada: tochas caíram, sombras correram, clérigos gritaram, criados largaram a liteira e cada um fugiu para onde a noite parecia menos ocupada por lanças. O cavaleiro derrubou um dos homens ao chão e tomou a fuga dos outros por confissão de maldade.
Sancho, que assistia àquilo com o coração apertado, aproximou-se do caido e tentou entender se ainda respirava. O homem gemia, assustado e machucado, mas vivo. Explicou entre queixas que levavam o corpo de um fidalgo morto naturalmente, e que ninguém ali era ladrão, encantador ou assassino. Sancho ouviu tudo com alivio e desespero ao mesmo tempo: alivio porque não havia crime; desespero porque, sem crime, sobrava apenas o erro.
Dom Quixote, chamado à realidade pelas palavras do ferido, não admitiu inteiramente a falha. Disse que, se aquela gente parecia suspeita, a culpa era deles por andar à noite de modo tão sinistro. Ainda assim, vendo que o homem não era inimigo, falou com certa cortesia e permitiu que a procissão recolhesse o corpo e seguisse. Os clérigos, de longe, preferiram não discutir teologia nem justiça com quem confundia enterro com sequestro.
Sancho ajudou como pôde, oferecendo palavras melhores que as circunstâncias. Depois voltou ao amo e comentou que, se continuassem assim, logo não haveria estrada na Espanha onde alguém carregasse coisa alguma sem ser interrogado por eles. Dom Quixote respondeu que esse era precisamente o serviço da cavalaria: fazer perguntas onde os covardes apenas passam.
A procissão desapareceu aos poucos, levando suas tochas trêmulas e seu morto verdadeiro. Ficaram na estrada o cavaleiro, o escudeiro e a sensação de que a noite tinha sido ferida sem necessidade. Sancho olhou para o amo, coberto de poeira e convicção, e percebeu que as aventuras não nasciam apenas do mundo; nasciam, sobretudo, do modo como Dom Quixote insistia em vê-lo.
Seguiram adiante, procurando lugar onde passar o resto da noite. Dom Quixote julgava ter desfeito um mistério; Sancho julgava ter sobrevivido a outro engano. Entre uma interpretação e outra, a estrada continuava escura, larga e paciente, como se soubesse que ainda teria muito trabalho com aqueles dois.