Capítulo 76 - A aventura dos leões Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 76 de 133
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Capítulo 76 - A aventura dos leões

Capítulo 76 - A aventura dos leões

Dom Quixote enfiou a celada na cabeça com a gravidade de quem se arma para perigo alto. No mesmo instante, os requeijões se apertaram dentro do metal e começaram a escorrer-lhe pelo rosto, pelas barbas e pelo pescoço. O cavaleiro levou a mão à face, surpreso com aquela frieza branca, e disse a Sancho que talvez os encantadores lhe estivessem derretendo os miolos ou amolecendo os ossos da cabeça. Sancho, tentando segurar o riso e o medo, deu-lhe um pano para limpar-se e agradeceu a Deus por seu amo ainda não haver descoberto o autor daquele milagre lácteo. Quando Dom Quixote tirou o elmo e cheirou o conteúdo, acusou o escudeiro de traição de cozinha. Sancho negou como pôde, dizendo que se demônios punham coisas em livros, também poderiam pôr requeijão em celadas.

A discussão acabou porque o carro já estava perto. Dom Diego viu bandeiras reais e continuou achando que se tratava de carga comum. Dom Quixote, porém, interrogou o carreteiro e soube que levavam dois leões, macho e fêmea, presenteados a Sua Majestade. O carreteiro e o tratador pediram passagem. O cavaleiro recebeu a notícia como confirmação de sua grandeza. Perguntou se leõezinhos vinham contra ele naquela hora e ordenou que abrissem as jaulas, para que aquelas feras aprendessem, em campo aberto, quem era Dom Quixote de la Mancha. Dom Diego tentou detê-lo com razão clara: leões fechados, conduzidos por ordem régia, não constituíam agravo a reparar. Aquilo era temeridade sem necessidade.

Dom Quixote mandou que Dom Diego cuidasse de sua caça mansa e deixasse a cada homem o próprio ofício. O ofício dele era enfrentar perigos, viessem de homens, gigantes ou feras. O carreteiro pediu licença para desatrelar as mulas e salvar o pouco patrimônio que possuía. O tratador declarou diante de todos que abria as jaulas contra vontade e que qualquer dano, salário ou perda ficaria por conta do cavaleiro. Sancho, chorando quase abertamente, suplicou ao amo que abandonasse a empresa. Jurava ter visto pela grade uma unha de leão verdadeiro, e por aquela unha media animal maior que montanha. Dom Quixote respondeu que o medo aumentava as coisas, mandou que se afastasse e pediu que, se morresse, Sancho fosse contar tudo a Dulcineia.

Todos fugiram para distância segura: Dom Diego na égua, Sancho no rucio, o carreteiro com as mulas. Dom Quixote ficou sozinho diante do carro. Pensou se deveria combater a cavalo ou a pé. Temendo que Rocinante se assustasse, apeou, largou a lança, tomou o escudo, desembainhou a espada e colocou-se diante da jaula, encomendando-se a Deus e a Dulcineia. O tratador abriu a porta do leão macho. A fera, grande e áspera, moveu-se devagar. Primeiro espreguiçou as patas, abriu a boca em longo bocejo, mostrou a língua, limpou os olhos com a garra e pôs a cabeça para fora. A vista bastaria para gelar qualquer homem que não estivesse aquecido por delírio e coragem.

Dom Quixote esperava o salto. O leão olhou para um lado, olhou para outro, avaliou o sol, o campo, a poeira e a figura armada à sua frente. Depois virou as costas, mostrou ao cavaleiro a parte menos heróica de sua anatomia e deitou-se outra vez dentro da jaula. Dom Quixote ordenou que o tratador o provocasse com paus, para obrigá-lo a sair. O homem recusou. Disse que a valentia do cavaleiro já estava provada: a porta fora aberta, o inimigo tivera liberdade de vir, e se preferira ficar deitado, a vergonha cabia ao leão. Dom Quixote aceitou o argumento. Mandou fechar a jaula e exigiu testemunho da façanha: ele esperara o leão, o leão não saíra, ele voltara a esperá-lo, e o animal tornara a deitar.

Com o pano ainda manchado de requeijão preso na ponta da lança, Dom Quixote fez sinais aos fugitivos. Sancho, vendo-o vivo e chamando, gritou que seu amo vencera as feras. Voltaram todos pouco a pouco. O tratador contou a cena em termos favoráveis, exagerando a ousadia do cavaleiro e atribuindo ao leão certo respeito diante de tamanho adversário. Dom Quixote mandou Sancho pagar dois escudos ao carreteiro e ao tratador pelo atraso. Depois anunciou que já não queria ser chamado Cavaleiro da Triste Figura. Dali em diante tomaria nome mais conforme ao feito: Cavaleiro dos Leões. Sancho achou o título sonoro, embora preferisse que o preço da glória fosse pago por outro bolso.

O carro seguiu seu caminho, e Dom Quixote, Sancho e Dom Diego retomaram o deles. O fidalgo verde ficou calado por longo trecho, observando o homem que acabara de pôr a vida diante de uma jaula aberta por motivo nenhum e, logo depois, falava com compostura sobre honra, testemunho e nome. Parecia-lhe ver um louco que puxava para o juízo e um homem discreto que corria para a loucura. Dom Quixote leu essa hesitação no rosto do companheiro. Disse-lhe que sabia muito bem o que suas obras podiam parecer, porém um cavaleiro não mede o valor dos feitos pela opinião dos prudentes. Há momentos em que a coragem deve ficar de pé sozinha, para que o mundo se lembre de que ainda existem homens capazes de esperar um leão.

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