Capítulo 102 - Os segundos conselhos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 102 de 133
Obra Menu

Capítulo 102 - Os segundos conselhos

Capítulo 102 - Os segundos conselhos

Quem ouvisse os conselhos que Dom Quixote dera a Sancho dificilmente deixaria de tomá-lo por homem ajuizado e bem-intencionado. A loucura saltava-lhe quando se tocava na cavalaria; fora disso, seu entendimento corria claro e solto, de modo que as obras desacreditavam o juízo e o juízo desacreditava as obras. Sancho escutava com grande atenção, procurando guardar na memória cada aviso, pois esperava parir bem a gravidez de seu governo. Dom Quixote, vendo-o aplicado, continuou a instrução, descendo agora das regras da alma para as do corpo, da casa e do trato cotidiano.

Primeiro mandou que fosse limpo e cortasse as unhas, sem deixá-las crescer como garras de ave, abuso que alguns confundem com sinal de nobreza. Depois aconselhou que andasse bem cingido e composto, porque roupa frouxa dá notícia de ânimo descuidado. Se o ofício permitisse dar libré aos criados, fosse honesta e útil, repartindo o gasto entre servidores e pobres, para ter criados no céu e no chão. Proibiu alho e cebola, para que o cheiro não denunciasse rusticidade; pediu passo vagaroso, fala repousada, pouca comida, ceia menor ainda, temperança no vinho, boca sem mastigar de dois lados e respeito diante dos outros quando viesse vontade de soltar ar do estômago.

Sancho não entendeu o termo mais elegante que o amo usou para esse último costume. Dom Quixote explicou que a palavra fina enriquecia a língua e poupava ouvidos delicados. Sancho prometeu adotá-la, embora confessasse cair muitas vezes no vício antigo. Em seguida veio a grande batalha dos refrãos. Dom Quixote advertiu que eles são sentenças breves quando aparecem no ponto certo, porém, trazidos pelos cabelos, rebaixam a conversa. Sancho respondeu que sabia mais refrãos que um livro e que eles brigavam à porta da boca, querendo sair todos juntos. No mesmo fôlego, soltou vários, provando o mal que prometia corrigir.

Dom Quixote repreendeu-o com impaciência. Dizia para evitar refrãos, e Sancho os enfiava como contas de rosário. Ainda assim prosseguiu: ao montar, não deveria pender sobre a traseira da sela nem esticar as pernas como quem vai no rucio; o sono seria moderado, pois a diligência é mãe da boa ventura; jamais deveria disputar linhagens, porque quem compara famílias desagrada ao rebaixado e nada ganha com o exaltado; por fim, o traje de governador deveria ser grave, com calça inteira, ropão comprido e capa honesta, sem calções largos de aparato, impróprios para cavaleiros e governadores.

Sancho reconheceu que tudo era bom, santo e proveitoso, mas perguntou de que serviria se nada lhe ficava na cabeça. O corte das unhas e a possibilidade de casar de novo, caso a vida desse ocasião, talvez se conservassem no miolo; o resto passaria como nuvem velha. Pediu que os conselhos fossem dados por escrito, para entregá-los ao confessor, que os leria quando necessário. Dom Quixote lamentou que um governador não soubesse ler nem escrever e pediu ao menos que aprendesse a assinar. Sancho respondeu que já fazia certas letras grandes, aprendidas quando fora prioste, e que, se precisasse, fingiria mão direita aleijada para outro firmar por ele. Com mando e vara, acreditava, quase tudo se remedeia.

A segurança trouxe nova enxurrada de ditos. Sancho declarou que ninguém o enganaria, que rico passa por sábio, que quem se faz de mel é comido por moscas e que tanto vale o homem quanto tem. Dom Quixote, vencido pela torrente, amaldiçoou refrãos e refraneiro, dizendo que um dia aquilo lhe tiraria o governo ou o levaria à forca. Sancho defendeu sua única fazenda: se não possuía letras, possuía refrãos. Disse ainda que tinha quatro perfeitamente ajustados ao caso, embora prometesse calar por prudência; mal terminou a promessa, revelou todos, comparando governador a moinho, cântaro, pedra e casa alheia. Dom Quixote corrigiu o desarranjo com tristeza e concluiu que, se Sancho governasse mal, a culpa seria do escudeiro e a vergonha, do amo.

Sancho então ofereceu soltar o cargo ali mesmo se Dom Quixote o julgasse incapaz. Preferia um mínimo de salvação da alma a todo o corpo com título; viveria Sancho simples, com pão e cebola, melhor que governador com perdizes e capões, se o ofício o levasse ao inferno. Ao ouvir isso, Dom Quixote mudou de tom. Por aquelas últimas razões, julgava que Sancho merecia governar mil ilhas. Havia nele bom natural, sem o qual ciência nenhuma presta. Bastava encomendar-se a Deus e manter intenção firme de acertar em todos os negócios, porque o céu favorece os bons desejos. Encerrados os avisos, foram comer, pois os duques já deviam estar esperando.

1/1
Menu

Fazer anotação