Capítulo 110 - As constituições de Sancho
Capítulo 110 - As constituições de Sancho
Amanheceu depois da ronda, e o mestre-sala passou a noite sem dormir, preso à lembrança da jovem disfarçada. O mordomo, por sua vez, escreveu ao duque e à duquesa relatando palavras e ações de Sancho, admirado de ver tanta mistura de tino e simplicidade. O governador levantou-se e, por ordem do doutor Pedro Recio, recebeu como desjejum um pouco de conserva e quatro tragos de água fria. Teria trocado tudo por pão e uvas, mas aceitou a dieta à força, enquanto o médico lhe explicava que comidas poucas e delicadas avivam o engenho, qualidade essencial a quem manda. Com essa sofística, Sancho foi para a audiência com fome nova e paciência velha.
O primeiro caso veio de um forasteiro. Contou que um rio separava dois termos de um mesmo senhorio, e sobre ele havia uma ponte com forca ao final e casa de audiência. Quatro juízes aplicavam uma lei estranha: quem passasse pela ponte deveria jurar aonde ia e para quê. Se dissesse verdade, passaria livre; se mentisse, morreria na forca. Um homem jurou que ia morrer naquela mesma forca. Os juízes ficaram suspensos. Se o deixassem passar, ele teria mentido e deveria morrer; se o enforcassem, teria dito verdade e deveria passar livre. O mensageiro pedia a sentença do governador, pois os juízes tinham ouvido fama de seu entendimento.
Sancho mandou repetir o caso até entendê-lo e primeiro propôs dividir o homem: a parte que dissera verdade passaria, a parte que mentira seria enforcada. O forasteiro respondeu que dividir o homem o mataria inteiro, frustrando a lei. Sancho então achou melhor caminho. Se havia igual razão para condenar e absolver, que o deixassem passar, pois é mais louvável fazer bem que mal quando a justiça está em dúvida. Lembrou-se de um conselho de Dom Quixote: em caso duvidoso, inclinar-se à misericórdia. O mordomo louvou a sentença como se Licurgo não pudesse dar melhor. Sancho pediu comida de verdade, prometendo despachar outras dúvidas no ar se lhe dessem sustento.
Naquele dia, contra as regras do doutor Tirteafuera, Sancho comeu. Ao levantar da mesa, chegou carta de Dom Quixote. O secretário leu primeiro em silêncio e depois em voz alta, julgando-a digna de letras de ouro. O cavaleiro dizia esperar notícias de descuidos e ouvir notícias de discrição, dando graças ao céu que levanta pobres do esterco e faz discretos de tolos. Recomendava ao governador vestir-se de acordo com o cargo, limpo e composto, pois até um pau enfeitado parece outra coisa. Para conquistar o povo, deveria ser bem-criado com todos e cuidar da abundância de mantimentos, já que nada aflige tanto os pobres quanto fome e carestia.
Dom Quixote aconselhava poucas leis, boas e cumpridas, pois mandamentos que assustam e não se executam acabam desprezados como rei inútil das rãs. Sancho deveria ser pai das virtudes e padrasto dos vícios, sem rigor constante nem brandura excessiva. Visitasse cárceres, açougues e praças: a presença do governador consola presos, intimida carniceiros no peso e vigia vendedoras no preço. Não se mostrasse cobiçoso, mulherengo nem glutão, porque o povo ataca cada governante pelo ponto conhecido de sua inclinação. Repassasse os conselhos recebidos antes da partida, escrevesse aos duques com gratidão e avisasse se o mordomo tinha relação com a Trifaldi. Contava ainda que a duquesa enviara presentes a Teresa e que ele, Dom Quixote, sofrera pequeno mal de gatos, mas nada sério. Por fim, mencionava negócio capaz de desagradá-lo aos duques, embora a verdade devesse prevalecer sobre a conveniência.
Sancho ouviu com atenção e retirou-se com o secretário para responder. Disse que andava tão ocupado que não tinha tempo de coçar a cabeça nem cortar as unhas, as quais cresciam sem governo. Tinha mais fome ali que nas selvas com Dom Quixote. O duque avisara sobre espiões que queriam matá-lo, mas até então só encontrara um: o doutor Pedro Recio, pago para matar governadores por dieta. Esse médico prevenia doenças deixando a pessoa nos ossos, como se fraqueza fosse menor mal que febre. Sancho pensara vir ao governo para comer quente, beber frio e dormir em lençóis finos; achava-se em penitência de ermitão, e como não a fazia por vontade própria, temia que acabasse mal.
A carta continuou com notícias do governo. Até então não tocara direito nem aceitara suborno, embora lhe dissessem que governadores costumam receber ou tomar dinheiro logo ao chegar. Na ronda encontrara uma moça vestida de homem e o irmão vestido de mulher; o mestre-sala se enamorara dela, e Sancho escolhera o rapaz, em pensamento, para genro. Visitara praças e achara uma vendedora misturando avelãs novas com velhas e ruins; destinara tudo aos meninos da doutrina e proibira a mulher de vender por quinze dias. Agradecia os presentes enviados a Teresa, pedia que Dom Quixote pagasse o porte se chegasse carta da mulher e confessava não saber o que mandar ao amo, talvez alguns canudos curiosos feitos na ilha. Encerrava pedindo que Deus livrasse Dom Quixote de encantadores e a ele próprio daquele governo, do qual duvidava sair inteiro se Pedro Recio continuasse perto.
O secretário fechou a carta e despachou o correio. Os burladores, reunidos, começaram a preparar a última peça que tiraria Sancho do governo. Naquela tarde, porém, ele ainda fez ordenanças tão boas que ficaram lembradas no lugar como constituições do grande governador Sancho Pança. Proibiu acaparadores de mantimentos, permitiu entrada de vinhos de qualquer parte desde que declarassem a origem e fossem vendidos conforme qualidade e fama, condenando severamente quem os aguasse ou mudasse o nome. Moderou preços de calçados, pôs taxa nos salários dos criados, puniu cantos lascivos e descompostos, exigiu prova autêntica para cegos que cantassem milagres em coplas e criou alguacil dos pobres, não para persegui-los, mas para separar necessidade verdadeira de fingimento. Assim, entre fome, senso prático e alguma luz inesperada, Baratária ganhou leis melhores que muitos governos de verdade.