Capítulo 90 - Honras no palácio dos duques Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 90 de 133
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Capítulo 90 - Honras no palácio dos duques

Capítulo 90 - Honras no palácio dos duques

Sancho entrou no domínio dos duques com alegria quase doméstica. A amizade repentina da duquesa fazia-o esperar mesa, cama, cozinha e regalo semelhantes aos que encontrara na casa de Dom Diego e nos dias de Basílio, sem esquecer as panelas inesgotáveis de Camacho. O duque, que se adiantara para instruir criados e criadas, ordenou que Dom Quixote fosse recebido exatamente como cavaleiro andante de livro antigo. Quando o cavaleiro chegou ao pátio, lacaios vestidos com riqueza cerimoniosa o ajudaram a apear, donzelas lançaram-lhe sobre os ombros um mantão de escarlata, e vozes de servidores saudaram a flor dos cavaleiros andantes com pompas que encheram a casa de perfume, risos contidos e reverências.

Aquela foi, para Dom Quixote, uma hora decisiva. Muitos o tinham escarnecido, muitos o tinham ferido, muitos o tinham trazido de volta à aldeia como doente ou encantado; ali, pela primeira vez, tudo ao redor parecia confirmar a verdade de seus livros. Criados nos corredores, águas olorosas, senhoras principais, vestes ricas, aparato de recepção e o cuidado de cada gesto formavam diante dele uma prova visível de que a cavalaria ainda tinha lugar no mundo. Não percebeu que a honra era armadilha cortês. Recebeu tudo com humildade grave, como se o palácio dos duques apenas restituísse ao cavaleiro o tratamento devido desde sempre.

Sancho, mais preso ao rucio que à etiqueta, logo se apartou da solenidade para procurar quem cuidasse do animal. Aproximou-se de uma dueña chamada doña Rodríguez de Grijalba e pediu que mandasse pôr o jumento na cavalariça, pois o pobre não se acostumava a ficar só. A dueña recebeu o pedido como ofensa, dizendo que mulheres de sua posição não tinham ofício de tratadoras de asnos. Sancho defendeu-se com lembrança de velhas histórias de cavalaria, onde damas serviam cavaleiros e dueñas cuidavam de montarias. O argumento piorou tudo. A criada tomou-o por zombador, Sancho respondeu com ponta de graça sobre idade e fruta madura, e a discussão subiu de tom até chegar aos ouvidos da duquesa.

A duquesa interveio, contendo o riso. Disse a Sancho que doña Rodríguez era moça e trazia toucas por autoridade, não por velhice. Sancho jurou que falara apenas por confiança na caridade dela e pelo muito amor que tinha ao rucio. Dom Quixote, ouvindo a cena, repreendeu o escudeiro. Aquele não era lugar para conversas de asno. Sancho respondeu que cada um fala de sua necessidade onde ela aparece, e que, se tivesse lembrado o rucio na cavalariça, lá teria falado dele. O duque, divertindo-se com o embaraço, tomou o partido de Sancho e garantiu que o jumento receberia cuidado como se fosse pessoa de importância.

Dentro do palácio, seis donzelas desarmaram Dom Quixote em sala rica de ouro e brocado. Todas estavam prevenidas para tratá-lo com solenidade e esconder o riso diante de sua magreza, de suas roupas apertadas e da figura comprida que ficava sob as armas. Quiseram trocar-lhe a camisa, mas ele recusou, dizendo que a honestidade ficava tão bem em cavaleiro quanto a valentia. Sozinho com Sancho por um momento, censurou-o com severidade. Pediu que medisse a língua, que não revelasse grossura de origem e que lembrasse como a honra do senhor cresce ou cai pelo comportamento do criado. Sancho prometeu morder a língua antes de falar coisa fora de propósito.

Vestido de novo, Dom Quixote foi conduzido à mesa dos duques com cerimônia ainda maior. Sentaram-no à cabeceira, apesar de suas recusas, e diante dele ficou um eclesiástico grave, desses que governam casas de senhores e confundem economia de alma com estreiteza de trato. Sancho, admirado com tanta honra, pediu licença para contar um caso de assentos ocorrido em sua aldeia. Dom Quixote sentiu o perigo de imediato, mas a duquesa, desejosa de ouvir o escudeiro, defendeu-o. Sancho começou por genealogias, nomes de lugares, parentes, mortos em naufrágio e feridos antigos, até que o eclesiástico perdeu a paciência e pediu que chegasse ao ponto antes de enterrar metade da comarca no relato.

O caso enfim saiu. Um hidalgo convidara um lavrador para comer e ambos disputavam quem tomaria o melhor lugar à mesa. O lavrador recusava por cortesia, o hidalgo insistia por autoridade de dono da casa, até que, cansado, pôs as mãos nos ombros do convidado, sentou-o à força e disse que, onde quer que ele próprio se sentasse, ali estaria a cabeceira do lavrador. Os duques disfarçaram a graça. Dom Quixote mudou de cor, entendendo que a história tocava justamente a cerimônia que acabava de receber. A duquesa desviou o assunto para Dulcineia. Sancho, imprudente e vivo, confirmou tê-la visto encantada. O eclesiástico, ouvindo gigantes, encantos, malandrins e Dulcineia, reconheceu o protagonista do livro que tanto censurava e explodiu contra o duque e contra o cavaleiro, chamando aquela recepção de estímulo a loucuras que deviam ser curadas em casa.

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