Capítulo 46 - As mensagens de Zoraida Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 46 de 133
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Capítulo 46 - As mensagens de Zoraida

Capítulo 46 - As mensagens de Zoraida

O cativo retomou seu relato quando a venda voltou a escutar. Disse que, em Argel, a esperança costuma vir disfarçada para não ser morta cedo demais. No começo, os sinais de Zoraida pareciam acaso: um pano que se movia em janela alta, uma sombra que esperava quando ele passava, um movimento interrompido antes que alguém pudesse notar. A repetição ensinou-lhe que havia ali intenção.

Um dia, desceu da janela uma cana fina, presa a um lenço. Dentro do lenço havia moedas e um pequeno bilhete. O cativo, espantado, escondeu tudo antes que os guardas percebessem. Não sabia ler a língua em que o bilhete vinha escrito; conhecia, porém, outro cativo capaz de traduzi-lo. Foi assim que ouviu pela primeira vez a vontade secreta de Zoraida.

Ela dizia que desejava ser cristã. Falava de uma mulher chamada Lela Mariem, nome pelo qual conhecera a Virgem Maria, e de uma fé que lhe entrara por relatos antigos, talvez por criada cristã, talvez por imagens e palavras guardadas no coração. Dizia também que queria fugir para terra de cristãos, levando consigo o que pudesse salvar de sua casa. Pedia ajuda, prometia riqueza para comprar liberdade e barco, e rogava discrição absoluta.

Na venda, o cura inclinou-se com mais atenção. Zoraida ouviu o próprio passado ser contado e manteve as mãos unidas. Doroteia e Lucinda a olhavam com respeito novo. Ela estava ali como autora do risco. Sua fuga começara nela, em sua escolha reservada contra o destino que lhe fora preparado.

O cativo confessou que, no primeiro momento, temeu armadilha. Em cativeiro, a esperança pode ser instrumento de tortura. Uma carta, moedas, promessa de fuga: tudo podia ser teste para descobrir planos entre prisioneiros. Os sinais continuaram, e com eles vieram joias de valor maior, palavras mais claras e uma insistência que parecia nascer de fé e desespero.

Ele respondeu como pôde. Com ajuda de intérprete confiável, enviou mensagem dizendo que aceitava ajudar, mas que a empresa exigia tempo. Era preciso comprar ou alugar embarcação, combinar homens, subornar guardas e criados, escolher noite segura, evitar olhos do pai de Zoraida e dos servidores da casa. Cada passo podia custar a vida de todos.

Zoraida não recuou. Mandou mais dinheiro. Mandou dizer que seu pai possuía riquezas; para alcançar terra cristã, levaria apenas o necessário. O cativo percebeu que a decisão dela era mais firme que a dele. Ele queria liberdade porque a perdera. Ela queria outra vida porque a imaginara sem nunca tê-la possuído. Havia nisso coragem diferente.

Dom Quixote aprovou em voz baixa a determinação da dama, julgando-a quase princesa encantada em torre mourisca. Sancho perguntou se as joias bastariam para comprar também uma ilha pequena. O barbeiro deu-lhe uma cotovelada discreta. O cativo, habituado a perguntas estranhas desde que entrara na venda, continuou.

O plano começou a ganhar forma. Primeiro seria preciso resgatar o próprio cativo, ou ao menos dar-lhe liberdade de movimento bastante para preparar a fuga. Depois, aliciar alguns companheiros de confiança. Em seguida, garantir uma barca e homens que soubessem manejá-la. Por fim, retirar Zoraida de sua casa sem que o pai percebesse até ser tarde demais. Nenhum desses passos era simples.

O pai de Zoraida apareceu no relato como figura de peso. Rico, amoroso à sua maneira, poderoso dentro de sua casa, jamais imaginária que a filha desejava abandonar fé, língua e sangue para seguir cativos cristãos ao mar. O cativo falou dele sem ódio. Isso tornou a história mais dolorosa. A fuga de Zoraida libertava uns e rasgava o mundo de outro. A vida humana raramente distribui luz de um lado só.

Zoraida ouviu essa parte com olhos baixos. Talvez visse outra vez o rosto do pai. Doroteia apertou-lhe a mão. A venda entendeu, ainda que sem dizer: escolher um destino pode exigir ferir alguém que se ama, porque certas paredes protegem e prendem na mesma medida.

As mensagens continuaram. Zoraida pedia pressa. O cativo pedia prudência. Ela enviava joias escondidas em panos; ele as convertia em possibilidades. Falavam por sinais, por tradutores, por objetos descidos da janela. Cada coisa pequena carregava risco enorme. Um papel caído em mãos erradas bastaria para transformar esperança em castigo.

O cativo contou também que outros prisioneiros começaram a saber parte do plano. Não todos, pois segredo dividido demais deixa de ser segredo. Escolheu homens capazes de remar, calar e enfrentar a noite. Alguns aceitaram por desejo de liberdade; outros, pelo dinheiro de Zoraida; outros, por aquela mistura de fé e desespero que faz pessoas comuns assumirem empresas impossíveis.

O cura perguntou se Zoraida compreendia plenamente o que deixava. O cativo respondeu que compreendia o perigo, a ruptura, a distância. O exílio, porém, só se conhece por inteiro depois que começa. Ela conhecia a promessa de uma fé e de uma liberdade; o preço completo viria pelo caminho. Mesmo assim, escolheu.

A noite da venda parecia mais funda enquanto ele falava. Dom Quixote via torre, dama e resgate. Sancho via mar, dinheiro e perigos pouco comestíveis. Doroteia via uma mulher agindo sob nome próprio. Lucinda via a coragem triste de cruzar mundo por amor e crença. O cativo via, talvez, a janela de Argel de onde sua liberdade começara a descer em forma de bilhete.

Ele encerrou aquele trecho dizendo que o plano estava quase pronto, mas que nenhuma fuga existe de verdade até o momento de fugir. Tinham dinheiro, sinais, cúmplices e desejo. Faltava a noite certa, a barca certa, o instante em que Zoraida deixaria de ser filha protegida em casa moura para tornar-se viajante sem retorno. Essa parte, prometeu, contaria em seguida.

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