Capítulo 21 - O Cavaleiro da Triste Figura
Capítulo 21 - O Cavaleiro da Triste Figura
Depois da procissão fúnebre, Dom Quixote e Sancho seguiram pela noite com menos luz do que cansaço. O cavaleiro estava ferido, sem alguns dentes, coberto de poeira e ainda convencido de que havia enfrentado uma grave injustiça. Sancho, que vira clérigos assustados, um homem derrubado e nenhum crime verdadeiro, guardava uma prudência amarga. Tinha aprendido que a escuridão não precisava esconder monstros; bastava esconder pessoas comuns para que o amo as transformasse em aventura.
Procuraram lugar onde passar o resto da noite. Não havia venda, choça nem abrigo. A estrada parecia estender-se sem promessa, e a fome começava a falar mais alto que a glória. Sancho olhou para Dom Quixote à luz fraca que ainda restava e reparou no estado do amo: rosto comprido, mandíbula dolorida, olhos fundos, corpo vencido por pancadas e, ainda assim, uma solenidade que sobrevivia ao ridículo.
Foi então que, meio por compaixão, meio por graça, Sancho disse que seu senhor bem poderia chamar-se dali em diante o Cavaleiro da Triste Figura. O nome saiu simples, mas acertou como coisa destinada. Dom Quixote recebeu-o com atenção. Nos livros que amava, cavaleiros costumavam ganhar nomes por façanhas, sinais ou mistérios. Se a figura que agora apresentava era triste, isso não diminuía sua grandeza; ao contrário, podia torná-la mais memorável.
Sancho explicou que não falava de mistério nenhum. Falava do rosto do amo, que depois de pedradas, fome, cansaço e dentes perdidos parecia o retrato da própria tristeza montada em cavalo magro. Dom Quixote ouviu a descrição e a transformou em brasão. Disse que aceitaria o título, pois talvez algum sábio já o houvesse preparado para ele. A tristeza, vista pela cavalaria, podia ser nobre quando nascia do sofrimento por justiça.
Sancho não insistiu. Sabia que uma piada, dentro da cabeça do amo, podia virar cerimônia. Ainda assim, sentiu algum orgulho secreto por ter batizado o cavaleiro. Se um dia a ilha chegasse, talvez pudesse dizer que também dera nome a uma fama. Por enquanto, porém, só tinha sono, medo e o corpo inteiro pedindo chão macio.
A noite avançou. Andavam procurando água quando ouviram, ao longe, um ruído pesado e repetido. Era um bater fundo, compassado, que parecia vir de dentro da terra. Entre uma batida e outra, havia o som de água correndo. A escuridão aumentava tudo: o rumor, a distância, a imaginação. Sancho parou primeiro. Dom Quixote parou em seguida, mas não por medo; por expectativa.
O cavaleiro disse que aquela era uma das maiores aventuras que o destino lhe oferecera. Um som tão medonho, em hora tão fechada, não podia vir de coisa pequena. Talvez gigantes trabalhassem máquinas infernais. Talvez algum castelo encantado escondesse prisioneiros. Talvez uma força desconhecida pedisse socorro em linguagem de golpes. Sua voz ganhou firmeza, como sempre acontecia quando o perigo ainda era vago.
Sancho, que preferia perigos com nome e tamanho conhecidos, pediu que esperassem o dia. Argumentou que até os valentes enxergam melhor de manhã, e que não havia vergonha em deixar monstros noturnos descansarem até o sol nascer. Dom Quixote recusou. Disse que cavaleiro andante não escolhe hora para socorrer o mundo. Se a aventura chamava de noite, de noite seria respondida.
O ruído voltou, mais forte, ou assim pareceu a Sancho. O escudeiro sentiu o coração bater no mesmo compasso daquilo. Tentou lembrar ao amo todos os acontecimentos recentes: a venda, a manta, os rebanhos, as pedras, a procissão. Talvez, sugeriu, fosse prudente admitir que o mundo ultimamente não vinha confirmando as interpretações cavaleirescas. Dom Quixote respondeu que justamente por isso era preciso perseverar. As grandes histórias provam o herói quando tudo parece negar-lhe razão.
Sancho desceu do asno com um plano humilde e desesperado. Se não podia convencer o amo, talvez pudesse atrasá-lo. Aproximou-se de Rocinante e, fingindo arrumar-lhe os arreios, prendeu discretamente as patas do cavalo para que não pudesse avançar com facilidade. Era uma estratégia pouco gloriosa, mas Sancho já não tinha compromisso com a glória. Tinha compromisso com chegar vivo ao amanhecer.
Dom Quixote, sem perceber a manobra, preparou-se para enfrentar o desconhecido. Falou a Sancho com gravidade, recomendando-lhe que, se morresse naquela empresa, levasse notícias de sua coragem a Dulcineia del Toboso. Sancho respondeu com voz apertada que preferia levar o próprio amo vivo a qualquer parte, inclusive a Toboso, se isso evitasse aquele barulho.
Assim ficaram: o Cavaleiro da Triste Figura diante da noite, pronto para transformar ruído em destino; e Sancho, fiel e assustado, segurando a aventura com um nó nas patas de Rocinante. Ao longe, os golpes continuavam. A água corria. A escuridão guardava seu segredo até o amanhecer.