Capítulo 19 - Os rebanhos e os exércitos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 19 de 133
Obra Menu

Capítulo 19 - Os rebanhos e os exércitos

Capítulo 19 - Os rebanhos e os exércitos

Depois de deixarem a venda para trás, Dom Quixote e Sancho seguiram por uma estrada larga, ainda doloridos das aventuras recentes. O cavaleiro ia recompondo a grandeza dos acontecimentos dentro da cabeça; o escudeiro ia recompondo, com menos sucesso, as partes do corpo. A cada passo do asno, Sancho lembrava a manta, a conta, o bálsamo e todas as formas pelas quais uma promessa de ilha podia cobrar juros.

O dia estava seco, e ao longe começou a erguer-se uma nuvem de poeira. De um lado da estrada vinha um rebanho grande; de outro, mais distante, vinha outro. Os animais ainda não se viam bem, mas o rumor dos sinos, dos passos e dos pastores misturava-se no ar. Para Sancho, era barulho de ovelhas. Para Dom Quixote, era o chamado de uma história inteira.

O cavaleiro parou Rocinante e levantou-se nos estribos. Seus olhos, treinados pelos livros e pelas pancadas, viram na poeira dois exércitos que se aproximavam para combate. Começou então a nomear reis, principes, gigantes, cavaleiros de fama antiga e senhores de terras impossíveis. Dava a cada nuvem seu estandarte, a cada balido uma trombeta, a cada pastor uma linhagem guerreira. A estrada, simples havia pouco, tornou-se campo de batalha.

Sancho apertou os olhos. Viu lã, chifres, patas e pastores. Não viu reis. Disse ao amo, com a cautela de quem fala com tempestade, que aquilo eram rebanhos, não exércitos. Dom Quixote respondeu que o medo diminuía as coisas aos olhos dos homens baixos. O que Sancho tomava por ovelhas eram tropas encantadas, talvez disfarçadas por algum mago inimigo para roubar ao cavaleiro a glória do combate.

Sancho insistiu. Falou dos balidos, da poeira rasteira, dos cães correndo nas laterais. Dom Quixote, porém, já separava aliados e adversarios. Escolheu defender um dos exércitos imaginados contra o outro, como convinha a quem nunca deixava a justiça sem partido. Baixou a lança, ajeitou-se em Rocinante e anunciou que entraria na batalha para dar vitória aos que tinham direito.

Antes que Sancho pudesse agarrar-lhe a rédea, Dom Quixote lançou-se contra o rebanho. Entrou entre as ovelhas com brados heroicos, golpeando o ar, empurrando animais, espalhando pânico. As ovelhas correram para todos os lados; os cães ladraram; os pastores, vendo o homem armado atacar seu sustento, gritaram primeiro e depois tomaram pedras.

A primeira pedra passou perto. A segunda acertou com precisão menos literária que mineral. Outras vieram em seguida, duras, rápidas, justas na mira. Dom Quixote ainda tentou chamar os inimigos pelo nome de capitães inventados, mas uma pedrada no corpo e outra no rosto interromperam a enumeração. Rocinante cambaleou. O cavaleiro caiu entre poeira, lã e derrota.

Sancho correu até ele, dividido entre o susto e a antiga vontade de dizer que avisara. Achou o amo no chão, ensanguentado, com dentes a menos e explicações a mais. Os pastores, satisfeitos por expulsar o agressor de suas ovelhas, recolheram o rebanho e seguiram adiante, ainda resmungando contra loucos armados que confundiam criação com guerra.

Dom Quixote, quando recuperou a fala, afirmou que o sábio inimigo voltara a transformar exércitos em rebanhos no exato momento em que Sancho olhava. A derrota, portanto, confirmava o encantamento em vez de desmentir a aventura. Sancho respirou fundo. Disse que, se os encantadores transformavam exércitos em ovelhas, tinham também o mau costume de deixar as pedras bem verdadeiras.

O cavaleiro pediu a Sancho que examinasse seus dentes. O escudeiro obedeceu com cuidado e encontrou a boca do amo tão maltratada quanto o resto da jornada. Dom Quixote suportou a notícia com uma mistura de nobreza e gemido. Disse que todo cavaleiro devia perder sangue, dentes e conforto em nome da fama. Sancho respondeu que, se a fama aceitasse dentes alheios, talvez fosse melhor enviar-lhe os dos encantadores.

Sentaram-se à beira do caminho. Dom Quixote bebeu o que restava para aliviar a boca; Sancho, mais prudente depois do bálsamo, evitou qualquer liquido de origem duvidosa. A poeira baixava devagar, revelando a estrada comum que sempre estivera ali. Mas para Dom Quixote a estrada comum era apenas uma cortina. Atrás dela, insistia ele, o mundo verdadeiro ainda era feito de batalhas, gigantes e inimigos secretos.

Sancho olhou para o horizonte, onde os rebanhos já se afastavam como manchas claras. Pensou que talvez a maior magia do amo fosse essa: apanhar do mundo e ainda sair convencido de que o mundo é que tinha sido disfarçado. E, apesar de tudo, ajudou-o a levantar. Porque entre ver o absurdo e abandonar o companheiro havia uma distância que Sancho, mesmo cansado, ainda não se permitia vencer.

1/1
Menu

Fazer anotação