Capítulo 53 - A Santa Hermandad Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 53 de 133
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Capítulo 53 - A Santa Hermandad

Capítulo 53 - A Santa Hermandad

A paz comprada no caso do elmo durou pouco. Ainda havia risos soltos pela venda, alguns à custa do barbeiro, outros à custa de Sancho e de seu perigoso baciyelmo, quando novos homens entraram com o ar de quem não vinha pedir pouso, mas impor ordem. Eram quadrilheiros da Santa Hermandad, acostumados a seguir rastros de delitos pelas estradas e a tratar barulho como sinal de culpa. A venda, que já parecia tribunal, ganhou de súbito aparência de cadeia.

O vendeiro recebeu-os com a pressa respeitosa de quem sabe que certas autoridades trazem mais despesa que lucro. Os quadrilheiros perguntaram por homens armados, tumultos recentes e queixas de estrada. Bastava olhar em volta para encontrar matéria de sobra: um cavaleiro coberto de certezas, um escudeiro inquieto, um barbeiro reclamando bacia, outro tentando esconder o rosto, criados de Dom Luís ainda contrariados, Fernando e o ouvidor em conversas graves, além de todos os que pareciam ter alguma ferida antiga a defender.

Um dos quadrilheiros reconheceu Dom Quixote pelo relato dos galeotes. Havia ordem circulando contra quem libertara presos destinados às galés, afrontando a justiça do rei. O nome de Gines de Pasamonte apareceu como pedra jogada no meio da sala. Sancho sentiu o estômago afundar. Já aprendera que a liberdade dada por seu amo trouxera pedradas, fuga e agora papel de autoridade. Dom Quixote, porém, ouviu a acusação com altivez. Para ele, libertar oprimidos cabia à obrigação de cavaleiro, longe de qualquer crime.

Os quadrilheiros quiseram prendê-lo. A venda inteira se moveu ao mesmo tempo. Sancho protestou que prender Dom Quixote era como prender o vento, embora no íntimo achasse que talvez o vento merecesse uma tarde de descanso. O cura interveio com urgência. Fernando aproximou-se, usando a autoridade do nascimento e a força de quem acabava de recompor a própria honra. O ouvidor, homem de lei, pediu que se lesse a acusação com calma e que não se confundisse loucura com rebelião consciente.

Dom Quixote não ajudava. Declarou que a Santa Hermandad não tinha jurisdição sobre cavaleiros andantes, cuja lei vinha de mais alto tribunal: a defesa dos fracos, das donzelas, dos cativos e dos injustiçados. Disse ainda que, se aqueles homens insistissem em chamá-lo criminoso, provaria pela lança a diferença entre justiça viva e papel morto. A mão foi à espada, e por um instante a venda prendeu a respiração. O caso da bacia parecia brincadeira perto daquele perigo.

O cura viu que a força direta seria desastrosa. Se Dom Quixote lutasse contra quadrilheiros, a fantasia deixaria de ser incômodo doméstico e viraria ferida pública. Era preciso tirá-lo dali sem fazê-lo acreditar que se rendia. O barbeiro seu amigo entendeu o pensamento antes que fosse dito. Os dois trocaram um olhar: já não bastava fingir princesa, gigante ou encantamento passageiro. Seria necessário construir um encantamento maior, capaz de levar o cavaleiro para casa preso por sua própria imaginação.

Enquanto isso, os quadrilheiros discutiam com Fernando e o ouvidor. O barbeiro da bacia insistia que, já que havia lei presente, também queria justiça para seus bens. O vendeiro lembrava contas antigas. Os criados de Dom Luís pediam que sua causa não fosse esquecida. Sancho olhava de um lado para outro, percebendo que cada problema puxava outro, como se a venda fosse novelo de desgraças. Dom Quixote chamava tudo aquilo de conspiração de encantadores, e talvez, naquele momento, a explicação não fosse a pior disponível.

O ouvidor examinou a ordem contra Dom Quixote e percebeu o embaraço. A letra da lei falava de libertação de condenados; os fatos, porém, passavam por uma mente incapaz de medir o mundo comum. Fernando garantiu aos quadrilheiros que se responsabilizaria pela paz imediata, se eles aceitassem adiar qualquer violência. O cura acrescentou que o cavaleiro estava mais doente de livros que de maldade, e que conduzi-lo à força comum apenas produziria nova desordem. Era melhor entregá-lo aos cuidados de quem o conhecia.

Dom Quixote recusou a palavra doente assim que a ouviu. Doente era o século, disse ele, que esquecia a cavalaria; doentes eram os que confundiam covardia com prudência. Doroteia, ainda capaz de vestir Micomicona quando necessário, falou-lhe com doçura: pediu que reservasse sua ira para o gigante de seu reino e não desperdiçasse braço contra ministros menores de uma justiça mal informada. O cavaleiro aceitou a advertência como quem recebe conselho de soberana. Baixou um pouco a espada, embora não baixasse o orgulho.

Foi nesse alívio estreito que o cura começou a desenhar o plano. Se Dom Quixote acreditasse estar encantado por forças inimigas, poderia aceitar ser levado sem sentir-se vencido. Uma jaula, uma carreta, vozes disfarçadas e uma profecia talvez servissem onde a razão falhara. O pensamento era duro, quase cruel, mas menos cruel que vê-lo preso por oficiais ou morto em algum choque inútil. O barbeiro concordou, embora a própria consciência coçasse como roupa áspera.

Sancho ouviu partes da conversa e empalideceu. Encantar seu amo parecia coisa perigosa, mesmo que fingida. Perguntou se encantamento de mentira podia virar de verdade no caminho. O cura respondeu que o verdadeiro perigo era deixar Dom Quixote solto entre leis, armas e estradas. Sancho não ficou convencido, mas também não tinha alternativa melhor. A ilha prometida se afastava cada vez mais; em seu lugar surgia uma carreta, e nenhuma carreta costuma levar escudeiro a governo.

Os quadrilheiros, pressionados pelo ouvidor e por Fernando, aceitaram esperar. Não por confiança plena, mas porque havia gente de autoridade suficiente para tornar a prudência mais cômoda que a prisão imediata. O barbeiro da bacia recebeu nova promessa de composição. Dom Luís ficou sob vigilância discreta. O vendeiro suspirou sem saber se desejava clientes ou deserto. A venda inteira parecia cansada de sustentar tantas verdades incompatíveis.

Ao cair da tarde, Dom Quixote ainda se via livre, mas todos ao redor já trabalhavam para prendê-lo dentro de uma ficção. Não seria cadeia de ferro, ao menos não no nome; seria encantamento, remédio, teatro de salvação. A Santa Hermandad trouxera a lei até a porta, e a lei fizera o cura entender que a aventura precisava terminar. Faltava apenas preparar a cena, a jaula e as palavras capazes de transformar retorno em feitiço.

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