Capítulo 3 - A primeira justiça e a primeira queda Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 3 de 133
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Capítulo 3 - A primeira justiça e a primeira queda

Capítulo 3 - A primeira justiça e a primeira queda

Dom Quixote deixou a venda convencido de que o mundo enfim podia ser corrigido por sua mão. A cerimônia fora pobre, improvisada e quase ridícula, mas isso não diminuía sua força dentro dele. O que importava era o nome recebido, a ordem assumida, a certeza de que cada estrada escondia uma injustiça esperando pelo cavaleiro capaz de reconhecê-la.

A manhã abriu-se seca, clara e indiferente. Rocinante avançava sem pressa, mais por costume que por entusiasmo, enquanto seu senhor imaginava feitos dignos de memória. Dom Quixote não buscava apenas aventura; buscava uma confirmação. Precisava que o mundo lhe entregasse um sinal de que os livros não haviam mentido, de que ainda havia ofendidos, tiranos, damas, gigantes e causas altas o bastante para justificar sua partida.

O sinal apareceu na forma de um grito. De dentro de um bosque ralo, veio a voz de um menino pedindo piedade. Dom Quixote desviou o cavalo e encontrou um lavrador castigando o criado preso a uma arvore. A cena era simples e brutal: um homem forte, um rapaz indefeso, uma vara erguida, a autoridade do dinheiro e do costume transformada em violência.

Ali, pela primeira vez, a fantasia do cavaleiro tocou uma dor real. Dom Quixote viu opressão e, nesse ponto, não estava errado. Errou no resto: na medida, no entendimento, na consequência. Apontou a lança, falou com grandeza e ordenou ao lavrador que soltasse o menino e pagasse o salário devido. O homem, assustado pela figura armada que lhe surgia do caminho, mudou imediatamente de tom.

Prometeu obediência. Disse que o rapaz receberia tudo. Jurou com palavras mansas aquilo que a presença da lança exigia. O menino, porém, conhecia melhor o mundo em que vivia. Tentou explicar que, assim que Dom Quixote partisse, a promessa se dissolveria e a surra voltaria mais pesada. Mas o cavaleiro precisava acreditar na eficacia de sua própria autoridade. Para ele, a palavra dada diante de um cavaleiro bastava.

Partiu satisfeito, certo de ter restaurado a justiça. Através das árvores, a realidade esperou apenas que o som dos passos se apagasse. O lavrador voltou-se para o menino com rancor aumentado, e a promessa virou castigo. Dom Quixote seguia adiante levando na memória uma vitória; atrás dele ficava alguém pagando o preço de uma salvação incompleta.

A estrada logo lhe ofereceu novo encontro. Vinham mercadores de Toledo, acompanhados por criados e animais carregados. Eram homens de negocio, atentos ao lucro, a poeira, ao horário e aos riscos da viagem. Dom Quixote, contudo, viu neles público adequado para proclamar uma verdade essencial: Dulcineia del Toboso era a dama mais formosa do mundo, e todos deveriam confessar isso sem demora.

Os mercadores, percebendo a estranheza da figura, responderam com ironia. Pediram que ao menos lhes mostrasse a dama, pois seria difícil declarar uma beleza jamais vista. A exigência era prática, quase razoável. Para Dom Quixote, era insulto intolerável. A grandeza de Dulcineia não dependia de prova; dependia de fé. Questioná-la atingia a mulher imaginada e toda a arquitetura moral que sustentava sua nova vida.

Tomado de colera, investiu contra eles. Rocinante, menos convencido da glória, tropeceu antes que a lança cumprisse qualquer destino. Cavalo e cavaleiro caíram juntos no chão duro. Dom Quixote ficou preso sob as armas, sem conseguir levantar-se, ainda ameaçando os mercadores com voz de herói vencido pelo peso do próprio corpo.

Um dos criados, menos paciente que os homens de negocio, quebrou-lhe a lança, tomou parte dela e descarregou golpes sobre o cavaleiro caido. A cena que Dom Quixote imaginara como duelo virou espancamento. Não houve honra, regra nem adversário digno; houve apenas poeira, dor, riso e a evidência de que o mundo real não aceitava facilmente os termos da cavalaria.

Quando os mercadores partiram, Dom Quixote ficou estendido na estrada, ferido e incapaz de montar. Ainda assim, sua mente procurou abrigo nos livros. Se estava caido, era como os grandes cavaleiros caidos antes da recuperação. Se fora humilhado, era porque encantadores e inimigos escuros conspiravam contra sua fama nascente. A derrota, para ele, não destruia a ficção; apenas exigia uma explicação mais grandiosa.

A tarde avançou sobre a Mancha. O cavaleiro recem-armado, que pela manhã acreditava ter inaugurado uma era de justiça, terminava o dia sem lança, sem força e sem compreender o dano que deixara atrás. Mas a chama continuava acesa. Dom Quixote podia perder sangue, dentes e equilíbrio; o que ainda não sabia perder era a necessidade de transformar cada queda em prova de destino.

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