Capítulo 95 - A carta de Sancho e Trifaldim Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 95 de 133
Obra Menu

Capítulo 95 - A carta de Sancho e Trifaldim

Capítulo 95 - A carta de Sancho e Trifaldim

No dia seguinte, a duquesa perguntou a Sancho se já começara a penitência de Dulcineia. O escudeiro respondeu que sim: dera a si mesmo cinco açoites durante a noite. Perguntada a ferramenta, confessou que usara a mão. A duquesa avaliou a conta com severidade fingida. Aquilo parecia mais palmada que disciplina. Merlim talvez não se contentasse com tamanha brandura; a liberdade de uma senhora daquele porte exigia instrumento que deixasse sentir a obra. Sancho pediu então uma disciplina conveniente, desde que não doesse demais. Suas carnes, embora rústicas, tinham mais algodão que esparto, e não convinha criar-se de novo por proveito alheio.

Depois tirou do seio uma carta para Teresa Pança. Queria que a duquesa a lesse, pois julgava haver nela tom adequado a futuro governador. Explicou que a ditara, porque não sabia ler nem escrever, embora soubesse firmar. A carta contava a Teresa que bons açoites custavam bom governo; que ela deveria andar de coche, pois mulher de governador não podia rastejar pela vida; que lhe enviava o traje verde de caça para servir de saia e corpo à filha; que Dom Quixote era louco discreto e mentecato gracioso; que Merlim pusera sobre ele três mil e trezentos açoites, menos cinco já pagos, para libertar Dulcineia, conhecida na aldeia como Aldonza Lorenzo.

Sancho escrevia também que logo partiria para o governo com vontade de fazer dinheiro, porque ouvira dizer que governadores novos costumam entrar nesse ofício com o mesmo desejo. Avisaria depois se Teresa devia ir ter com ele. O rucio estava bem e mandava lembranças; não o deixaria nem que o levassem para ser Grão-Turco. A duquesa, segundo a carta, beijava as mãos de Teresa mil vezes, e Teresa devia devolver duas mil, já que bons cumprimentos custam pouco. Sancho lamentava não ter encontrado outra maleta com cem escudos, mas prometia que tudo sairia na colada do governo. De uma maneira ou de outra, Teresa havia de ficar rica ou bem-aventurada.

A duquesa leu com prazer e apontou dois perigos. Primeiro, Sancho dava a entender que o governo vinha por causa dos açoites, embora a promessa do duque fosse anterior ao acordo com Merlim. Segundo, a carta mostrava cobiça demais. Governador codicioso entorta a justiça. Sancho recebeu a advertência e prometeu emendar o texto se fosse necessário. A duquesa guardou a carta para mostrá-la ao duque, que se divertiu muito com ela. Comeram no jardim naquele dia. Depois da mesa, enquanto a conversa de Sancho mantinha todos atentos, ouviu-se de repente som tristíssimo de pífaro e tambor rouco, tão grave que Dom Quixote se endireitou no assento e Sancho procurou o lado da duquesa, seu refúgio habitual contra prodígios.

Entraram pelo jardim dois homens vestidos de luto, com panos tão compridos que arrastavam no chão, tocando tambores cobertos de negro. Ao lado vinha pífaro igualmente escuro. Atrás deles avançava figura gigantesca, envolta em roupa negra de cauda imensa, rosto coberto por véu e barba branca visível sob o pano fino. Um largo talabarte segurava enorme alfanje. O personagem movia-se devagar, conforme o ritmo fúnebre dos tambores, com gravidade capaz de suspender quem ignorasse a farsa. Chegou diante do duque, ajoelhou-se e esperou licença para falar. Quando se levantou, tirou o véu e mostrou barba branca, comprida e abundante como raras vistas no mundo.

Com voz funda, apresentou-se como Trifaldim da Barba Branca, escudeiro da condessa Trifaldi, também chamada Dueña Dolorida. Trazia pedido para que sua senhora entrasse e contasse a aflição, uma das mais estranhas que pensamento triste já concebera. Antes, desejava saber se estava ali o invicto Dom Quixote de la Mancha, em cuja busca viera a pé e em jejum desde o reino de Candaya, por milagre ou encantamento. O duque respondeu com solenidade proporcional à invenção. Disse que conheciam a desventura da condessa, que ela poderia entrar, e que ali se achava o cavaleiro de quem poderia esperar amparo seguro.

Trifaldim inclinou-se, fez sinal aos músicos e saiu pelo mesmo caminho, deixando o jardim cheio de expectativa. O duque voltou-se para Dom Quixote e observou que a malícia não consegue encobrir por muito tempo a luz da virtude. Fazia poucos dias que o cavaleiro estava naquele castelo, e já mulheres afligidas de terras distantes o procuravam a pé e sem comer. Dom Quixote respondeu que gostaria de ver ali o eclesiástico da mesa, para que tocasse com os próprios olhos a necessidade dos cavaleiros andantes. Em desgraças enormes, dizia ele, os aflitos não buscam socorro nas casas de letrados, sacristães, fidalgos imóveis ou cortesãos preguiçosos. Procuram braços capazes de agir. E por estar entre esses braços, dava graças ao céu.

1/1
Menu

Fazer anotação