Capítulo 60 - A visita do cura e do barbeiro Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 60 de 133
Obra Menu

Capítulo 60 - A visita do cura e do barbeiro

Capítulo 60 - A visita do cura e do barbeiro

Passou-se quase um mês desde que Dom Quixote fora trazido para casa, vencido de corpo e ainda armado por dentro. A ama e a sobrinha guardavam o quarto com cuidado de sentinelas, tirando-lhe livros, armas, conversas perigosas e qualquer notícia que pudesse levantar de novo a poeira da estrada. Ele comia melhor, dormia por períodos mais longos e respondia com juízo quando lhe falavam de colheitas, vizinhos, rendas miúdas e males comuns da aldeia. Essa melhora deu ao cura e ao barbeiro coragem para visitá-lo. Entraram com fala branda e rosto atento, decididos a descobrir se a razão voltara de verdade ou se apenas repousava, como cobra fria, à espera de sol.

Encontraram o fidalgo sentado, magro, limpo, vestido sem pompa e capaz de conversar sobre assuntos de governo com uma prudência que chegou a animar os dois amigos. Falaram de tempos difíceis, da defesa dos reinos cristãos, das ameaças que vinham do mar e dos cuidados que cabiam aos príncipes. Dom Quixote ouviu tudo com semblante grave. Por alguns instantes, sua resposta pareceu nascer de homem antigo e discreto, desses que medem cada palavra antes de entregá-la à sala. O cura trocou olhar rápido com o barbeiro, quase satisfeito. A doença talvez tivesse cansado de mandar nele. A esperança, sempre desejosa de se enganar quando ama alguém, começou a abrir uma fresta.

Essa fresta durou pouco. Quando o assunto tocou o perigo dos turcos, Dom Quixote ergueu a cabeça e declarou que o remédio mais eficaz seria convocar, por ordem pública, todos os cavaleiros andantes que ainda vagassem pela Espanha. Bastariam meia dúzia, disse ele, e talvez um só deles pudesse destruir o poder inteiro do inimigo, pois as histórias estavam cheias de homens capazes de enfrentar exércitos numerosos como quem corta uma só garganta. Citou Amadís, Belianís e outros nomes de seu antigo reino de papel. A sobrinha, que escutava da porta, levou a mão ao peito. Entendeu antes dos demais que o tio curara a febre do corpo e conservara intacta a chama dos livros.

O barbeiro, desejando desviar aquela corrente antes que ela se fizesse cheia, pediu licença para contar um caso sucedido numa casa de loucos de Sevilha. Falou de um licenciado posto ali pelos parentes, homem que escrevera ao arcebispo afirmando ter recuperado o juízo e acusando a família de prendê-lo por interesse. Um capelão foi examinar o caso e encontrou nele tanta ordem, tanta medida e tanta razão, que se dispôs a tirá-lo da casa. O reitor avisou que o licenciado tinha intervalos luminosos e quedas fundas, porém o capelão confiou no que ouvira. Deram-lhe roupas decentes, e o homem, já vestido como são, pediu para despedir-se dos companheiros.

Na despedida, um interno que se julgava Júpiter ameaçou castigar Sevilha com três anos sem chuva, por deixarem sair um louco chamando-o de curado. O licenciado, sem perder solenidade, respondeu ao capelão que não havia motivo para temer, pois ele próprio era Netuno e faria chover sempre que fosse preciso. A prudência do capelão caiu por terra naquele instante. O homem voltou às roupas da casa e ali ficou, enquanto o reitor e os presentes riam da liberdade quase concedida. O barbeiro terminou o conto olhando Dom Quixote com cautela. A comparação estava posta na mesa, embora ninguém tivesse ousado nomeá-la.

Dom Quixote compreendeu o golpe e recebeu-o com dignidade ferida. Disse que conhecia muito bem a intenção do conto, e que seria tolice confundir a alta ordem da cavalaria com as fantasias de um pobre licenciado. Cavaleiro andante vivera e cavaleiro andante morreria, ainda que turcos, parentes, barbeiros e curas se juntassem para chamá-lo ao repouso. O cura abaixou os olhos. A sobrinha fez sinal de desespero à ama. Nesse momento, vozes subiram da entrada da casa. Alguém discutia com as mulheres, tentando passar pela porta. Dom Quixote escutou, reconheceu o tom de Sancho Pança e mandou que o deixassem entrar, pois nenhum juízo do mundo podia ser completo sem ouvir o escudeiro.

1/1
Menu

Fazer anotação