Capítulo 120 - Entrada em Barcelona Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 120 de 133
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Capítulo 120 - Entrada em Barcelona

Capítulo 120 - Entrada em Barcelona

Três dias e três noites passou Dom Quixote com Roque Guinart, tempo suficiente para entender que a vida dos bandoleiros tinha menos liberdade do que alardeava. Amanheciam num lugar, comiam noutro, fugiam sem saber sempre de quem, esperavam sem saber sempre por quem, dormiam de sobressalto e mudavam de esconderijo como quem muda de respiração. Havia vigias, senhas, armas prontas e desconfiança até entre companheiros. Roque, perseguido pelos editais do vice-rei de Barcelona, passava as noites afastado dos seus, temendo que algum deles o entregasse à justiça ou lhe tirasse a vida por conveniência. Para Dom Quixote, que enxergava grandeza até em ofícios torcidos, aquilo era matéria de admiração; para Sancho, parecia apenas uma forma muito cansativa de viver sem casa.

Por atalhos e sendas pouco usadas, Roque conduziu Dom Quixote, Sancho e seis de seus homens até a praia de Barcelona, na véspera de São João. Ali abraçou cavaleiro e escudeiro, entregou a Sancho os dez escudos prometidos e partiu com oferecimentos de amizade. Dom Quixote ficou montado, esperando o dia nascer. Quando a claridade começou a abrir a linha do oriente, ele e Sancho viram pela primeira vez o mar, tão largo aos olhos deles que as lagoas conhecidas da Mancha pareciam pequenas lembranças de água. As galés estavam na praia com flâmulas, bandeiras e música; de dentro vinham clarins, trompetas e chirimias, e os tiros de artilharia respondiam aos fortes e muralhas da cidade. Sancho olhava aquelas massas móveis sobre a água e não compreendia como podiam ter tantos pés.

Da cidade saíram cavaleiros com librés vistosas, correndo pela areia em festa. Um deles, avisado por Roque, aproximou-se e saudou Dom Quixote como espelho, farol e estrela da cavalaria andante, deixando claro que recebiam ali o verdadeiro cavaleiro da Mancha, descrito por Cide Hamete Benengeli, e não o falso que andava em histórias apócrifas. Dom Quixote não respondeu de pronto, tomado pelo aparato da recepção; depois comentou com Sancho que aqueles homens deviam ter lido tanto a história legítima quanto a aragonesa recém-impressa. O cavaleiro que falara convidou-o a entrar na cidade, dizendo que todos eram seus servidores e amigos de Roque Guinart. Dom Quixote aceitou com cortesia, pois via naquela acolhida nova prova de que sua fama havia chegado antes dele.

A entrada em Barcelona começou com música, aplausos e cavaleiros rodeando Dom Quixote em voltas de exibição. A cidade parecia preparada para celebrar sua chegada, embora celebrasse também o dia festivo. Só que a malícia dos rapazes, sempre pronta onde há multidão, achou meio de converter solenidade em queda. Dois meninos abriram caminho entre o povo e prenderam punhados de aliagas, plantas ásperas e espinhosas, nas caudas de Rocinante e do rucio. Os animais sentiram aquele tormento como novas esporas e saltaram em corcovos, apertando as caudas e lançando ao chão seus donos. Dom Quixote, envergonhado, correu a tirar o incômodo de Rocinante; Sancho fez o mesmo com o rucio, resmungando contra uma cidade que recebia hóspedes pela porta da música e pelo chão da zombaria.

Os que guiavam Dom Quixote quiseram castigar os rapazes, porém eles se perderam entre a multidão antes que alguém os alcançasse. Cavaleiro e escudeiro montaram de novo, já menos gloriosos, e seguiram com o mesmo aparato até a casa daquele que os conduzia. Chamava-se don Antonio Moreno, homem rico, discreto e amigo de prazeres honestos, cuja casa correspondia à sua condição. Ali seriam recebidos com mesa, conversação, visitas e novas burlas, mais urbanas que as do castelo dos duques, embora nascidas do mesmo gosto de pôr a loucura de Dom Quixote diante de espectadores. Por ora, a cidade o tomava nos braços: mar, galés, clarins, pólvora, gente curiosa, meninos atrevidos e um anfitrião pronto para transformar o cavaleiro em espetáculo de salão.

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