Capítulo 30 - Doroteia na Serra Morena Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 30 de 133
Obra Menu

Capítulo 30 - Doroteia na Serra Morena

Capítulo 30 - Doroteia na Serra Morena

O cura, o barbeiro e Sancho voltaram para Serra Morena com cuidado. Procuravam Dom Quixote, e a serra parecia pronta a entregar outras histórias antes de devolvê-lo. Sancho seguia à frente, reconhecendo trilhas, apontando desvios e confessando, de quando em quando, que preferia estar em qualquer venda com pão e vinho a conduzir dois homens sensatos para dentro da loucura de seu amo.

Antes de chegarem ao lugar da penitência, ouviram uma voz entre os rochedos. Não vinha de Dom Quixote nem do lamento irregular de Cardenio. Era voz jovem, contida e ferida, como se alguém tentasse falar consigo mesmo para não desaparecer por completo. Os três pararam. O cura ergueu a mão pedindo quietude. O barbeiro segurou a respiração. Sancho, que já conhecia bastante desgraça naquela serra, murmurou que ali cada pedra parecia guardar um segredo.

Avançaram devagar e viram uma figura junto a um regato. À primeira vista, parecia um moço vestido de pastor ou viajante pobre, com roupas gastas e os cabelos escondidos. Bastou que a pessoa se movesse, surpresa pela presença deles, para que o disfarce se desfizesse em parte. Era uma mulher. O susto lhe subiu ao rosto antes que pudesse fugir.

O cura falou primeiro, com a mansidão que se usa diante de quem já sofreu demais. Disse que não vinham para ofendê-la, nem para descobrir à força o que ela desejasse esconder. A moça hesitou. Seu traje masculino, a solidão e a pressa com que tentava recompor-se denunciavam alguma história grave. O barbeiro, menos eloquente, confirmou com movimentos de cabeça e mãos abertas que nenhum deles a ameaçava. Sancho olhava de um para outro, entendendo que a aventura ganhava nova peça antes mesmo de encontrarem Dom Quixote.

A jovem disse chamar-se Doroteia. Ao dizer o nome, pareceu recuperar um pedaço de si. Explicou que se escondera na serra para fugir da vergonha, da perseguição e da memória de uma promessa quebrada. A cada frase, o cura percebeu que aquela história se ligava a outra já ouvida: a de Cardenio, Lucinda e Fernando.

Doroteia contou apenas o começo, porque a dor inteira não cabia de uma vez. Era filha de lavradores honrados e ricos, criada com recato, trabalho e confiança. Fernando, senhor de nascimento mais alto, aproximara-se dela com palavras ardentes, juramentos e lágrimas. Prometera casamento. Vencera sua resistência. Tomara dela aquilo que, na linguagem daquele mundo, era honra, futuro e nome. Depois partira.

Não houve frase longa que tornasse menor a violência do abandono. Doroteia falava sem gritos, e por isso mesmo o relato parecia mais duro. Fernando desaparecera deixando atrás de si promessa, culpa e uma mulher que já não podia voltar à vida anterior sem carregar sozinha o peso de dois. O cura ouviu com atenção crescente. O barbeiro baixou os olhos. Sancho, que costumava reduzir as coisas ao seu tamanho prático, desta vez não achou provérbio que servisse.

Quando Doroteia mencionou que Fernando se envolvera depois com Lucinda, o nome passou pelo grupo como faísca. O cura reconheceu de imediato o fio que unia as desgraças. Cardenio perdera Lucinda por causa de Fernando; Doroteia fora enganada pelo mesmo homem; Lucinda, pelo que se sabia, fora empurrada para um casamento contra o coração. A serra, que parecia esconder loucos dispersos, revelava agora uma única trama de injustiça.

O cura decidiu que era preciso reunir as pontas. Contou a Doroteia, com prudência, que havia naquelas montanhas um homem chamado Cardenio, consumido pela dor de Lucinda e pela traição de Fernando. A jovem ouviu pálida, mas não surpresa. O nome de Cardenio confirmava que sua própria queda fazia parte de dano maior. Por um instante, sua vergonha se transformou em indignação lúcida.

Foi então que o plano para Dom Quixote encontrou seu instrumento inesperado. O cura explicou, sem zombaria, que procuravam resgatar um fidalgo enlouquecido pelos livros de cavalaria. Esse homem, Dom Quixote, só sairia da penitência se uma aventura digna o chamasse. Doroteia, já em disfarce e já dona de uma causa verdadeira, poderia apresentar-se como princesa aflita ou dama perseguida, pedindo auxílio ao cavaleiro. A mentira da forma serviria a uma verdade: tirá-lo da serra e talvez conduzir todos à reparação.

Doroteia escutou quieta. Havia risco no fingimento, e havia também uma utilidade amarga. Fernando a reduzira a peça de engano; agora ela podia escolher a máscara e usá-la para mover os acontecimentos. Aceitou ajudar. Viu naquele pequeno teatro uma chance de aproximar justiça, cura e retorno.

Sancho animou-se. Uma princesa, mesmo inventada, combinava muito melhor com o apetite cavaleiresco de seu amo do que sermões do cura ou navalhas do barbeiro. Se Doroteia pedisse socorro com nome bastante sonoro e infortúnio bastante grande, Dom Quixote montaria Rocinante sem perguntar demais. O escudeiro começou até a pensar que, por esse caminho, talvez a ilha prometida voltasse a ficar mais perto.

Combinaram os primeiros traços da encenação. Doroteia seria uma senhora de reino distante, despojada por inimigo cruel, necessitada do braço de Dom Quixote. O cura ajudaria a compor as palavras. O barbeiro cuidaria dos detalhes práticos. Sancho guiaria todos até o penitente. E Cardenio, se pudesse ser reencontrado e acalmado, talvez confirmasse por sua dor a gravidade do mundo que os cercava.

Assim, antes mesmo de reverem Dom Quixote, a serra se reorganizou. A fuga virou encontro; a vergonha isolada revelou uma rede de promessas quebradas; a loucura do cavaleiro ganhou uso provisório. Doroteia, ainda com roupas de disfarce e olhos de quem passara noite longa, aceitou representar uma princesa para recuperar, por dentro da ficção, a verdade que lhe fora roubada.

1/1
Menu

Fazer anotação