Capítulo 100 - O voo sem sair do jardim Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 100 de 133
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Capítulo 100 - O voo sem sair do jardim

Capítulo 100 - O voo sem sair do jardim

Chegou a noite, e com ela a hora marcada para a vinda de Clavileño. A demora já inquietava Dom Quixote, que temia não ser o cavaleiro guardado para tamanha aventura ou que Malambruno desistisse de confiar-lhe o combate. De repente entraram no jardim quatro selvagens cobertos de hera, trazendo aos ombros um grande cavalo de madeira. Puseram-no de pé, e um deles declarou que subisse naquela máquina o cavaleiro capaz de remediar a Dolorida e suas companheiras. O escudeiro deveria ir na garupa, ambos de olhos cobertos, e o cavalo relincharia quando o voo terminasse.

Sancho respondeu que não subiria, nem de boa vontade nem de má. Se o rapamento das dueñas dependia dele, procurassem outro escudeiro ou outro modo de remédio. Pensava na ilha prometida: de Candaya até ali, se o cavalo se cansasse ou o gigante se zangasse, poderiam gastar meia dúzia de anos, e nesse tempo ninguém mais se lembraria de seu governo. O duque garantiu que a ilha tinha raízes fundas e não se moveria do lugar. A Dolorida, com as barbas e as lágrimas de todas, suplicou que ele não faltasse. Vencido mais pelo constrangimento que pelo ânimo, Sancho admitiu subir, desde que o amo fosse primeiro e desde que Deus cuidasse da viagem.

Antes da partida, Dom Quixote levou Sancho à parte entre as árvores. Como a jornada seria longa e de volta incerta, queria que o escudeiro se retirasse um instante e aplicasse a si mesmo quinhentos açoites por conta dos três mil e trezentos de Dulcineia. Sancho julgou a proposta desatinada. Ia sentar-se em tábua dura, sem saber se voltaria vivo, e o amo ainda lhe pedia que castigasse as carnes antes de montar. Prometeu cumprir a penitência no tempo devido, mas naquela hora não daria golpe nenhum. Dom Quixote aceitou a palavra, consolado por considerar Sancho tolo em muitas coisas, porém capaz de cumprir o que afirmava.

Dom Quixote subiu em Clavileño, achou a clavija fácil de mover e ficou com as pernas pendentes, como figura de triunfo romano em pano de Flandres. Sancho subiu devagar, acomodou-se na garupa e logo pediu ao duque algum coxim, ainda que fosse do estrado da duquesa ou do leito de um pajem, pois aquelas ancas pareciam mármore. Trifaldi disse que Clavileño não admitia adorno algum, e sugeriu que ele se sentasse de lado para sofrer menos. Sancho obedeceu, despediu-se de todos, deixou-se vendar, tornou a descobrir os olhos por medo, pediu paternostros e ave-marias, e recebeu repreensão de Dom Quixote por se portar como homem na forca.

Quando os olhos ficaram cobertos, Dom Quixote tocou a clavija. Imediatamente as dueñas e os presentes levantaram vozes, gritando que o cavaleiro e o escudeiro já rompiam os ares com velocidade de seta e causavam espanto a quem os olhava da terra. Sancho apertou o amo e perguntou como aquelas vozes chegavam tão perto se já iam tão alto. Dom Quixote explicou que tais voos saíam dos cursos ordinários, permitindo ouvir a mil léguas. Grandes foles sopravam vento sobre os dois, e o cavaleiro julgou estar chegando à segunda região do ar, onde se formavam granizo e neve. Depois, estopas acesas em varas aqueceram-lhes os rostos, e Sancho acreditou haver chegado à região do fogo, pois parte da barba lhe parecia chamuscada.

O duque, a duquesa e o mordomo, satisfeitos com a máquina inteira da burla, deram-lhe fim. Puseram fogo na cauda de Clavileño, cheio de foguetes troadores. O cavalo explodiu com estrondo, lançou Dom Quixote e Sancho ao chão meio chamuscados, e nesse instante todo o esquadrão barbado desapareceu. Os demais fingiram desmaio pelo jardim. Levantando-se maltreitos, cavaleiro e escudeiro viram uma lança cravada no solo, com pergaminho preso por cordões verdes. Nele se lia que Dom Quixote acabara a aventura da condessa Trifaldi somente por tentá-la; Malambruno se dava por satisfeito, as dueñas estavam lisas, Clavijo e Antonomasia retornavam a seu primeiro estado, e Dulcineia seria livre quando se cumprisse o castigo escuderil.

Dom Quixote entendeu a alusão a Dulcineia e agradeceu ao céu por tamanho feito com tão pouco perigo. O duque, recobrando-se como quem desperta de sono pesado, abraçou o cavaleiro e chamou-o o melhor de todos os séculos. Sancho, porém, procurava a Dolorida para ver se sem barba era tão formosa quanto prometia o porte. Disseram-lhe que ela e as companheiras haviam sumido já rapadas. Perguntado pela duquesa sobre o longo voo, contou que espiara por baixo do lenço e vira a terra pequena como grão de mostarda, com homens do tamanho de avelãs. A duquesa objetou que um homem cobriria toda a terra se as proporções fossem essas, mas Sancho respondeu que encantamento permite ver todo por uma fresta.

Animado pela própria mentira, acrescentou que chegara tão perto do céu que lhe faltava palmo e meio para tocá-lo. Viu as sete cabrinhas, lembrou seus tempos de cabreiro, desceu de Clavileño sem dizer nada a ninguém e brincou quase três quartos de hora com elas, que tinham cores de flores: duas verdes, duas encarnadas, duas azuis e uma misturada. O duque perguntou se havia também bode entre elas, e Sancho respondeu que ouvira dizer que nenhum passava dos cornos da lua. Não quiseram interrogá-lo mais, para que não passeasse por todos os céus sem ter saído do jardim. Dom Quixote então lhe disse ao ouvido que, se Sancho queria crédito para o que vira no alto, deveria conceder crédito ao que o amo vira na cova de Montesinos.

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