Capítulo 5 - O julgamento dos livros
Capítulo 5 - O julgamento dos livros
Quando Dom Quixote enfim adormeceu, a casa não descansou com ele. A ama caminhava pelos corredores como se cada estante tivesse passado a respirar uma ameaça própria. A sobrinha, ainda assustada pela volta do tio ferido, repetia que nenhum homem prudente sairia pelo mundo coberto de armas velhas se não tivesse sido envenenado por paginas demais. O padre e o barbeiro, chamados para dar forma adulta ao medo domestico, aceitaram a missão com gravidade quase judicial.
A biblioteca, até então aposento de recolhimento e orgulho pobre, foi aberta como se fosse cena de crime. Ali estavam os volumes que haviam alimentado Alonso Quijano durante anos: cavaleiros invencíveis, damas sem corpo, gigantes que sempre surgiam no momento certo, reinos recuperados pela espada e pela fidelidade absoluta a uma honra imaginada. O que antes parecera entretenimento de fidalgo solitário agora era lido como prova material de uma transformação perigosa.
O padre tomou os livros nas mãos e começou a examina-los um por um. Não fazia isso sem contradição. Sabia reconhecer beleza onde havia beleza, engenho onde havia engenho, e até alguma verdade escondida nas exagerações. Mas também sabia que, para aquele leitor especifico, as histórias tinham deixado de ser história. Tinham se tornado mapa, ordem, dever. Em Alonso Quijano, a ficção não terminava ao fechar do volume.
O barbeiro ajudava no julgamento com opiniões mais praticas. Para ele, bastava perguntar se tal livro podia reacender a mania do cavaleiro. Se podia, era risco. Se era risco, devia sair da casa. A ama, menos interessada em distinguir estilos, queria que tudo fosse entregue ao fogo. Cada lombada lhe parecia uma faca escondida. Cada nome de cavaleiro soava como promessa de nova fuga, novo ferimento, nova vergonha publica.
Houve, ainda assim, debates. Alguns volumes foram poupados por qualidade, outros por afeição, outros porque o padre não se via capaz de condenar sem remorso aquilo que também sabia admirar. Essa hesitação dava ao julgamento uma ironia mais funda: ninguém ali odiava inteiramente os livros. O que temiam era a força que certos livros ganhavam quando encontravam uma alma disposta a obedecer a eles mais do que ao próprio mundo.
No quarto, Dom Quixote dormia entre restos de febre e grandeza. Talvez sonhasse com castelos, talvez com inimigos invisíveis, talvez com Dulcineia, senhora absoluta de um reino que nenhuma vizinha do Toboso havia pedido para governar. Enquanto ele repousava, outros decidiam o destino de sua memória impressa. A casa queria devolver-lhe a sanidade retirando-lhe as pontes por onde chegara à loucura.
Depois do julgamento veio a obra mais brutal. Livros foram separados, condenados, carregados, retirados do quarto como se fossem cúmplices. O aposento que guardava a biblioteca foi fechado. A entrada, antes familiar, passou a ser tratada como uma passagem perigosa. Planejou-se até fazer desaparecer a porta, para que, ao acordar, Alonso não encontrasse apenas uma sala vazia, mas a impossibilidade fisica de retornar ao lugar onde Dom Quixote nascera.
A solução era engenhosa e terrível. Em vez de discutir com o delirio, a casa inventaria outro delirio menor para contorna-lo. Se o cavaleiro perguntasse pela biblioteca, diriam que um encantador a levara. Assim, tentariam vencer a ficção usando a própria lingua da ficção. Não percebiam que, ao fazer isso, reforcavam o mundo em que Dom Quixote respirava melhor: um mundo onde perdas, portas fechadas e ausências sempre podiam ser obra de poderes invisíveis.
Quando Alonso Quijano despertou, encontrou rostos atentos demais e silences mal disfaracados. Perguntou por seus livros com a naturalidade de quem pergunta por agua. A resposta veio preparada: um inimigo encantador, ofendido pela grandeza futura do cavaleiro, havia roubado o aposento inteiro. A casa esperava que a explicação o aquietasse. Dom Quixote, ao contrário, recebeu a notícia como confirmação.
Se havia encantadores contra ele, então sua missão era real. Se sua biblioteca fora sequestrada por inveja magica, então sua fama já incomodava forças poderosas. O golpe domestico, pensado como cura, transformou-se em prova dentro da lógica do cavaleiro. Ele lamentou a perda, sim, mas lamentou como guerreiro perseguido, não como homem corrigido.
Durante alguns dias, a casa acreditou ter vencido. Dom Quixote comeu, repousou, falou menos de aventuras. A ama vigiava sinais de recaída, a sobrinha evitava qualquer assunto que cheirasse a cavalaria, e os amigos se consolavam com a ideia de que a ausência dos livros bastaria para secar a fonte da loucura. Mas o silêncio do fidalgo guardava preparo, não esquecimento.
A estrada continuava dentro dele. Sem biblioteca, Dom Quixote passou a carregar os livros na memória. Sem porta, abriu outra passagem: a necessidade de voltar ao mundo para concluir o que havia apenas comecado. A casa fechara um quarto; não fechara a promessa. E, enquanto todos olhavam para as cinzas e paredes novas, o cavaleiro já procurava a forma de sair outra vez, agora menos sozinho.