Capítulo 70 - A carreta da Morte
Capítulo 70 - A carreta da Morte
Dom Quixote seguiu pensativo depois do encontro com as três lavradoras. A imagem de Dulcineia mudada em moça de campo pesava-lhe tanto que soltou as rédeas sem perceber, e Rocinante aproveitou a liberdade para parar onde havia erva. Sancho, vendo o amo entregue à melancolia, pediu que despertasse. Disse que tristezas são próprias dos homens, mas, quando crescem demais, acabam reduzindo o homem a besta. Rogou-lhe que segurasse o cavalo, erguesse a cabeça e lembrasse que a saúde de um cavaleiro andante valia mais, para o mundo, que todos os encantamentos feitos contra damas do Toboso.
Dom Quixote repreendeu-o por falar sem reverência de Dulcineia. A desgraça da senhora vinha, dizia ele, da inveja que os maus tinham de sua glória. Sancho concordou depressa, pois a mentira que armara precisava agora de paredes fortes. Ainda assim, levantou problema prático: quando o amo vencesse gigantes ou cavaleiros e os mandasse apresentar-se diante de Dulcineia, como poderiam reconhecê-la se continuasse sob forma tão baixa? Dom Quixote admitiu que a experiência resolveria a dúvida. Talvez o encantamento atingisse somente seus olhos; talvez os vencidos a vissem em sua grandeza e voltassem contando o que ele fora impedido de ver.
A resposta mal terminara quando surgiu no caminho uma carreta descoberta, carregada de figuras estranhas. Quem guiava as mulas vinha vestido de demônio. Sobre a plataforma apareciam a Morte, um anjo com asas pintadas, um imperador coroado, Cupido com arco e setas, uma rainha, um soldado e outras presenças feitas para espantar quem as visse de repente. Sancho ficou inquieto. Dom Quixote, ao contrário, sentiu acender-se a disposição para aventura e pôs-se diante da carreta com voz alta, exigindo que o condutor dissesse quem eram, para onde iam e por que levavam tamanha companhia em veículo que parecia barca de almas perdidas.
O demônio respondeu com mansidão. Eram atores da companhia de Angulo o Mau, tinham representado naquela manhã o auto das Cortes da Morte em uma aldeia próxima e iam repetir a peça em outro lugar, sem trocar de roupa porque a distância era pequena. A Morte vinha de Morte; o anjo vinha de Anjo; a rainha era mulher do diretor; o imperador, o soldado e Cupido seguiam cada qual em seu papel. Dom Quixote, ao ouvir a explicação, declarou que tocara a aparência com a mão e encontrara o desengano. Deixou-os seguir, dizendo que sempre apreciara máscaras e comédias, desde a juventude, e que nada tinha contra gente de teatro.
O acordo teria acabado em paz se um dos farsantes, vestido de figura buliçosa, não se aproximasse com cascavéis e bexigas infladas presas a um pau. O homem saltou diante de Rocinante, bateu as bexigas no chão e fez tal barulho que o cavalo tomou o freio nos dentes e disparou pelo campo. Dom Quixote caiu logo adiante, mais ofendido que ferido. Sancho correu para acudir ao amo; nesse intervalo, o farsante montou no rucio e saiu dando-lhe golpes com as bexigas. O escudeiro viu o amo no chão e o jumento fugindo, dividido entre duas dores. Escolheu primeiro Dom Quixote, porque, embora amasse o rucio, ainda sabia a quem devia serviço.
Quando ajudava o cavaleiro a levantar-se, Sancho disse que o diabo levara seu jumento. Dom Quixote prometeu recuperá-lo, mesmo que o ladrão entrasse nos calabouços mais fundos do inferno. Quis alcançar a carreta e tomar das mulas satisfação pelo agravo. Sancho notou que o rucio já voltava, pois o farsante também caíra e preferira seguir a pé. Ainda assim, Dom Quixote avançou para castigar a insolência. Os atores, vendo a intenção, saltaram da carreta com pedras nas mãos: a Morte, o imperador, o anjo, Cupido, a rainha e o demônio formaram esquadrão pronto para receber o cavaleiro com pontaria severa.
Sancho deteve o amo antes do ataque. Lembrou-lhe que contra sopa de pedra não havia armadura bastante, salvo talvez uma campana de bronze fechada por todos os lados. Acrescentou argumento decisivo: entre aquelas figuras, embora parecessem reis, anjos, mortes e imperadores, nenhum era cavaleiro andante. Dom Quixote aceitou a razão. Não devia tirar espada contra quem não pertencia à ordem das armas. Ofereceu a Sancho a vingança, com promessa de ajuda por conselhos e gritos, mas o escudeiro recusou. Preferia convencer o rucio a entregar a ofensa à sua vontade pacífica. Assim a carreta seguiu, Sancho tomou seu animal, e Dom Quixote voltou ao caminho, deixando para trás uma aventura que terminara graças ao bom cálculo do escudeiro.