Capítulo 39 - A prova de Anselmo Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 39 de 133
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Capítulo 39 - A prova de Anselmo

Capítulo 39 - A prova de Anselmo

O cura prosseguiu a leitura, e a venda mergulhou outra vez em silêncio. Anselmo, preso à própria ideia, não descansou enquanto Lotário não lhe prometeu participar da prova. A promessa, porém, nasceu dividida. Por fora, Lotário parecia ceder ao amigo; por dentro, decidia impedir que a curiosidade de Anselmo tocasse de fato a honra de Camila.

Começou então a frequentar a casa com mais regularidade, como Anselmo desejava. Camila recebeu-o sem estranhamento, pois sempre o conhecera como amigo do marido e homem de confiança. Não havia em seu trato sombra que justificasse suspeita. Falava-lhe com cortesia, perguntava por Anselmo quando ele se ausentava, cuidava da ordem doméstica e se movia pela casa com a tranquilidade de quem nada tem a esconder.

Lotário observou tudo isso e sentiu crescer a indignação contra o amigo. Quanto mais via a virtude serena de Camila, mais absurda lhe parecia a prova. Anselmo tinha diante de si o que dizia desejar e, justamente por possuí-lo, queria forçá-lo contra uma lâmina. A confiança dele se transformara em fome de certeza impossível.

Nos primeiros dias, Lotário nada fez além de estar presente. Quando Anselmo lhe perguntava sobre os avanços da tentativa, respondia que Camila se mostrava honrada, fria a qualquer insinuação e inteiramente fiel. Anselmo ouvia, mas não se satisfazia. Dizia que Lotário não tentara bastante. Uma virtude não se provava com silêncio, mas com assédio verdadeiro. Era preciso falar-lhe de amor, elogiar sua beleza, tocar-lhe a imaginação.

Na venda, Sancho interrompeu baixinho que havia gente que só acreditava na parede depois de bater a cabeça nela. O barbeiro achou o comentário adequado. O cura, sem levantar muito os olhos, continuou, talvez porque a própria história já respondia melhor que qualquer sermão.

Lotário recusou-se a ir além. Disse a Anselmo que insistir seria pecado contra a amizade, contra o casamento e contra o juízo. Repetiu que Camila já estava provada pelo modo como vivia. Mas Anselmo, cada vez mais tomado pela própria fantasia, acusou o amigo de preguiça, medo ou falsa delicadeza. Chegou a insinuar que Lotário protegia Camila para proteger a si mesmo da dificuldade da tarefa.

Essa suspeita feriu Lotário, que via a amizade sendo arrastada para o mesmo pântano da desconfiança. O curioso impertinente já não duvidava apenas da esposa; começava a duvidar também do amigo por este não querer ajudá-lo a duvidar. Assim, a doença de Anselmo se espalhava.

Para cortar a insistência, Lotário escolheu caminho perigoso: mentir. Disse a Anselmo que havia falado com Camila, que lhe dera sinais de admiração, que experimentara abrir uma porta de galanteio e encontrara apenas recusa limpa. Inventou detalhes suficientes para parecer obediente e concluiu que a honra dela saíra mais clara que antes. Esperava, com isso, satisfazer o amigo sem tocar a esposa.

Anselmo, porém, ficou mais excitado que pacificado. Em vez de agradecer a prova favorável, quis vê-la repetida. Pediu circunstâncias, palavras exatas, novas tentativas. A virtude de Camila, longe de encerrá-lo em contentamento, tornou-se desafio maior. Se resistira uma vez, resistiria sempre? Se recusara uma insinuação, recusaria promessas mais ardentes? A curiosidade, alimentada, exigia alimento novo.

Lotário percebeu tarde que sua mentira prudente dera forma ao monstro. Antes, Anselmo imaginava a prova; agora acreditava que ela começara e queria acompanhá-la. Pediu ao amigo que não desistisse. Insistiu para que se mostrasse mais ousado. Chegou a propor ausentar-se de casa por dias, deixando Lotário e Camila em situação mais livre, como se a própria casa fosse laboratório e a esposa, objeto sem vontade.

Camila, enquanto isso, nada sabia. Percebia talvez maior frequência de Lotário, alguma tensão no marido, pequenos desvios na conversa. Mas sua consciência permanecia tranquila. É uma das crueldades da história, leu o cura, que a pessoa testada por desconfiança muitas vezes seja a última a saber que sua vida se tornou prova.

Doroteia ouviu essa frase com dureza. Lucinda também. Fernando mexeu-se, desconfortável. A venda inteira parecia entender, por experiência recente, que os homens costumavam chamar de honra aquilo que muitas vezes era apenas controle. Dom Quixote, menos atento à crítica doméstica, perguntou se Lotário acabaria duelando com alguém. O cura respondeu que ainda não havia duelo, mas já havia ferida.

Lotário tentou uma última resistência. Disse a Anselmo que se ausentar de propósito seria maldade sem desculpa. Disse que nenhuma mulher, por mais honrada, devia ser empurrada para circunstância armada contra ela. Disse que tentar a queda de alguém e depois culpá-la por cair era injustiça dupla. Mas Anselmo já havia transformado a experiência em necessidade. Não queria apenas saber; queria ver o saber nascer diante dele.

Pressionado pela amizade, pela fadiga e talvez pelo orgulho ferido, Lotário prometeu continuar, ainda com intenção de não ir até o fim. Decidiu que, se Anselmo se ausentasse, ele passaria pela casa apenas para conservar a aparência do plano e depois repetiria novo relato falso. Sua esperança era cansar o amigo pela repetição de boas notícias. Mas esperança fundada em mentira costuma pedir juros altos.

O capítulo da leitura terminou nesse ponto provisório. Anselmo preparava sua ausência. Lotário preparava sua mentira. Camila, sem saber, permanecia no centro do círculo. E na venda, entre ouvintes que já tinham visto promessas quase destruírem vidas, a história começava a mostrar que nem toda traição começa por desejo. Algumas começam por desconfiança vestida de razão.

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