Capítulo 113 - Ricote no caminho Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 113 de 133
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Capítulo 113 - Ricote no caminho

Capítulo 113 - Ricote no caminho

O duque e a duquesa decidiram que o desafio de Dom Quixote em favor da filha de doña Rodríguez seguiria adiante. Como o moço verdadeiro estava em Flandres, fugido para não receber a dueña por sogra, escolheram em seu lugar um lacaio gascão chamado Tosilos, instruindo-o muito bem sobre o papel que deveria representar. Dois dias depois, o duque avisou Dom Quixote de que o contrário viria em quatro dias, armado como cavaleiro, para sustentar que a donzela mentia se afirmasse haver recebido palavra de casamento. O cavaleiro recebeu a notícia com grande prazer. Via ali ocasião para mostrar aos duques até onde chegava o valor de seu braço, e os quatro dias lhe pareceram quatrocentos séculos de espera.

Enquanto o castelo preparava essa nova cena, Sancho vinha pelo caminho sobre o rucio, entre alegre e triste. Deixara Baratária, mas voltava para a companhia do amo, que lhe agradava mais que o governo de todas as ilhas do mundo. Ainda não se afastara muito do lugar governado, que nunca verificou se era ilha, vila ou aldeia, quando viu seis peregrinos estrangeiros com bordões, desses que pedem esmola cantando. Puseram-se em fila diante dele e entoaram palavras que Sancho não compreendia, salvo uma que soava claramente a pedido. Por ser caritativo, tirou das alforjas meio pão e meio queijo, dizendo por sinais que não tinha outra coisa.

Os peregrinos aceitaram, mas pediram dinheiro. Sancho mostrou, por gestos, que não possuía moeda, e tentou passar. Um deles, que o examinava com atenção, lançou-se a abraçá-lo pela cintura e falou em castelhano claro. Perguntou se era possível ter nos braços o caro amigo e bom vizinho Sancho Pança. Sancho espantou-se de ouvir seu nome na boca de estrangeiro e não o reconheceu de imediato. O peregrino então revelou-se: era Ricote, o morisco tendeiro de sua aldeia. Só então Sancho distinguiu por baixo do disfarce aquele rosto conhecido e abraçou-o sem descer do jumento. Perguntou quem o vestira de farsante estrangeiro e como ousava voltar à Espanha, onde, se fosse conhecido, teria má fortuna.

Ricote respondeu que, se Sancho não o denunciasse, ninguém o conheceria naquela roupa. Propôs que se afastassem até uma alameda, onde seus companheiros comeriam e repousariam, e ali contaria o que lhe sucedera desde que obedeceu ao decreto que expulsara os de sua gente. Todos saíram do caminho real, tiraram as capas de peregrino e se puseram à vontade. Eram quase todos moços, exceto Ricote, já entrado em anos. As alforjas traziam alimentos que chamavam sede de longe: pão, sal, nozes, queijo, ossos de presunto para chupar, um manjar negro feito de ovas de peixe, azeitonas secas e, sobretudo, seis botas de vinho. Comeram devagar, com gosto; depois ergueram as botas ao céu e beberam longamente. Sancho, lembrando que em cada terra se faz como se vê, pediu a Ricote uma bota e tomou sua parte com o mesmo zelo dos demais.

Quando as botas ficaram secas e os companheiros adormeceram sobre a erva, Ricote chamou Sancho à parte. Contou que o decreto real causara terror entre os moriscos. Ele, julgando-se prudente, saíra antes da família para buscar lugar onde pudesse levá-la com menos aperto. Sabia que a ordem não ficaria em ameaça. Confessou também que muitos de sua gente tinham intenções ruins, de modo que entendia a resolução do rei, embora nem todos fossem culpados. A pena do desterro, suave para quem a via de fora, era para eles a mais dura possível. Em qualquer lugar choravam por Espanha, pátria onde haviam nascido; na África, onde esperavam acolhida, encontravam ofensas e maus-tratos. Só ao perder o bem se conhece seu valor, e o amor da pátria fazia muitos voltarem escondidos, deixando mulher e filhos.

Ricote passara por França, Itália e Alemanha. Num povoado perto de Augusta lhe parecera possível viver com mais liberdade, pois ali cada um seguia sua consciência com menos perguntas. Juntara-se depois àqueles peregrinos, que vinham à Espanha todos os anos visitar santuários e recolher esmolas, saindo do reino com bom lucro escondido em bordões, roupas e remendos. Agora pretendia buscar o tesouro que deixara enterrado fora da aldeia e escrever à mulher e à filha, ou passar até Valencia para encontrá-las, pois soubera que estavam em Argel. Queria levá-las para algum porto de França e depois para a Alemanha, esperando o que Deus determinasse. Afirmou que sua mulher Francisca e sua filha Ricota eram cristãs católicas; quanto a ele, tinha mais de cristão que de mouro e pedia a Deus que lhe abrisse o entendimento para servi-lo bem. O que o espantava era saber que as duas tinham ido para Berbéria em vez de França.

Sancho explicou que Juan Tiopieyo, irmão de Francisca, as levara, e como talvez fosse mouro mais fino, escolhera o destino que lhe pareceu melhor. Disse também que havia notícia de que tiraram da mulher e do cunhado muitas pérolas e ouro no registro. Ricote não se alarmou; seu verdadeiro esconderijo não fora revelado a ninguém. Pediu então que Sancho o ajudasse a retirar e ocultar o tesouro, prometendo duzentos escudos para remediar suas necessidades. Sancho recusou. Se fosse cobiçoso, não teria largado naquela manhã um cargo onde poderia enriquecer depressa. Além disso, ajudar inimigos do rei lhe parecia traição, ainda que o amigo lhe oferecesse o dobro em dinheiro contado.

Ricote perguntou que cargo era esse. Sancho respondeu que deixara de ser governador da ilha Baratária, situada a duas léguas dali. Ricote riu da ideia de ilha em terra firme e julgou tudo disparate. Sancho insistiu que governara a seu prazer e saíra por ser ofício perigoso. O ganho principal fora descobrir que não servia para governar senão um rebanho, e que as riquezas de governos custam descanso, sono e até sustento, principalmente quando há médicos zelando pela saúde. Ricote preferiu voltar ao assunto da família e perguntou se Sancho vira a partida de sua mulher, filha e cunhado. Sancho contou que Ricota saíra tão formosa que toda a aldeia fora vê-la, todos choraram com ela, e muitos desejaram escondê-la ou tomá-la de volta no caminho, mas o medo do mandado real os conteve. Disse ainda que dom Pedro Gregorio, rico herdeiro que a amava, desaparecera depois da partida, talvez seguindo-a para resgatá-la.

Ricote confessou que desconfiava do amor de Pedro Gregorio, mas confiava na filha, a quem julgava mais cristã que enamorada. Sancho desejou que Deus encaminhasse os dois, pois qualquer erro lhes sairia caro. Pediu licença para seguir, querendo alcançar naquela noite Dom Quixote. Ricote não insistiu. Os companheiros já se mexiam, e também era hora de retomar o caminho. Os dois amigos abraçaram-se. Sancho subiu no rucio, Ricote apoiou-se no bordão, e cada um seguiu por sua estrada, levando consigo uma espécie diferente de perda: o antigo governador, a liberdade reencontrada; o desterrado, a pátria que ainda chamava por dentro.

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