Capítulo 84 - O conto do zurro Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 84 de 133
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Capítulo 84 - O conto do zurro

Capítulo 84 - O conto do zurro

Dom Quixote chegou à venda com impaciência de quem carregava uma pergunta desde o caminho. Mal viu o homem das armas, pediu-lhe que contasse as maravilhas prometidas, pois lanças e alabardas não viajam sozinhas por capricho. O homem pediu tempo para cuidar do macho, e Dom Quixote, desejoso de apressar a narração, ajudou-o com humildade a pôr cevada e limpar o cocho. A boa vontade do cavaleiro ganhou a do condutor. Sentaram-se num banco da venda, tendo por ouvintes o primo, o pajem que iam alcançar, Sancho Pança, o vendeiro e alguns mais, e então começou a história que explicava por que um povo inteiro se armava por causa de um zurro.

Num lugar a poucas léguas dali, contou o homem, um regedor perdera seu jumento por engano de criada. Procurou-o durante dias sem achar sinal. Outro regedor disse tê-lo visto no monte, solto, magro e arredio. Os dois combinaram voltar juntos para buscá-lo. Quando entraram no mato e o animal não apareceu, um deles teve ideia que julgou excelente: cada um tomaria lado diferente do monte e, de trecho em trecho, zurraia com toda a arte, certo de que o jumento responderia se estivesse vivo por ali. O outro aceitou com entusiasmo, gabando-se também de possuir talento raro naquela música pouco nobre.

Separaram-se. Pouco depois, cada qual ouviu o zurro do outro e correu pensando haver encontrado o animal perdido. Quando se viram, perceberam o engano e começaram a elogiar mutuamente a perfeição do som. Um dizia que jamais ouvira coisa tão própria; o outro respondia que o compadre dava vantagem ao melhor zurreiro do mundo. Continuaram a busca com novo acordo: para não se confundirem, zurrariam duas vezes seguidas quando fossem eles, e uma só se por milagre o jumento respondesse. Assim andaram pelo monte inteiro, duplicando zurridos, chamando o animal morto sem saber que lobos já tinham feito dele triste refeição.

Ao encontrarem os restos, voltaram à aldeia cansados, roucos e desconsolados, porém cheios de elogios à habilidade um do outro. A história espalhou-se. Os lugares vizinhos começaram a receber os moradores daquele povoado com zurridos de escárnio. Primeiro foram rapazes, depois homens feitos, depois aldeias inteiras. A zombaria cresceu até virar afronta pública. Os ridicularizados passaram a sair armados contra os zombadores, e a cada novo encontro a coisa piorava. Por isso o homem da venda levava aquelas lanças e alabardas: seu povo, chamado agora povo do zurro, preparava-se para enfrentar outro lugar que mais os perseguia com a burla.

Sancho ouviu com atenção especial, porque habilidade de imitar jumento lhe parecia menos vergonhosa do que muitos vícios de gente bem vestida. Dom Quixote, por sua parte, viu no caso matéria para discurso sobre honra mal entendida, embora ainda não tivesse auditório suficiente para aplicar remédio. O condutor terminou dizendo que aquelas eram as maravilhas prometidas, e que, se não pareciam grandes, outras não trazia. Nesse momento entrou pela porta um homem vestido de camurça, com ar de dono de espetáculo, e perguntou se havia pousada para o macaco adivinho e para o retábulo da liberdade de Melisendra. O vendeiro ergueu a voz com alegria: Maese Pedro chegara, e a noite prometia divertimento.

Maese Pedro trazia um tapa-olho verde no rosto e falava com desembaraço de quem conhece vendas, moedas e curiosidade alheia. Logo depois apareceu o macaco, preso a seu ombro, pequeno e sério como se guardasse segredos. O vendeiro explicou que aquele animal respondia a perguntas sobre coisas passadas e presentes, embora nada dissesse do futuro. Bastava pôr dinheiro sobre a mesa, o macaco saltava ao ombro do dono, murmurava-lhe ao ouvido e Maese Pedro traduzia a resposta. Dom Quixote, ouvindo isso, sentiu o caso tocar sua aventura recente. Quis saber se o que vira na cova de Montesinos fora verdade ou sonho e se Dulcineia continuava encantada.

Maese Pedro, depois de consultar o macaco com cerimônia, respondeu que parte do caso da cova tinha verdade e parte trazia sombra de ilusão, e que por então bastava, pois não convinha apertar demais certos assuntos. Sobre Dulcineia, disse que a senhora permanecia encantada. Dom Quixote recebeu a resposta como confirmação de seus maiores temores. Sancho ficou inquieto, pois cada confirmação pública fazia crescer a mentira que ele próprio plantara. Maese Pedro, por sua vez, olhava os dois com atenção escondida. Parecia saber mais do que dizia. A venda se encheu de gente para ver o retábulo, e logo todos se acomodaram diante da pequena cena onde Melisendra seria libertada.

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