Capítulo 89 - A bela caçadora Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 89 de 133
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Capítulo 89 - A bela caçadora

Capítulo 89 - A bela caçadora

Depois da aventura do barco, Dom Quixote e Sancho deixaram a margem do Ebro com a roupa ainda pesada e o ânimo dividido. O cavaleiro lamentava o impedimento dos encantadores; o escudeiro lamentava o dinheiro do barco, os animais abandonados por instantes e a água que ainda lhe escorria onde nenhuma filosofia alcançava consolo. Caminharam até secar o que puderam. A tarde, porém, trouxe mudança de cenário. Num campo aberto, perto de bosque próprio para caça, viram bela senhora montada em cavalo vistoso, vestida de verde, com açor no punho esquerdo e aparência de grandeza tão clara que até Sancho percebeu que ali havia pessoa principal.

Dom Quixote parou como se a estrada lhe tivesse oferecido figura de romance. Ordenou a Sancho que fosse até ela, beijasse-lhe as mãos e dissesse que o Cavaleiro dos Leões se punha a seu serviço, pronto para cumprir qualquer mandado. O escudeiro, feliz por receber embaixada que talvez trouxesse melhor pousada que chão duro, ajeitou o rucio e aproximou-se da caçadora. Desceu com gesto cerimonioso, ajoelhou-se diante dela e começou a falar de seu amo com a gravidade que conseguia reunir. Antes que terminasse, a senhora perguntou se aquele cavaleiro era, por acaso, Dom Quixote de la Mancha, cuja história andava impressa.

Sancho abriu sorriso largo. Sim, era ele mesmo, e ele próprio era Sancho Pança, escudeiro famoso, antigo governador prometido e homem que também saía no livro, embora nem sempre com a dignidade que merecia. A senhora, que era duquesa, mostrou prazer verdadeiro diante da descoberta. Conhecia a história de ambos, divertira-se com suas aventuras e logo decidiu recebê-los com honras devidas à fantasia que os acompanhava. Pediu a Sancho que chamasse o amo. O duque, seu marido, caçava por perto. Ela mandou recado para que viesse, pois tinham diante dos olhos o cavaleiro e o escudeiro de quem tantos leitores falavam.

Dom Quixote se aproximou com solenidade extrema. Ao tentar descer de Rocinante para prestar reverência, prendeu o pé no estribo e quase caiu, causando a Sancho pressa e aflição. O escudeiro acudiu, o cavaleiro recompôs a dignidade e, já no chão, quis ajoelhar-se diante da duquesa. Ela não permitiu, tratando-o como cavaleiro de grande nome. Dom Quixote respondeu com palavras medidas, oferecendo-lhe armas, braço e serviço. A duquesa acompanhava a cena com contenção difícil, pois via diante de si exatamente aquilo que o livro prometia: um louco cerimonioso, um escudeiro falador e uma verdade cômica que se movia inteira, sem saber que servia de espetáculo.

O duque chegou logo depois. Sua mulher falou-lhe em particular, e ele compreendeu depressa o jogo possível. Ambos resolveram tratar Dom Quixote de acordo com as leis de sua própria imaginação, dando-lhe ambiente de castelo, títulos, cerimônias e reverências. Assim poderiam divertir-se com ele e com Sancho, sem precisar contrariar diretamente o engano. O duque recebeu o cavaleiro como se recebesse herói esperado. Chamou-o Cavaleiro dos Leões, ofereceu pousada em sua casa e perguntou por Dulcineia com respeito. Dom Quixote sentiu-se reconhecido em terra nobre. Sancho, que lia a hospitalidade pelo cheiro futuro da cozinha, sentiu que a sorte voltava a melhorar.

A comitiva preparou-se para seguir ao palácio dos duques. Sancho não cabia em si, porque a duquesa lhe perguntava coisas do livro e parecia achar graça em cada resposta. Contou-lhe da ilha prometida, das pancadas sofridas, da manta, do rucio, dos encantamentos e de Dulcineia mudada em lavradora. A duquesa escutava como quem recebe personagem saído de página e disposto a continuar a história diante dela. Dom Quixote seguia ao lado do duque, cheio de contentamento grave, certo de que sua fama finalmente encontrava grandes senhores capazes de compreendê-la. Nenhum dos dois viajantes percebia que entravam numa casa onde a leitura do livro se tornaria máquina de novas burlas.

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