Capítulo 96 - A entrada da Dolorida
Capítulo 96 - A entrada da Dolorida
O duque e a duquesa viram com satisfação que Dom Quixote recebia a aventura preparada com inteira gravidade. A cada resposta do cavaleiro, a farsa ganhava mais firmeza, e Sancho, que já sentia o governo prometido como coisa quase posta em sua mão, começou a temer que a nova dueña viesse pôr tropeço em seu caminho. Disse ter ouvido de um boticário toledano, homem de fala doce e língua solta, que onde entravam dueñas raramente saía coisa boa. Se as comuns já davam trabalho, imaginava ele, que seria de uma dueña dolorida, e ainda por cima chamada Trifaldi, nome que em sua aldeia soava a três saias, três caudas e três cuidados.
Dom Quixote mandou-o calar com brandura severa. A senhora vinha de terras longínquas em busca de socorro, e isso bastava para tirá-la do número das dueñas aborrecidas pelo boticário. Além disso, era condessa; se servia como dueña, devia servir a rainhas e imperatrizes, em casas onde uma pessoa principal podia ter outra pessoa principal a seu serviço. Doña Rodríguez, que estava presente, tomou a defesa de sua classe. Disse que a duquesa possuía criadas capazes de ser condessas se a fortuna as tivesse ajudado, e pediu que ninguém falasse mal das dueñas antigas e donzelas, pois ainda havia virtude em muita toca branca e muito monjil negro.
Sancho respondeu que, segundo seu barbeiro, havia tanto a tosquiar naquele assunto que melhor seria deixar o arroz quieto, mesmo grudado no fundo. Doña Rodríguez inflamou-se. Os escudeiros, declarou, sempre foram inimigos de dueñas, pois vivem nas antecâmaras, veem tudo, rezam pouco e gastam o resto do tempo murmurando. Jurou que, se tivesse ocasião, provaria ali e ao mundo inteiro que muita honra se guarda debaixo de um pano austero. A duquesa interveio com riso medido, reconhecendo razão em sua criada e prometendo-lhe tempo oportuno para responder ao boticário e à opinião de Sancho.
Sancho, já com fumaças de governador, afirmou que perdera os enjoos de escudeiro e que pouco lhe importavam todas as dueñas juntas. A conversa prosseguiria nesse fio se o pífaro e os tambores não tornassem a soar com o mesmo peso fúnebre da entrada anterior. Entenderam todos que a Dolorida chegava. A duquesa perguntou ao duque se convinha ir recebê-la, pois era condessa e pessoa de consideração. Sancho, antes de qualquer resposta do dono da casa, opinou que pela parte de condessa merecia recepção, porém pela parte de dueña ninguém precisava mover um passo.
Dom Quixote perguntou quem o metia naquela decisão. Sancho respondeu que se metia por haver aprendido os termos da cortesia na escola do amo, o mais cortês e bem-criado cavaleiro de toda a cavalaria. Nessas matérias, segundo aprendera, tanto se perde por carta demais quanto por carta de menos, e ao bom entendedor bastam poucas palavras. O duque achou graça e aceitou a prudência torta do escudeiro: veriam primeiro o porte da condessa e por ele mediriam a cerimônia. Nesse instante os músicos entraram pelo jardim, e com eles começou a nova parte da aventura, tão notável que o próprio narrador preferiu encerrar breve capítulo e abrir outro para acompanhá-la.