Capítulo 28 - A penitência na serra Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 28 de 133
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Capítulo 28 - A penitência na serra

Capítulo 28 - A penitência na serra

Depois do encontro com Cardenio, Dom Quixote ficou tomado por uma ideia nova e antiga ao mesmo tempo. A dor do homem da serra, partida entre Lucinda e Fernando, acendeu nele lembranças de todos os cavaleiros que haviam enlouquecido por amor. Se outros amantes se retiraram ao deserto para provar fidelidade, ele também poderia fazer de Serra Morena um teatro de sofrimento voluntário.

Sancho percebeu o perigo antes que ele tomasse forma. Sempre que o amo ficava quieto demais, alguma desgraça conceitual estava nascendo. E nasceu. Dom Quixote anunciou que faria penitência por Dulcineia del Toboso. Nenhuma ofensa de Dulcineia provocava aquilo; grandes cavaleiros, segundo ele, não precisavam de razão comum para sofrer. Bastava a grandeza do sentimento e a conveniência da fama.

Sancho arregalou os olhos. Achava compreensível enlouquecer por pancadas, fome, pedras ou dívidas. Enlouquecer por escolha parecia desperdício de sanidade. Perguntou se Dulcineia fizera algo contra ele. Dom Quixote respondeu que justamente aí estava o primor: sofrer sem causa era prova mais alta de amor, pois demonstrava que a vontade do cavaleiro bastava para erguer a própria aventura.

O cavaleiro citou Amadis, Orlando e outros nomes que Sancho recebia como quem ouve moedas de país distante. Explicou que alguns amantes ficavam mansos e chorosos; outros rasgavam roupas, batiam em árvores, falavam com ausentes e confundiam o mundo com o teatro da própria paixão. Ele escolheria um modo adequado: nem tão furioso que perdesse a compostura, nem tão brando que parecesse pouco devoto.

Sancho tentou negociar. Sugeriu que a penitência fosse curta, talvez simbólica, e que depois seguissem para lugar com comida. Dom Quixote recusou. A serra, os papéis de Cardenio, a solidão e a própria tristeza de sua figura pediam gesto memorável. Precisava que Dulcineia soubesse de tudo. Para isso, Sancho seria enviado a Toboso com uma carta.

A missão assustou o escudeiro por vários motivos. Primeiro, porque Toboso parecia longe. Segundo, porque ele não conhecia Dulcineia como dama de castelo, e sim como Aldonza Lorenzo, mulher muito mais real que as fantasias do amo. Terceiro, porque deixar Dom Quixote sozinho numa serra, decidido a enlouquecer metodicamente, parecia receita para encontrar na volta apenas ossos, discursos ou ambos.

Dom Quixote, indiferente às dúvidas práticas, pediu papel. Como não havia bom material, serviram-se do que tinham entre os achados e restos da aventura. O cavaleiro ditou uma carta cheia de reverência, dor e nomes altos. Chamava Dulcineia de senhora de sua alma, luz de sua tristeza, causa de sua glória e destinatária de todos os seus sofrimentos. Sancho escutava tentando guardar o essencial: dizer a ela que o amo estava no mato, fazendo loucuras por amor.

Além da carta, Dom Quixote entregou a Sancho instruções minuciosas. Deveria observar o rosto de Dulcineia ao receber a notícia, notar se empalidecia, se suspirava, se sorria, se perguntava por ele com ternura. Deveria voltar depressa e relatar tudo. Sancho prometeu, embora soubesse que a realidade raramente executava gestos tão bem coreografados.

Então veio a demonstração. Dom Quixote decidiu mostrar ao escudeiro algumas provas da penitência, para que Sancho pudesse descrevê-las com autoridade. Largou parte das armas, moveu-se entre pedras, falou alto com árvores, invocou Dulcineia e começou gestos tão estranhos que Sancho sentiu vergonha por ambos, embora não houvesse mais ninguém olhando. A serra, paciente, recebeu o espetáculo sem aplauso.

Sancho pediu que bastasse. Já tinha visto o suficiente para jurar que o amo estava sofrendo muito, ou pelo menos trabalhando seriamente para parecer que sofria. Dom Quixote concordou em deixá-lo partir, mas reforçou que a mensagem devia ser entregue com fidelidade. A sorte de sua penitência dependeria da resposta de Dulcineia.

Antes de sair, Sancho certificou-se de levar o asno, algum rumo e a carta. Olhou para Dom Quixote uma última vez: magro, armado pela metade, solene entre rochas, pronto para fabricar dor onde já havia dor bastante. Sentiu ternura e irritação ao mesmo tempo. O amo era impossível, mas era seu amo.

Sancho desceu pela serra em busca de Toboso, ou de alguém que o ajudasse a entender o caminho. Dom Quixote ficou só, entregue ao vento, às pedras e à própria imaginação. Pela primeira vez em muitas jornadas, não corria atrás de aventura externa. Sentava-se dentro de uma aventura inventada por completo, com Dulcineia ao centro e a serra por testemunha.

Enquanto o escudeiro se afastava, a solidão cresceu ao redor do cavaleiro. Cardenio rondava em algum ponto da montanha, Lucinda e Fernando assombravam os papéis, e Dulcineia, ausente como sempre, reinava sobre tudo sem saber. Serra Morena tornava-se assim um lugar onde cada amor enlouquecia à sua maneira.

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