Capítulo 114 - Sancho na sima
Capítulo 114 - Sancho na sima
A conversa com Ricote atrasou Sancho, e a noite o alcançou quando ele já estava perto do castelo dos duques. Como o verão lhe dava algum favor, afastou-se da estrada para esperar a manhã entre umas ruínas antigas, escolhendo lugar onde pudesse descansar sem importunar pessoa alguma. A sorte, que naquele dia parecia divertir-se à sua custa, abriu-lhe debaixo dos pés uma sima funda e escura. Ele e o rucio caíram juntos, e Sancho, enquanto descia, encomendou-se a Deus com a convicção de que só pararia no mais baixo dos abismos. A queda, contudo, terminou antes do que temia: o jumento bateu primeiro, ele ficou por cima, e ambos escaparam sem morte, embora o pobre animal se queixasse com razão.
Sancho apalpou braços, pernas e costelas, examinando-se como quem procura buracos por onde a vida pudesse escapar. Ao perceber que estava inteiro, agradeceu ao céu, depois apalpou as paredes e descobriu que eram lisas demais para oferecer saída. Ali começou sua lamentação, comparando a própria sorte com a de seu amo na cova de Montesinos. Dom Quixote, segundo Sancho, encontrara mesas servidas, visões de damas e encantamentos solenes; ele, antigo governador de Baratária, via-se enterrado com seu jumento, ameaçado de fome, sapos e cobras. Falou ao rucio como a um companheiro de armas, pediu perdão pelos maus pagamentos que lhe dava, prometeu-lhe melhor ração e até uma coroa de louro, caso a fortuna os tirasse vivos daquele buraco.
A manhã mostrou a Sancho a extensão do aperto. Gritou por socorro e ninguém respondeu, pois aquelas ruínas ficavam sem moradores por perto. Achando nas alforjas um pedaço de pão, repartiu-o com o rucio e repetiu que todos os duelos ficam menos duros quando há pão para roer. Então viu, numa das paredes, um buraco por onde uma pessoa poderia passar se se encolhesse. Entrou nele, percebeu que a gruta se alargava por dentro e voltou para abrir a passagem com uma pedra, tirando terra suficiente para que o jumento também coubesse. Tomou-o pelo cabresto e seguiu por aquela galeria ora escura, ora clareada por algum raio de sol, sempre com medo de que outra fenda se abrisse sob seus pés.
Enquanto Sancho avançava por baixo da terra, Dom Quixote se exercitava perto dali para o combate que teria em defesa da filha de doña Rodríguez. Deu uma carreira em Rocinante e por pouco não caiu numa abertura da mesma gruta. Ao aproximar-se, ouviu uma voz que pedia auxílio a qualquer cristão caridoso capaz de socorrer um governador desgovernado, enterrado ainda em vida. O cavaleiro reconheceu o timbre de Sancho e, por um instante, acreditou falar com a alma do escudeiro. Conjurou a voz a dizer se vinha do purgatório e prometeu interceder com todos os bens que lhe restassem. Sancho, impaciente com tanta solenidade, respondeu que estava vivo, que deixara o governo e que ali jazia com o rucio, o qual logo confirmou a declaração com um zurro que encheu a caverna.
Dom Quixote correu ao castelo e contou o caso aos duques, que se admiraram menos da queda do que da volta inesperada do governador. Mandaram buscar cordas e homens, e com muito trabalho trouxeram Sancho e o rucio da sombra para a luz. Um estudante que assistia à cena disse que assim deveriam sair de seus cargos todos os maus governadores: famintos, descorados e sem dinheiro. Sancho respondeu que em Baratária passara oito ou dez dias sem fartura, perseguido por médicos, moído por inimigos e sem ocasião de receber suborno, de modo que, se o julgassem, preferia ser tido por tolo a ser tido por ladrão. Dom Quixote aconselhou-o a deixar as línguas correrem, pois tentar calar maledicentes era tão inútil quanto pôr portas no campo.
Chegaram ao castelo cercados de rapazes e curiosos. Sancho, antes de subir aos corredores onde os duques esperavam, exigiu que o rucio fosse acomodado na estrebaria, por entender que o companheiro havia passado a pior noite da viagem. Depois apresentou-se de joelhos e fez a prestação de contas de seu governo. Disse que entrara nu em Baratária e nu saíra dela, sem perder nem ganhar; que julgara pleitos, resolvera dúvidas, aguentara a fome imposta pelo doutor Pedro Recio, vira inimigos atacarem a ilha e concluíra que governar pesava mais do que suas costelas podiam carregar. Por isso saltava fora do cargo e voltava ao serviço de Dom Quixote, onde ao menos comeria, ainda que fosse com sobressaltos. O duque prometeu outro ofício de menor peso e maior proveito, a duquesa mandou tratá-lo com cuidado, e Sancho recebeu o descanso como quem acabara de escapar de dois governos: o dos homens e o das cavernas.