Capítulo 13 - O caminho ao enterro Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 13 de 133
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Capítulo 13 - O caminho ao enterro

Capítulo 13 - O caminho ao enterro

Ao amanhecer, a serra parecia ter guardado no frio da manhã a história de Grisóstomo. Os cabreiros se moveram cedo, com a gravidade de quem vai a um enterro e também a um acontecimento. Dom Quixote montou Rocinante com solenidade; Sancho ajeitou o jumento e os alforjes; e ambos seguiram com os homens da montanha pelo caminho que levava ao lugar escolhido pelo morto.

Grisóstomo pedira para ser enterrado no campo onde vira Marcela pela primeira vez. Havia nisso uma fidelidade poética e uma violência silenciosa: mesmo morto, ele tentava fixar a mulher livre ao ponto exato de sua própria paixão. Dom Quixote escutou essa notícia com atenção, sentindo que a aventura pedia juízo antes de espada. Naquele caminho, todos pareciam levar uma sentença pronta no peito.

Sancho seguia menos filosofico. A manhã era fria, o chão irregular, e enterros não costumavam oferecer boa comida. Ainda assim, percebia que havia ali matéria perigosa. Quando muitos homens se juntam para falar de uma mulher ausente, pensava ele, alguma injustiça pode nascer antes mesmo que alguém puxe uma faca.

No caminho, encontraram dois viajantes de boa aparência, acompanhados de criados. Um deles chamava-se Vivaldo. Ao ver Dom Quixote armado dos pes a cabeça, com escudo, espada e figura de outro século, não conseguiu esconder a curiosidade. Perguntou aos cabreiros quem era aquele homem tão singular. A resposta veio misturada de riso e respeito: era cavaleiro andante, ou ao menos assim se tinha por certo.

Vivaldo aproximou-se com cortesia e perguntou a Dom Quixote por que viajava daquela maneira, armado em tempos tão pouco dados a gigantes, encantadores e castelos. O cavaleiro recebeu a pergunta como convite nobre. Endireitou-se na sela e explicou que pertencia a ordem da cavalaria andante, instituição superior a todas as comodidades modernas, porque existia para socorrer fracos, castigar soberbos, proteger donzelas e endireitar os tortos caminhos do mundo.

Vivaldo, homem instruido e inclinado ao prazer da conversa, percebeu que ali havia loucura, mas também uma especie de arquitetura moral. Em vez de zombar abertamente, puxou o fio. Perguntou se aquela vida era mais dura que a dos monges e religiosos, que abandonavam o conforto por disciplina espiritual. Dom Quixote respondeu que a cavalaria exigia ainda mais, pois o cavaleiro jejuava, sangrava, caminhava por desertos, dormia ao relento e ainda precisava estar pronto para morrer em nome de causas alheias.

Sancho ouviu a comparação com cuidado. Se ser escudeiro era participar daquela ordem, ele preferia que a parte da santidade ficasse para o amo e a parte das refeições para si. Mas Vivaldo continuou. Disse que muitos santos encomendavam-se a Deus antes de seus trabalhos, enquanto cavaleiros dos livros costumavam encomendar-se a suas damas. Não seria estranho, perguntou, trocar a proteção divina pelo nome de uma mulher?

Dom Quixote quase se ofendeu. Explicou que o cavaleiro cristão podia honrar Deus e, ao mesmo tempo, servir sua dama, pois sem dama não havia cavalaria verdadeira. A dama era norte, testemunha, prêmio e medida da honra. Um cavaleiro sem amor seria corpo sem alma, espada sem braco, caminho sem destino. E a sua dama, acrescentou, era Dulcineia del Toboso, senhora de beleza incomparável.

Vivaldo pediu que descrevesse essa Dulcineia. Dom Quixote falou com a abundância de quem não descreve uma pessoa, mas ergue um altar. Disse que sua beleza reunia tudo o que os poetas tinham distribuido por muitas mulheres: cabelos de ouro, fronte de campo claro, olhos de sol, faces de rosa, dentes de perola, colo de alabastro. Quanto mais falava, mais Dulcineia se afastava da aldeia real e entrava no territorio onde as palavras fabricam sua própria verdade.

Sancho, que sabia de onde vinha Aldonza Lorenzo e conhecia melhor que ninguém a distância entre uma camponesa forte e uma dama celestial, mexeu-se no jumento, mas ficou calado. Já aprendera que algumas mentiras do amo tinham a fragilidade de vidro e a resistência de pedra. Corrigi-las era inutil; pior, podia fazer falta. O mundo de Dom Quixote precisava daquela luz, mesmo que ela nascesse de palha comum.

A conversa seguiu até que chegaram ao vale marcado para o enterro. Ali já se juntavam pastores, curiosos e amigos de Grisóstomo. O lugar tinha beleza suficiente para justificar a memória do morto: árvores, sombra, pedras claras e uma tristeza espalhada pelo ar. No centro, preparavam a cova. Ao lado, traziam o corpo de Grisóstomo, envolto em sinais de luto e acompanhado por papéis, versos e homens dispostos a transformar sua dor em prova contra Marcela.

Ambrosio estava entre eles. Seu rosto trazia o cansaço de quem chorara e o orgulho de quem se acredita guardião de uma verdade. Quando viu os recem-chegados, não se importou com a estranheza de Dom Quixote. Toda a sua atenção pertencia ao amigo morto. Falou de Grisóstomo como de alguém vencido pela crueldade de Marcela, e cada palavra parecia apertar mais o cerco contra uma mulher que ainda não estava ali para responder.

Vivaldo viu alguns papéis destinados ao fogo, versos que Grisóstomo deixara. Pediu que não os queimassem antes de serem lidos. Ambrosio hesitou. A vontade do morto devia ser respeitada, mas a curiosidade dos vivos sempre encontra um modo de se vestir de homenagem. Por fim, permitiu que alguns textos fossem guardados e lidos, como se a voz do morto ainda tivesse direito de acusar o mundo uma última vez.

Dom Quixote observava tudo em silêncio raro. O enterro tinha a forma de tribunal, mas faltava a acusada. Havia corpo, amigos, poemas, testemunhas e uma narrativa pronta: Marcela seria a causa da ruína. O cavaleiro, que tantas vezes inventara injustiças onde havia apenas estrada, agora encontrava uma injustiça possível diante dos olhos. Pela primeira vez naquele arco, sua loucura talvez pudesse servir a lucidez.

Sancho percebeu que o dia ainda renderia discurso, confusão e talvez perigo. Olhou para Marcela ausente, como se fosse possível ver alguém pelo tamanho da fala que os outros fazem dela. O enterro de Grisóstomo estava prestes a começar, mas outra coisa também se preparava: não apenas a despedida de um homem morto de amor, e sim a disputa pelo direito de uma mulher não amar de volta.

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