Capítulo 132 - Agouros na volta
Capítulo 132 - Agouros na volta
Na entrada da aldeia, Dom Quixote viu dois meninos brigando nas eiras. Um dizia ao outro que não se cansasse, pois nunca mais a veria em todos os dias de sua vida. O cavaleiro tomou a frase como sinal dirigido ao próprio coração e disse a Sancho que aquelas palavras anunciavam que ele jamais veria Dulcineia. Sancho tentou desfazer o medo, perguntando o que importava a fala de um menino em disputa. Antes que pudesse avançar, uma lebre perseguida por galgos e caçadores veio esconder-se junto ao rucio. Dom Quixote tomou novo presságio: lebre fugindo, cães seguindo, Dulcineia sem aparecer. Sancho, mais firme que o amo, interpretou ao contrário. Se a lebre fosse Dulcineia e os galgos fossem encantadores, ele a pegara com as mãos e a entregava ao cavaleiro; melhor sinal não se podia pedir.
Os meninos aproximaram-se para ver a lebre, e Sancho perguntou o motivo da briga. O que dissera a frase agourenta explicou que tomara do outro uma gaiola de grilos e não pensava devolvê-la em toda a vida. Sancho tirou moedas da bolsa, comprou a gaiola e a pôs nas mãos de Dom Quixote, dando por rompidos todos os presságios. Lembrou ainda que o próprio cavaleiro já ensinara, no encontro das imagens de santos, que pessoas discretas não se guiam por agouros sem razão natural. Chegaram os caçadores, receberam a lebre de volta, e os dois seguiram. À entrada do lugar encontraram o cura e o bacharel Carrasco num pequeno prado. Sancho trazia sobre o rucio, cobrindo o fardo das armas, a túnica pintada de chamas usada na ressurreição de Altisidora, e ainda pusera a coroza na cabeça do animal.
O cura e o bacharel reconheceram os viajantes e vieram abraçá-los. Os meninos da aldeia, atentos a tudo, correram em redor do rucio adornado, gritando que o asno de Sancho vinha mais galante que nunca e que a montaria de Dom Quixote estava ainda mais magra que no primeiro dia. Cercados de rapazes e acompanhados pelos amigos, foram até a casa do fidalgo. À porta esperavam a ama e a sobrinha, já avisadas da chegada. Teresa Pança também acudiu, descabelada e mal composta, trazendo Sanchica pela mão. Viu o marido a pé, cansado e pouco parecido com governador, e perguntou por que vinha com cara de desgobernado. Sancho mandou que se calasse por enquanto: em casa ouviria maravilhas. O que importava era o dinheiro que trazia, ganho por sua indústria e sem dano de ninguém.
Teresa aceitou a explicação essencial. Trazendo dinheiro, pouco lhe importava por onde viera, pois o mundo já vira muitas formas de ganhar. Sanchica abraçou o pai e perguntou se havia lembrança para ela, esperando-o como água de maio. A mulher tomou Sancho pela mão, a filha puxou o rucio, e todos foram para casa. Dom Quixote ficou na sua, entregue aos cuidados da ama e da sobrinha e à companhia do cura e do bacharel. Sem guardar termos nem horas, chamou os dois amigos à parte e contou em poucas palavras a derrota sofrida, a obrigação de permanecer um ano na aldeia e sua decisão de cumprir a promessa como cavaleiro pontual. Durante esse período, desejava fazer-se pastor, comprar rebanho e viver pelos campos, dando curso honesto aos pensamentos amorosos.
Explicou que o principal do plano já estava pronto, pois escolhera os nomes: ele seria o pastor Quijótiz; o bacharel, Carrascón; o cura, Curiambro; Sancho, Pancino. Os amigos pasmaram diante da nova loucura, mas aceitaram a ideia para evitar que ele voltasse às armas antes do tempo. Sansão, entrando no jogo, lembrou que era poeta célebre e poderia compor versos pastorais ou cortesãos conforme a ocasião. O cura sugeriu que escolhessem pastoras de nomes adequados; Dom Quixote dispensou qualquer invenção, pois tinha Dulcineia, glória de todas as ribeiras e prados. O bacharel ofereceu nomes de tradição literária, e até propôs Teresaina para Teresa Pança. Riram, aprovaram a resolução como honesta e pediram ao fidalgo que cuidasse da saúde.
A sobrinha e a ama ouviram tudo. Assim que o cura e o bacharel saíram, entraram aflitas. A sobrinha perguntou se, justamente quando esperavam vê-lo quieto em casa, ele queria entrar em novo labirinto, tornando-se pastor de cantiga. A ama foi mais prática: campo tem sol de verão, sereno de inverno e uivo de lobos; se fosse para escolher mal por mal, melhor cavaleiro andante que pastor velho. Aconselhou-o a ficar em casa, cuidar da fazenda, confessar-se muitas vezes e favorecer os pobres. Dom Quixote mandou que se calassem com doçura, dizendo saber o que lhe convinha. Pediu que o levassem ao leito, pois não se achava bem, e prometeu que, cavaleiro ou pastor, nunca deixaria de acudir ao que elas necessitassem. As duas boas mulheres o deitaram, deram-lhe comida e fizeram o possível para regalá-lo.