Capítulo 56 - O cabreiro e Leandra Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 56 de 133
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Capítulo 56 - O cabreiro e Leandra

Capítulo 56 - O cabreiro e Leandra

Ainda longe da aldeia, quando a conversa do cônego sobre livros deixara os homens pensativos e a carreta seguia com a lentidão dos bois, apareceu junto ao caminho um cabreiro de rosto queimado, roupa pobre e maneiras menos rudes do que prometia a primeira vista. Trazia consigo uma cabra desgarrada, a quem repreendia com palavras amargas, como se o animal pudesse entender culpas humanas. O cura pediu que se aproximasse e descansasse um pouco. O cabreiro aceitou a água, o pão e a atenção dos viajantes; depois, percebendo que todos haviam escutado suas queixas contra a cabra, explicou que aquela aspereza vinha de uma história antiga, ainda aberta dentro dele.

Disse chamar-se Eugênio e ser de uma aldeia próxima, rica o bastante para que nela houvesse lavradores com honra, fazendas bem cuidadas e filhas guardadas com zelo. Entre essas filhas vivia Leandra, moça de beleza tão comentada que os pretendentes vinham de lugares distantes para vê-la e pedi-la em casamento. O pai, homem prudente e orgulhoso, tinha bens e nome, e desejava entregar a filha a quem pudesse respeitar sua casa. Eugênio a amava, e Anselmo, seu vizinho e rival, também a queria. Ambos tinham idade, patrimônio e crédito suficientes para alimentar esperança. O pai de Leandra, sem querer ferir nenhum deles, deixou a escolha à vontade da moça, adiando a resposta até que ela pudesse decidir com juízo.

Foi então que voltou à aldeia Vicente de la Roca, soldado que saíra menino e regressava coberto de cores, fitas, correntes miúdas e bravatas. Trazia roupas vistosas, uma guitarra, canções de sua lavra e histórias de batalhas que ninguém podia comprovar. Sentava-se na praça, debaixo de uma árvore, e falava de cidades italianas, duelos, capitães, perigos vencidos e feridas invisíveis com uma segurança que fazia os rapazes rirem e as mulheres escutarem das janelas. A aldeia inteira sabia que havia mais aparência do que prova naquele aparato, porém o brilho basta muitas vezes para ferir olhos que ainda não aprenderam a desconfiar. Leandra ouviu as canções, viu as roupas, acolheu as promessas e se deixou levar pela figura do soldado.

Uma noite, antes que Eugênio ou Anselmo soubessem que seu destino já mudara, Leandra saiu de casa levando dinheiro e joias do pai. Vicente prometera conduzi-la a Nápoles, cidade que ele pintava como porta de grandeza e prazer. Durante três dias a aldeia procurou pelos caminhos, pelas matas e pelos montes, até que a encontraram numa cova, despojada das riquezas que levara, vestida apenas com a roupa mais pobre que lhe restara e deixada ali pelo homem que prometera casamento. Leandra confessou o engano sem tortura nem rodeio. Disse que Vicente tomara seus bens e fugira, embora tivesse poupado sua honra. O pai, ferido pela vergonha e ainda mais pela piedade, levou a filha para um mosteiro próximo, esperando que o tempo apagasse parte do falatório.

Desde então, contou Eugênio, a aldeia se enchera de homens que culpavam Leandra, defendiam Leandra, chamavam-na leviana, chamavam-na enganada, pediam justiça contra Vicente e, ao mesmo tempo, continuavam presos à imagem da moça ausente. Anselmo recolheu-se aos montes com suas ovelhas. Eugênio fez o mesmo com suas cabras. Outros pretendentes copiaram a retirada dos dois, e aqueles campos viraram abrigo de amores feridos, cantigas repetidas, queixas contra mulheres e promessas quebradas. O nome de Leandra corria de boca em boca entre pedras, árvores e ribeiros, carregado por homens que a adoravam enquanto a acusavam. Eugênio, envergonhado de sua própria paixão e incapaz de vencê-la, passou a despejar em palavras contra as cabras a cólera que não conseguia entregar a Vicente nem a si mesmo.

Quando terminou, ofereceu aos viajantes leite, queijo e frutas de sua malhada, pois podia ser infeliz sem perder a cortesia. O cônego elogiou a ordem do relato e disse que os montes também criavam homens discretos. Sancho ouviu a história com a mão no queixo, desconfiado de soldados muito coloridos e de promessas que cabiam melhor na boca do que na bolsa. Dom Quixote, por sua vez, recebeu o caso como se Leandra ainda estivesse pedindo socorro atrás de alguma grade injusta. A jaula que o prendia pareceu-lhe por um momento menos importante que o mosteiro onde imaginava uma donzela retida. Seus olhos ganharam novo lume, e o cura percebeu, tarde demais, que a história do cabreiro ainda podia virar aventura.

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