Capítulo 61 - Sancho à porta da casa Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 61 de 133
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Capítulo 61 - Sancho à porta da casa

Capítulo 61 - Sancho à porta da casa

As vozes vinham da porta, onde a ama e a sobrinha seguravam Sancho Pança como se segurassem uma doença conhecida. Chamavam-no de saco de más ideias, acusavam-no de ter levado o amo por estradas de pancada, fome e vergonha, e mandavam que voltasse para sua lavoura, sua mulher e seus pobres alforjes. Sancho, vermelho de indignação e poeira, respondia que o levado fora ele, e que Dom Quixote o tirara de casa com promessa de governo, ilha, honra e mesa farta. A sobrinha perguntou se ilha era coisa de comer. Sancho replicou que era coisa de mandar, e que mandaria melhor numa ilha do que muitos mandavam em lugares maiores.

O cura e o barbeiro ouviram aquela disputa com riso contido, porém Dom Quixote temeu que Sancho soltasse verdades capazes de arranhar sua honra diante das mulheres. Chamou-o pelo nome, ordenou silêncio à ama e à sobrinha e fez entrar o escudeiro. O cura e o barbeiro se despediram logo depois, levando no rosto a certeza de que a casa recuperara o corpo do fidalgo sem recuperar o sossego. Do lado de fora, o cura disse ao compadre que, quando menos esperassem, o cavaleiro tornaria a levantar voo. O barbeiro concordou, acrescentando que a loucura do amo encontrara na esperança do escudeiro um companheiro feito da mesma madeira.

Quando ficaram a sós, Dom Quixote censurou Sancho por haver dito às mulheres que fora arrancado de casa. Lembrou-lhe que ambos haviam saído juntos, sofrido juntos e recebido fortuna comum, ainda que as pancadas coubessem mais vezes ao cavaleiro. Sancho aceitou parte da conta, embora recordasse que, quando o mantearam, a cabeça da companhia ficara atrás do muro, vendo os membros voarem sem repartir a dor. Dom Quixote respondeu com latim, explicou que, se a cabeça padece, todo o corpo padece com ela, e chamou Sancho de parte sua, criado seu e companheiro de fadiga. Sancho ouviu a doutrina com respeito prático, desses que concordam enquanto guardam o recibo da experiência.

Depois, Dom Quixote pediu a notícia que mais lhe importava: queria saber o que se dizia dele na aldeia, entre gente comum, hidalgos e cavaleiros. Ordenou que Sancho falasse sem adorno, sem medo e sem lisonja, porque a verdade, quando chega nua aos ouvidos dos grandes, vale mais que ouro trabalhado. Sancho avisou que obedeceria, desde que o amo prometesse não se zangar. A promessa foi dada. Então o escudeiro abriu a sacola das opiniões: o povo chamava Dom Quixote de grandíssimo louco e Sancho de mentecato; os hidalgos diziam que um homem de pouca terra e pouca renda se metera a cavaleiro com mais nome do que cabedal; outros reconheciam coragem, graça e cortesia, ainda que cada louvor viesse acompanhado de alguma pancada verbal.

Dom Quixote recebeu aquelas censuras como recebem os vaidosos as injúrias que conseguem transformar em prova de grandeza. Disse que toda virtude eminente sofre perseguição, citou capitães e heróis antigos acusados por línguas menores, e pediu que Sancho continuasse. O escudeiro então trouxe a notícia maior: chegara à aldeia o bacharel Sansón Carrasco, filho de Bartolomé Carrasco, vindo dos estudos de Salamanca, e ele afirmava que já andava impresso em livro o relato das aventuras de Dom Quixote, com Sancho Pança nomeado ali pelo próprio nome, Dulcineia citada e casos secretos postos em letras para todos lerem. O cavaleiro ficou imóvel, tomado por assombro e vaidade.

Para explicar tamanho prodígio, Dom Quixote concluiu que o autor devia ser algum sábio encantador, pois só criaturas assim conhecem o que se passa em quartos fechados, caminhos perdidos e pensamentos escondidos. Sancho respondeu que o bacharel dera nome ao tal autor: Cide Hamete Berenjena. Dom Quixote corrigiu a rusticidade do escudeiro, dizendo que Cide soava a título mourisco e que Sancho talvez tivesse torcido o sobrenome. Sancho, pouco amigo de sutilezas quando havia novidades à mesa, ofereceu-se para buscar o bacharel em pessoa. Dom Quixote aceitou com urgência. Enquanto Sancho saía, o cavaleiro ficou diante da notícia como homem que acaba de descobrir que sua vida deixou de pertencer apenas a seus ossos.

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