Capítulo 103 - A partida de Sancho e a janela Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 103 de 133
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Capítulo 103 - A partida de Sancho e a janela

Capítulo 103 - A partida de Sancho e a janela

Cide Hamete, ao chegar a esta altura, queixou-se da estreiteza de escrever sempre sobre Dom Quixote e Sancho, sem poder abrir novelas soltas como fizera na primeira parte. Reconhecia que histórias à parte davam descanso ao autor e variedade ao leitor, mas nesta segunda saída preferia episódios nascidos dos próprios sucessos, limitados ao necessário, para que ninguém desprezasse seu trabalho nem deixasse de louvar também o que ele soubera deixar fora. Assim prosseguiu a narração: depois de comer, Dom Quixote entregou a Sancho os conselhos por escrito. O papel caiu nas mãos do duque, que o leu com a duquesa, e ambos se admiraram outra vez da mistura de juízo e desvario. Na mesma tarde, enviaram Sancho com grande acompanhamento ao lugar que lhe serviria de ilha.

O encarregado de conduzi-lo era o mordomo do duque, homem discreto e gracioso, o mesmo que representara a condessa Trifaldi. Assim que Sancho o viu, reconheceu naquele rosto a Dolorida. Disse a Dom Quixote que ou o diabo o levasse naquele instante, justo e crente, ou o amo confessasse que a cara do mordomo era a mesma da condessa. Dom Quixote olhou e respondeu que o rosto podia ser igual sem que o mordomo fosse a Dolorida; afirmar o contrário criaria contradição grande, matéria imprópria para a hora. Melhor seria pedir a Deus que os livrasse de maus encantadores. Sancho calou, mas prometeu andar atento a qualquer sinal que confirmasse ou desfizesse a suspeita.

Partiu vestido a modo de letrado, com largo gabão de chamelote leonado e montera da mesma fazenda, montado em macho bem aparelhado. Atrás dele seguia o rucio, por ordem do duque, ornado com arreios jumentis de seda, e Sancho voltava a cabeça a todo momento para mirá-lo, tão satisfeito com aquela companhia que não trocaria lugar com imperador. Despediu-se dos duques, beijou-lhes as mãos e recebeu a bênção de Dom Quixote, que a deu chorando; Sancho a tomou com beiço trêmulo. Mal o escudeiro se afastou, Dom Quixote sentiu a ausência. A duquesa percebeu a melancolia e ofereceu criados, dueñas e donzelas para servi-lo. Ele aceitou apenas a boa vontade, pedindo que dentro do aposento pudesse servir-se sozinho.

A duquesa insistiu com quatro donzelas formosas. Dom Quixote recusou, dizendo que para ele seriam espinhos, não flores. Queria erguer muro entre os desejos e a honestidade guardada para Dulcineia, e antes dormiria vestido que permitiria que alguém o despisse. A duquesa respondeu que nem uma mosca entraria na sua câmara, quanto menos uma donzela, pois não desejava diminuir a decência do cavaleiro. Louvou Dulcineia por merecer amor tão casto e pediu aos céus que Sancho terminasse logo os açoites, para que o mundo voltasse a gozar a beleza daquela senhora. Dom Quixote agradeceu a defesa de sua dama, aceitou jantar e afirmou que Clavileño fora montaria tão repousada que ainda não entendia por que Malambruno a queimara.

A duquesa explicou que talvez o encantador, arrependido do mal feito, resolvera destruir o principal instrumento de suas artes, deixando o valor de Dom Quixote eternizado nas cinzas do cavalo e no letreiro do jardim. O cavaleiro agradeceu de novo e, depois da ceia, recolheu-se só. À luz de duas velas, começou a despir-se e, ao tirar a meia, sofreu desgraça indigna de sua pessoa: soltaram-se quase duas dúzias de pontos, abrindo carreira larga no verde. A pobreza do hidalgo inteiro pareceu concentrar-se naquele rasgão. Cide Hamete lamentou a miséria dos bem-nascidos, obrigados a disfarçar sapatos gastos, botões desencontrados, golas pobres e fome escondida sob palito de dentes levado à rua como prova de almoço inexistente.

Dom Quixote ficou aflito com a meia, embora se consolasse ao ver umas botas de caminho deixadas por Sancho, capazes de encobrir no dia seguinte o dano. Deitou-se pensativo, sentindo falta do escudeiro e o golpe irreparável da roupa. O calor não o deixava dormir. Apagou as velas, levantou-se e abriu um pouco a janela gradeada que dava para belo jardim. Lá embaixo ouviu vozes. Uma moça, chamada Altisidora, recusava-se a cantar, dizendo que desde a chegada do estrangeiro ao castelo só sabia chorar; a amiga Emerência insistia, pois o senhor de seu coração acabara de abrir a janela e devia estar acordado. Altisidora temia que seu canto revelasse amor e a fizesse parecer leviana, mas decidiu arriscar a vergonha.

Uma harpa soou suavemente. Dom Quixote, ao ouvi-la, lembrou aventuras de livros de cavalaria em janelas, jardins, músicas e amores secretos. Imaginou que alguma donzela da duquesa se apaixonara por ele e que a honestidade a obrigava a cantar escondida. Temendo render-se, encomendou-se a Dulcineia e deu um falso espirro para mostrar que escutava. Altisidora começou um romance de queixa amorosa: chamava-o cavaleiro valente, honesto e bendito; acusava-o de ferir e negar remédio; invejava Dulcineia; prometia cofias, escarpins, calças finas, pérolas e humildes serviços; declarava ter catorze anos e três meses, não ser manca nem coxa, possuir cabelos longos, dentes estimáveis e nome conhecido naquela casa.

Terminado o canto, Dom Quixote suspirou como quem sofre agravo. Em pensamento, lamentou que toda donzela que o mirasse se enamorasse dele e que a pobre Dulcineia não pudesse gozar em paz a firmeza de seu coração. Pediu que rainhas, imperatrizes e moças de catorze para quinze anos deixassem a dama triunfar sozinha. Para Dulcineia, dizia ele, era feito de brandura; para as demais, de pedra. Só ela lhe parecia formosa, discreta, honesta e bem-nascida, pois a natureza o lançara ao mundo para pertencer a uma única senhora. Com essa resolução, fechou a janela de golpe, deitou-se despeitado e pesaroso, enquanto a história o deixa ali por um momento para atender ao grande Sancho Pança, prestes a iniciar seu famoso governo.

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