Capítulo 50 - A voz de Dom Luís
Capítulo 50 - A voz de Dom Luís
A venda, depois de tantos reconhecimentos, parecia finalmente buscar algum repouso. O ouvidor e o cativo ainda conversavam baixo, recompondo anos perdidos com perguntas que se atropelavam. Zoraida, acolhida com mais segurança, permanecia junto das mulheres, observando aquela família encontrada como quem contempla uma promessa distante. Dom Quixote vigiava tudo com a satisfação de quem julgava ter assistido a um desses prodígios que confirmam a ordem secreta da cavalaria.
Mas havia uma pessoa que não participava da alegria com a mesma liberdade. Clara, filha do ouvidor, conservava os olhos baixos e o rosto inquieto. As mulheres notaram primeiro. Doroteia, que conhecia bem os sinais de um coração perseguido, aproximou-se dela com delicadeza. Lucinda fez o mesmo, sem pressionar. A jovem sorria quando lhe falavam, mas logo tornava a escutar alguma coisa que parecia vir de fora da casa, ou talvez de dentro de sua memória.
Quando a noite avançou e muitos se recolheram como puderam, uma voz surgiu no escuro, acompanhada por som brando de instrumento. Nenhum canto de estalagem, nenhum gracejo de criado, nenhum ruído casual de viajante explicava aquilo. Tratava-se de uma voz jovem, triste e medida, cantando como quem fala para uma única pessoa escondida atrás das paredes. As palavras falavam de distância, promessa e sofrimento; e, antes mesmo que se entendesse tudo, Clara empalideceu.
Doroteia percebeu que aquela música acertara a jovem como uma seta. Perguntou-lhe em segredo se conhecia o cantor. Clara tentou negar, mas a voz, la fora, continuou. Cada verso parecia tirar dela uma defesa. Por fim, entre vergonha e lagrimas, confessou que aquele era Dom Luís, filho de um senhor poderoso de sua terra, jovem de nascimento alto e vontade ainda mais teimosa. Havia-a visto, amado e seguido, apesar das diferencas de estado e da autoridade das famílias.
Clara contou que não lhe dera palavras levianas, mas tampouco podia dizer que seu coração estivesse livre. Dom Luís a seguira disfarçado, deixando casa e conforto, não por capricho de estrada, mas por um amor que a assustava justamente por parecer sério. Ela temia o pai, temia a desigualdade entre as casas, temia a opinião do mundo e, acima de tudo, temia que a ousadia do jovem acabasse em desgraça. Ao dizer isso, chorou como quem se culpa por uma culpa que talvez não tivesse escolhido.
Doroteia ouviu com aquela prudência que nasce da dor própria. Disse a Clara que o amor escondido, quando e honrado, não se cura com susto nem se resolve com silêncio. Lucinda, mais suave, lembrou que a verdade, embora perigosa, costuma ferir menos que o segredo prolongado. Zoraida, sem entender todas as palavras, entendeu as lagrimas da moça e tomou-lhe a mão, repetindo baixinho o nome que aprendera: Clara.
Enquanto isso, a voz de Dom Luís continuava do lado de fora, e alguns da venda já começavam a despertar. Sancho, mal instalado em seu canto, resmungou que naquela casa ninguém podia dormir sem que uma aventura resolvesse cantar debaixo da janela. Dom Quixote ergueu a cabeça, atento, e declarou que aquela era sem dúvida uma serenata de cavaleiro enamorado, costume nobre que merecia respeito, desde que não escondesse traição, encantamento ou desafio.
O cura e o barbeiro, chamados pelas mulheres, escutaram a breve confissão de Clara com cuidado. Ambos perceberam que o caso exigia tato. O ouvidor era homem honrado, mas pai; Dom Luís era jovem nobre, mas fugitivo; Clara era inocente, mas já estava envolvida pelo escandalo possível. Fernando, que também ouvira parte da história, manteve-se sério. Depois de tudo o que acontecera com Doroteia, conhecia bem o dano que um homem de melhor nascimento podia causar quando confundia desejo com direito.
Mandaram então observar discretamente quem cantava. Descobriu-se que o jovem estava perto da venda, vestido de maneira simples, com aparência de criado ou moço de caminho, embora seus modos denunciassem educação mais alta. Era Dom Luís. Não entrou de imediato, talvez por respeito, talvez por medo, talvez porque a coragem que serve para fugir de casa nem sempre basta para enfrentar o pai da pessoa amada.
Clara, ao saber que ele estava tão perto, ficou dividida entre alegria e terror. Queria vê-lo e queria que ele partisse antes que tudo se perdesse. Dizia que seu pai jamais consentiria num casamento precipitado, e que a família de Dom Luís talvez o perseguisse com fúria. Doroteia pediu-lhe calma. O cura prometeu que ninguém ali a entregaria ao ridículo. Lucinda recordou que, numa venda onde tantos destinos já tinham sido desatados, talvez também aquele encontrasse forma menos cruel.
Dom Quixote, informado apenas do necessário, ofereceu imediatamente seus servicos. Disse que defenderia a donzela Clara contra qualquer gigante, senhor soberbo ou pai desarrazoado que pretendesse violentar sua vontade. O cura, conhecendo o perigo de tal auxilio, agradeceu com pressa e explicou que o caso, por enquanto, precisava mais de silêncio que de lança. Sancho aprovou a parte do silêncio, sobretudo se ela permitisse dormir antes do nascer do sol.
A serenata cessou. A ausência da voz deixou Clara ainda mais inquieta, como se o silêncio fosse pior que a música. La fora, Dom Luís permanecia por perto, sem saber se devia fugir, esperar ou apresentar-se. Dentro da venda, os mais prudentes combinavam como impedir que o caso explodisse diante do ouvidor antes da hora. O cativo, percebendo nova preocupação no rosto do irmão, tentou poupa-lo, mas a noite já tinha acumulado histórias demais para obedecer a qualquer plano.
Quando tudo parecia voltar ao sussurro, chegaram sinais de outra perturbação: homens de caminho perguntavam por um jovem desaparecido, filho de pessoa importante, que talvez estivesse viajando disfarçado. A notícia correu em voz baixa pela venda e confirmou o temor de Clara. Dom Luís não viera sozinho no mundo; atrás dele vinham nome, casa, obediência e criados encarregados de devolve-lo.
O cura compreendeu que a próxima hora decidiria muito. Era preciso proteger Clara da vergonha, Dom Luís da imprudência, o ouvidor do choque e a venda de mais uma desordem. Tarefa difícil para uma casa onde cada canto guardava alguém ferido por amor, honra ou fantasia. Dom Quixote, sem saber a extensão do caso, sorriu como quem pressente combate. Para ele, a noite apenas cumpria sua vocação: trazer novas provas a quem nascera para enfrenta-las.
Assim terminou aquele intervalo: Clara entre medo e esperança, Dom Luís escondido perto da venda, os criados já rondando a estrada, e os amigos reunidos tentando ganhar tempo. O reconhecimento do cativo trouxera alegria; a voz do jovem trazia risco. E a venda, que deveria ser abrigo de passagem, tornava-se outra vez o centro de uma teia em que ninguém entrava sem deixar um segredo pendurado na porta.